O primeiro dia do resto dos dias 16/04/2019

O primeiro dia depois de um mês do ciclone. Para mim, continua a parecer sempre o primeiro dia. Acordo com a urgência de acudir quem ainda continua sem comida, sem roupa, sem casa.
Ontem eram quase 20h, noite cerrada, quando deixei o último grupo de voluntários do Curso de Desenvolvimento Comunitário da One World University, no acampamento, depois de uma tarde de preparação de kits para distribuir à população. Já estava a regressar a casa, quando o telefone tocou. O técnico Zacarias referenciou uma mãe para a equipa da nutrição. Mãe de gémeas.
Voltei para trás, o jantar ficou à minha espera. Entrei na enfermaria destinada aos homens onde não era suposto estarem crianças, mas a sala do lado estava lotada. O técnico Zacarias diz: a mãe é esta aqui, apontando para a primeira cama do lado direito. Consegui decifrar a cor da rede mosquiteira. Azul. Mas mais do que isso já não era possível. Não há energia. Percebi que a cama estava cheia. Cumprimentei as outras mamãs, que já familiarizadas com a visita da Helpo, me reconheceram no escuro. O técnico Zacarias transformou o telemóvel em lanterna e preparou o ambiente para uma espécie de consulta.
A primeira gémea, de nome Zinha, estava no colo de uma irmã, com os seus seis, sete, oito anos. “Por aí… não sabe precisar”. Dormia. A segunda, de nome Esta, estava a mamar, embrulhada numa mixórdia de panos sujos que disfarçavam o seu minúsculo tamanho. Estavam à minha espera desde a hora do almoço. O técnico Zacarias, no fim de as ter atendido na consulta infantil encaminhou-as para uma avaliação de nutrição e pediu à mãe para esperar. Como não tinha saldo no telemóvel, o recado só chegou cá deste lado, quando conseguiu um telemóvel emprestado para me avisar.
A mãe Lúcia não percebe o meu português. É preciso escolher bem as perguntas para que a comunicação não seja uma des-comunicação.
“Estava bem, mas desde que saí da árvore estou muito fraca.”
Ficou dois dias empoleirada nos galhos a ver a água passar debaixo do corpo amedrontado pela morte. Segurou as duas filhas, não sabe bem como. Sem comer e sem dormir. Diz que se salvou porque rezou.
No fim de perceber que os bebés tinham boa sucção, não havia tempo a perder. Era preciso matar a fome daquela lactante, para que ela matasse a fome dos seus bebés e pudessem ter uma noite reparadora. Tinham saído de casa às seis da manhã e percorrido duas horas a pé, que medidas sem relógio são bem capazes de chegar a três. Não tinham voltado a comer.
É um cenário difícil de imaginar, quando pensamos num hospital do nosso país, onde são servidas cinco ou seis refeições por dia, das quais às vezes ainda reclamamos. No Dombe há um hospital que nem comida de hospital tem.
Hoje o dia começou mais cedo, para podermos avaliar estas crianças com tempo, com luz e com a energia matinal. Às sete da manhã, a caneta registava 1525g e 1700g. A balança pensava que tinha duas recém-nascidas em cima, mas não, estas duas meninas tinham completado dois meses. Dois meses, dois dias em cima da árvore. Duas almas do outro mundo.
A meio da manhã, o carro seguiu para o centro de acomodação de Nhanhemba, onde fizemos 298 rastreios a crianças menores de cinco anos e a 69 mulheres grávidas e lactantes. Enquanto no centro de saúde da Missão, a outra nutricionista fazia consultas de nutrição aos casos que já estão em tratamento.
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da missão humanitária da Helpo, no Dombe #Idai

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