Nunca se sai do Dombe 9/04/2019

Ao entrar e percorrer toda a localidade de Dombe, estranhei o facto de, ao passar toda a localidade, ter na saída outra placa a anunciar Dombe, como se aquele vazio que se vê depois do alcatrão, também fosse o Dombe.

Cheguei a Dombe, Distrito de Sussundenga, pela primeira vez ao final da tarde de sexta feira, 5 de Abril de 2019, depois de comprar um barco, algo que achava que nunca faria na vida, e de viajar desde Chimoio, capital da Província de Manica.

Fui muito bem recebido pelas Irmãs do Instituto das Pequenas Missionários de Maria Imaculada, onde jantei, mas nessa noite nem conheci aquele que tinha sido a nossa interlocutora via whatsapp, quando a rede o permitia, a Irmã Miriam, pois trabalhou até depois da hora de eu recolher, na vizinha casa dos Padres Missionários de África. No dia seguinte saímos cedo para ir apanhar o barco a Chimoio e regressar, numa pequena viagem de 130 km passando montanhas com curvas, subidas e descidas íngremes, pontes militares, e um reboque, tudo bons ingredientes para uma aventura ao volante. Da recente cheia vemos vestígios por todo o lado, desde bocados de capim no cimo dos postes de eletricidade, indicando os níveis infernais que a água atingiu, vestígios de lama por todo o lado, estradas partidas, pontes danificadas. Numa curta visita a um dos centros de acomodação, deu para sentir o sofrimento do povo.

O Padre Jean Bosco é natural do Burundi. Depois de alguns anos na Missão de Dombe, está agora na Beira. Afirma que as para as pessoas da Cidade da beira o ciclone teve consequências terríveis, cicatrizes que vão demorar a sarar, mas que em um ou dois anos, tudo fica reconstruído. Mas para o povo das zonas rurais, como é o caso de Dombe que ele conhece bem, esta catástrofe, além de ter tirado tudo, tirou a única fonte de rendimento, de alimentação e de esperança. Toda a colheita ficou perdida o que hipoteca sonhos, saúde, e perspetiva da próxima refeição… tudo! Para quem vive da terra isto foi terrível. Falando um pouco sobre a realidade de Dombe, o Padre Jean Bosco diz que o pessoal de Maputo não sabe nada sobre casamentos prematuros: “Aqui tem meninas de 9, 6 anos que são entregues a homens para trabalhar enquanto não têm idade para outras coisas. Se fogem para casa, o próprio pai manda de volta. Por vezes são amarradas para não fugir! Uma vez cheguei numa comunidade e o nosso catequista tinha as meninas sentadas numa fila e os meninos sentados noutra fila. Comecei a perguntar às meninas: -Estudas? -Não; -Estudas? -Não; Estudas? -Não; Todas não! Então perguntei aos meninos: -Estudas? – Sim, 3ª Classe; -Estudas? -Sim, 5ª Classe. Então perguntei porque é que as meninas não iam à escola e o nosso catequista respondeu “As meninas não vão à escola porque lá aprendem a prostituição”. Falou assim, (tendo repetido em língua Ndau) Nosso catequista! Homens aqui têm problemas… Uma vez uma senhora queimou-se enquanto cozinhava chima, precisava apoio médico mas o marido estava em Chimoio e não autorizou ir ao Hospital, deveria esperar dois dias até ele chegar.”

Foi o Padre Jean Bosco que me contou a história do Padre Raphael Gasimba. Na manhã de Domingo dia 7 Abril, dia da Mulher Moçambicana, estava a matabichar, verbo que em Moçambique significa tomar o pequeno almoço (matabicho), quando a sala recebeu a visita do Bispo do Chimoio D. João Carlos Nunes, de uma Irmã Franciscana e do próprio Padre Jean Bosco. Depois do ciclone Idai ter arrasado a Beira e das primeiras notícias que no dia seguinte Dombe tinha ficado submerso, o Padre Raphael que se encontrava na Beira decide viajar para Dombe na madrugada de Sábado para Domingo para tentar fazer alguma coisa. Segundo o Bispo, foi ele quem cortou a estrada N6 entre Beira e Inchope. Estava cheia de água mas ele decidiu passar porque conseguia ver os limites da via, até que a estrada abateu e o carro começou a afundar-se nas águas do Rio Pungué, que se tinha transformado em Oceano! Enquanto o carro descia lentamente, invocou S. José, abriu o vidro, e mesmo sem saber nadar conseguiu sair e pôr-se a salvo, testemunhado por um senhor que estava perto refugiado no cimo de uma árvore. Pouco depois chegou um autocarro, enquanto o Padre Raphael contemplava o imenso mar, e o homem no topo da árvore temia um cenário pior e clamava por ajuda: Salvem esse homem! Ele vai suicidar-se! Deve ter perdido a família dentro do carro! Salvem-no! Ele vai suicidar-se!

Felizmente neste episódio particular ninguém perdeu a vida e o Padre Raphael continua empenhado em dedicar a sua vida a salvar os outros. Na manhã de Segunda feira, dia 8, saiu de madrugada, sozinho na sua mota para percorrer 58 km em 4 horas até Muchamba, uma zona que se sabia que desde o ciclone, há 3 semanas , não havia chegado qualquer ajuda. Depois de fazer o registo das 410 famílias (1674 pessoas) e de tudo o que tinham perdido, o regresso demorou 5 horas, tendo parte da viagem sido feita de noite. Não imagino como seja uma estrada onde carro não entra, mas sei que em algumas zonas a água chegava ao joelho.

O maravilhoso jantar em casa das Irmãs feito pela mão abençoada da Irmã Jeane digno do masterchef, foi perturbado pela preocupação que invadia as irmãs, pois em Muchamba não há rede de telemóvel e ninguém sabia nada do Padre Raphael há várias horas. Foi só à hora da sobremesa e depois de vários telefonemas da Irmã Miriam, e duas idas à casa dos Padres, que descobriu que tinha acabado de chegar, são e salvo. Até a maravilhosa cocada, docinho de coco de provar e chorar por mais, que a Irmã Maira faz de forma divina, conseguiu saber ainda melhor.

Ao chegar a casa dos Padres para pernoitar, encontrei o Padre Raphael, comecei por pedir desculpa, por não me sentir capaz de dar sermão a um Padre, mas tinha que lhe dizer que viajar sozinho de mota naquelas condições não era boa ideia e que tinha deixado as irmãs muito preocupadas. O Padre Raphael sorriu e disse: “Em 1991 tive um acidente de mota no Malawi em que quase perdi a vida. Pedi a Deus que me desse mais dez anos de vida porque iria servir os outros. Já tive mais do que pedi, por isso não estou preocupado em ficar debaixo de água, ou cair de mota. Não penso em mim, penso nessas 410 famílias de Muchamba, que estão há 3 semanas sem nada”

As cheias em Dombe deixaram marcas. No guarda da casa do Padre que ficou 3 dias no cimo de uma árvore e até rezou para chover mais porque tinha sede e precisava beber água da chuva. Deixou marcas no Bispo que ao recebeu uma mensagem a dizer “Missão de Dombe já era”, e que ao constatar que estava cercada de água por todos os lados, não se sabendo o que estava para lá daquele oceano, temeu o pior. Juntando isso ao testemunho de uma pessoa que lhe disse que tinha visto uns brancos a flutuar, fez pairar o pior cenário possível. Afinal a missão apenas ficou “ilhada” tendo a Fazenda da Esperança sofrido destruição nas suas machambas (terrenos agrícolas), um trator revirado e comida perdida. Passado uns dias o Bispo regressou e confrontou a pessoa que afirmara ter visto corpos de brancos a flutuar e, com um sorriso ela disse “eu vi mesmo, deviam ser alguns albinos…” Até na mais profunda das desgraças, os moçambicanos têm força para rir.

No dia 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, o barco da Helpo ganhou nome de mulher, Esperança, batizado pelo Padre Raphael e benzido pelo Bispo. Depois aprendemos que afinal Esperança não é um barco, mas sim uma embarcação, que no dia 8 teve honras de ser lançado ao rio Mussapa para beneficiar a população da área de ZIchau e para permitir as nutricionistas da Helpo e as equipas da Saúde de fazer trabalho nessa área.

O Régulo Zichau, não cabia em si de feliz. Os Régulos são os líderes comunitários, os “donos da terra”, e ver a população atravessar rios em cascas de árvores, segundo as suas palavras, não anima. Ele próprio disse que a esposa estava doente mas não queria vir ao Hospital por ter medo de cruzar o rio. Tivemos uma conversa para tentar operacionalizar da melhor forma a utilização da ESPERANÇA e o Régulo afirmou que já tinha levado as irmãs a rios com crocodilos. Perante a preocupação da Irmã Teresa, respondeu de forma muito pragmática – “Tem crocodilo mas crocodilo não é problema. Cidade não está cheia de carros e acidentes? E por causa disso não vamos à cidade? Vamos! Sr. Carlos não chegou de Nampula, nessa estrada cheia de carros e acidentes? Crocodilo não é problema!”

Se dúvidas houvesse da afinidade entre portugueses distantes do seu lar, no Dombe tivemos mais uma prova. Cinco portugueses, funcionários da Empresa Mota-Engil, “desterrados” para a construção da estrada Chimoio – Espungabera, abriram-nos as portas do estaleiro, muito hospitaleiros, ajudaram no lançamento da ESPERANÇA ao rio Mussapa, resolveram um pequeno problema mecânico e disponibilizaram-se para ajudar na integração das nossa Nutricionistas, logo com um convite para um almoço de elevado valor nutricional, um arroz de cabidela. Um dos homens da Mota-Engil, o Célio, foi subtraído de um maço de tabaco e um isqueiro pelo Régulo Zichau que agradeceu muito o favor. Quando avisei que era melhor não fumar pois fazia mal saúde, respondeu-me “Não tem problema, fico este amigo português lá no hospital! Fico muito bem!”

Quando as desgraças nos fazem conhecer o melhor das pessoas e quando avançar na escuridão nos faz vez uma enorme luz de esperança, penso no exercício que foi, fechados na sala de reuniões da Helpo, pensar, questionar, telefonar, estudar, sentir pressões externas para avançar para aquilo que sabíamos ser o correto, mas não sabíamos como. Depois dos contatos telefónicos com as Irmãs do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, sentimos que era ali que poderíamos fazer a diferença. Conhecer a irmã Miriam, um poço de energia, capaz de fazer 10 coisas ao mesmo tempo, sempre a primeira a sair e a última a chegar, e tudo isto com um permanente sorriso encantador nos lábios, conhecer a Irmã Maria Teresa, um autêntico farol, que com uma serenidade, nos guia , nos acalma e nos dá força. Deixar as nossas 3 nutricionistas num local pós catástrofe poderia ser complicado, mas acho que ao sair nos apercebemos que esta parceria que parece ter tido intervenção divina para acontecer, nos deixa confiantes que o trabalho será bem feito e estão perfeitamente enquadrada e com ambiente de afeto, necessário para realizar um trabalho de excelência.

Nem as histórias macabras dos gritos incessantes das pessoas penduradas 2 e 3 dias em cima das árvores pedindo socorro, do casal que, agarrado a um tronco flutuou durante cerca de 14 km, mas que mesmo se salvando os filhos “foram embora”, das histórias de esperança dos pais que amarraram as crianças às árvores com rede mosquiteira para que não caíssem no rio que se fez mar, faz sentir vibrações negativas nesta terra.

É muito mais o bem que podemos fazer que o mal que pode acontecer.

P.S. – 24 horas mais tarde e com 475 km rumo a Nampula percorridos, sabemos que por termos contatado a OCHA (Gabinete Coordenador), em Chimoio, e tendo dado toda a informação sobre a situação alarmante em Muchamba, incluindo os relatórios detalhados do Padre Raphael,  já foram tomadas medidas para ser feita uma intervenção, por helicóptero. Também recebemos informação que a UK AID solicitou a nossa embarcação ESPERANÇA para uma intervenção em grande escala noutra zona do rio onde a ajuda era necessária. Também demos um abraço ao Joaquim Vidigal, que rapidamente passou de vendedor de barco para amigo e voluntário ativo da Helpo em Chimoio, ajudando em todos os quadrantes. Foi a 475 km de distância que compreendi o significado da placa no final de Dombe. Nunca se sai daquele lugar porque veio algo no meu coração que eu não conhecia. Aquele lugar e as suas gentes estão aqui comigo e acompanharam-me toda esta viagem. Sinto que nunca mais sairei de Dombe.

  • Testemunho de Carlos Almeida, coordenador Nacional da Helpo em Moçambique. Caia, aos 9/04/2019 #Idai

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