História da segunda-feira de um calendário apressado 15/04/2019

A realização dos rastreios nutricionais requere uma programação e articulação adequada com os Régulos e líderes das comunidades e hoje, foi precisamente assim que iniciámos o dia.
Deslocamo-nos à comunidade de Nhanhemba, que dista cerca de 17km do Dombe, e fomos recebidas pelo agente de saúde Jossias Noé Tchaka. Esta comunidade é composta por 4 bairros – Sambanhe, Raice, Ndamanicua e Mussengue – e é banhada pelos rios Lucite e Munhanhage, que subiram dramaticamente durante as cheias. O rio Lucite protagonizou algumas das imagens que se tornaram conhecidas através das redes sociais, tv e jornais mas, sendo um dos rios que se situa na bacia do Buzi, acabou por passar incólume no que diz respeito à fama.
Segundo os relatos do Sr. Jossias, as pessoas tiveram de percorrer longas distâncias desde a margem dos rios até encontrarem zonas mais altas onde se sentissem minimamente seguras. Várias pessoas, durante a fuga desenfreada da água, tiveram de ficar penduradas nas árvores e algumas mulheres “deram parto” nessas condições. Apenas um ou dois casos fizeram história na imprensa mas por incrível que pareça, a situação repetiu-se aqui e ali.
Só no bairro de Mussengue, 161 casas ficaram destruídas. São descrições absolutamente impressionantes. Nesta comunidade, para além de termos identificado que a alimentação chegou pela última vez há cerca de um mês, percebemos também que a bomba de água de Sambanhe não está a funcionar, existindo adicionalmente uma preocupação das pessoas relativamente à qualidade da própria água.
O ciclone, esse, ficou lá atrás, no dia 15 de Março, mas as ondas de choque que provocou não param de multiplicar-se, com o passar dos dias!
Registámos todas essas informações com inquietação, manifestando a nossa vontade de realizar as diligências necessárias para ajudarmos. Assim, à chegada ao centro de saúde, conversamos com o Dr. Sérgio e a partir de amanhã, junto de cada ponto de abastecimento de água, estarão ativistas a distribuir Certeza e a informar as pessoas de como deverão proceder para garantir que a água não esteja contaminada. Articulámos também com a Swiss Internacional, que trabalha com wash (sigla que está para Water, Sanitation and Higiene), a dar conta da situação da bomba de Sambanhe.
É bom quando encontramos as pessoas certas, no local certo, e damos seguimento aos nossos propósitos! É bom sentir que estar no terreno, de olhos postos nas pessoas e nos seus problemas, apesar de termos um foco específico, nos permite estabelecer pontes que chegam para amenizar muitos outros problemas!
No meio de tudo isto, uma das nutricionistas ficou a dar apoio às crianças com desnutrição que estão internadas, com as pesagens diárias e devidos ajustes nas doses dos leites terapêuticos.
O período da tarde revelou-se um autêntico desafio, com a constituição dos kits de roupa, que serão distribuídos em articulação com as Irmãs durante esta semana, nas comunidades já identificadas.
Esta foi a segunda-feira que marca um mês após a passagem do Idai pelo centro de Moçambique, pelo Dombe, por estas comunidades e pela vida destas pessoas adentro, e foi uma segunda-feira cheia de diversidade, que faz antever uma semana muito preenchida e uns tempos vindouros em que (ainda) não se tem tempo para respirar, porque a urgência ainda dita o ritmo dos dias!
* Testemunho de Liliana Granja, nutricionista da equipa da missão humanitária da Helpo no Dombe #Idai

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s