Um mês depois, na terra dos telhados de capim 15/04/2019

O ciclone Idai tinha sido anunciado, o aeroporto da Beira foi fechado, os voos domésticos cancelados. Aqueles que tinham meios, (meios para aceder às notícias e meios para se afastarem do “olho do furacão”) e que já anteviam a fúria da natureza, deslocaram-se para longe, tomando os seus lugares no avião enquanto era tempo. Depois disso, só a espera. Há relatos de pessoas, pessoas da cidade com relógios que marcam a passagem do tempo com precisão, que falam em quatro horas de horror. Os relatos das pessoas fora das cidades, esses, não mediam o tempo em horas mas em dias: os dias que estiveram em cima das árvores, os dias que esperaram até receberem a primeira visita, os dias de espera até voltarem a comer, os dias que passaram sem ver aqueles que não voltariam a ver…

É curioso ver as imagens que nos chegaram através das televisões, com centenas de pessoas atulhadas em cima de telhados que pareciam minúsculos tendo em conta o mar de gente que neles permanecia, e imaginar os sítios onde não havia telhados.

70% da população de Moçambique vive em meio rural. Nessa ruralidade, não há lugar para telhados. Os telhados são de capim e em cima de telhados de capim ninguém se salva. Por isso, as histórias dos sobreviventes das aldeias são todas iguais. Sem barulho de vidros a partir e com dias a fio em cima de árvores… Nessas histórias, as pessoas perderam tudo, mas perder tudo é essencialmente perder o norte, perder o produto das colheitas, perder a terras que sentiam como suas, perder familiares e perder a esperança. Vive-se a contar minuciosamente tudo o que se come, a subtrair refeições à fome e a duvidar da próxima vez em que será entregue comida. Vive-se assim independentemente de se ser criança, grávida, velho, ou doente. Vive-se assim porque ainda não se consegue viver de outra maneira.

A vida está organizada em tendas, ou debaixo de lonas improvisadas. A terra está coberta por camadas e camadas de lama avessas ao cultivo e à fixação das populações. E as pessoas vão sendo empurradas contra a urgência de recomeçar, quando muitas vezes a vida não lhes permite programar nem a refeição seguinte.

Depois há o anonimato, espalhado por aquelas centenas de quilómetros quadrados de mato, salpicados de sabe-se-lá-quantas aldeias que ainda não conhecerem ajuda e que ainda não estão referenciadas pelas agências que coordenam toda a operação de resposta e assistência às vítimas do Idai… aldeias cujos mortos ainda não engrossam as estatísticas, estatísticas para as quais os desaparecidos ainda não desapareceram. Aldeias que ficaram de fora dos mapeamentos da ajuda e que, dia a dia, vão sendo descobertas com uma camada espessa de desespero e esquecimento por cima. E depois surgem as notícias, que dão conta de cerca de 700 mil pessoas à espera de ajuda alimentar…

Dentro da lógica do que “faz a notícia”, talvez já não seja notícia que um mês depois haja tanta gente a viver em desespero. Não pela dimensão desse desespero ou pelo número de pessoas, que são imensos, mas por ter passado um mês…Da forma como vejo as coisas, seria (ainda) mais notícia agora…

Passou um mês. A equipa da Helpo que trabalha diariamente no terreno não se emociona menos, não trabalha a menor ritmo, não dá menos de si. Não identifica cada vez menos casos de crianças e grávidas a precisar de cuidados (pelo contrário), não esmorece. Passou um mês, o nível das águas baixou, o sol apareceu e parece ter deixado a descoberto tudo o que ainda há por fazer…

* Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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