Feriado, um dia como os outros para as famílias fora das listas das vítimas do Idai 8/04/2019

Em Moçambique, quando o calendário determina que o feriado seja gozado a um domingo, as regras determinam que passe a gozar-se a um dia de semana; assim, o 7 de Abril, dia da mulher Moçambicana, deu direito ao 7, e ao 8.

Dia da mulher Moçambicana é dia de lembrar que a vida se desenrola difícil, sempre difícil, mas um pouco (ou um muito) mais difícil quando se é mulher; num contexto em que ser mulher é menos, a quem se exige muito, muito mais! Em Moçambique a mulher cuida da casa, das crianças, da machamba, do marido, dos velhos, da sua culpa e responsabilidade por tudo de mau que acontece e de bom que não chegou a acontecer. Mas neste país há quem lute e respeite a luta por uma escalada da mulher na íngreme montanha social do reconhecimento. Há uma elevada e crescente representatividade política das mulheres e há um conjunto de organizações atentas e ativas no país, a trabalhar na advocacia pelos direitos das mulheres. Há boas notícias, mas há uma realidade profundamente desigual, injusta e dolorosa que é urgente transformar.

Neste dia 8 foi véspera da partida de parte da equipa (a equipa deslocada desde Nampula e Cabo Delgado regressa aos seus postos a partir do dia 9, atenta às necessidades da equipa da missão em emergência, quer permanece no Dombe). Neste dia, foi dia de garantir que a equipa que fica pode dispor de uma rede de solidariedade importante para o seu equilíbrio e necessidades operacionais; foi dia de estabelecer contactos com outros portugueses em Chimoio e foi dia de balanço de necessidades da missão numa ótica de continuidade da procura de soluções para os ainda incontáveis problemas.

Este dia 8 foi ainda dia de “lançar” ao mar a embarcação Esperança, disponibilizada pela Helpo aos serviços de saúde para que as equipas possam fazer a travessia do rio em segurança e alcançar as comunidades que permanecem num elevado nível de isolamento. A mesma permitirá ainda o transporte de comida e dos kits familiares necessários para amenizar as necessidades das pessoas. Em articulação com o régulo, os primeiros beneficiários começaram a utilizar a “Esperança”!

Foi dia de organizar nova compra de medicamentos identificados como necessários e de ter notícias do Obede: sorriu, está sem vómitos e sem diarreia, tudo bons sinais.

Mas o que mais marcou este dia 8, foi a história do padre Rafael: Saiu com os primeiros raios de sol, de mota, e já a noite ía comprida e o padre não chegava. Acabou por chegar já depois da hora do jantar. Com ele trazia o choque, trazia uma história inacreditável, e a urgência em agir! O padre Rafael fez um troço de 58 km de mota e chegou a uma povoação de nome Muchamba onde só chegou ele! Há 3 semanas que as pessoas desta comunidade estão sem nada, sem ajuda, sem a atenção de nenhum cantinho do mundo ou de alguma das organizações que estão no terreno. O Padre Rafael saiu e não voltava porque era preciso registar cada uma das 410 famílias que encontrou, as suas perdas, os seus nomes, as suas enormes e profundas necessidades.

Todos se preocuparam com a ausência do Padre Rafael, com os perigos e ameaças que poderia ter encontrado em estradas sem luz, de mota, rodeadas de água…e o Padre respondeu às preocupações dizendo que “Em 1991 tive um acidente de mota no qual ía perdendo a vida. Pedi a Deus que me desse mais 10 anos porque iria servir os outros. Já tive mais do que pedi, por isso já não estou preocupado em ficar debaixo de água ou em cair de mota! Não penso em mim, mas penso nas 410 famílias de Muchamba que estão há 3 semanas sem nada.”

Na manhã seguinte, (hoje, dia 9), a Helpo dirigiu-se à OCHA com os dados recolhidos pelo Padre Rafael. Não sabiam, não poderiam saber, e pediram com urgência e gravidade na voz as coordenadas geográficas desta localidade.

E eu, eu penso em quantas “Muchambas” haverá ainda por descobrir na vastíssima área afetada por esta catástrofe; por quantas famílias deveremos multiplicar estas 410? #Idai

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