O que não há, e que não deixa dormir 18/04/2019

Morre-se de malária, o que não é novidade, mas já não devia ser assim em pleno século XXI. Ficou mais uma cama livre na enfermaria.
Não há medicamentos. A energia elétrica ainda não foi restabelecida. Existe uma ambulância, que é autocarro dos profissionais de saúde, que é carro de compras e que depois também é ambulância. As salas do centro de saúde ficam muitas vezes de porta aberta sem que os responsáveis possam responder, porque eles próprios foram chamados para responder em outro lugar, e, os doentes esperam horas para ser atendidos.
Dava jeito ter outro par de braços e poder dividir o corpo em dois para mais poder fazer. E se não fosse pedir muito, também dava jeito que o dia pudesse ter mais que vinte e quatro horas. Gostava de chegar à cama e adormecer vencida pelo cansaço dos dias tão cheios e intensos, mas fico a lutar contra um turbilhão de emoções.
Hoje exploramos o acesso ao centro de saúde de Bunga. Mas sem resultado. Como choveu nos últimos dias a estrada voltou a ser matope (lama). O enfermeiro Joaquim explicou-nos que o caminho alternativo era atravessar o rio na casca de árvore, colocar a mota nessa mesma casca de árvore, e já do lado de lá, percorrer mais 7km para chegar a Phembanhissa. Arriscado. Muito arriscado.
Em Portugal, parece que a falta de combustível desencadeou uma correria desenfreada para as gasolineiras. Aqui faltam estradas. Faltam pontes que deixem os rios ser apenas natureza, e não inimigos do povo que está isolado. Faltam carros. Falta combustível para o estômago de quem tem de palmear quilómetros com a sola dos pés.
Dualidades. Tenho a sensação de que estou num filme, daqueles que ganham óscares de tão reais que parecem ser. O mais angustiante é que é mesmo real. É real que a esta hora, lá fora, centenas de pessoas dormem ao relento sem terem tido um jantar digno. E nós aqui dentro, vamos dormir num quarto partilhado, pequenino, mas tão luxuoso que é impossível queixar-me de qualquer coisa que seja. Olho para o fundo da cama e as nossas mochilas de campismo que continuam a ser o nosso armário da roupa, dormem num chão mais confortável que a terra molhada dos centros de acomodação.
Estamos em tempo de quaresma. A quinta-feira santa é um dos dias mais importantes para esta congregação que nos recebeu de braços abertos aqui no Dombe, o Instituo das Pequenas Missionárias da Maria Imaculada. E exatamente por isso, a noite de hoje foi carregada de simbolismo. O jantar foi simples. Como é costume, acompanhamos as irmãs na oração de agradecimento pela refeição antes de começarmos a comer. Mas hoje, sentimo-nos duplamente abençoadas quando, em nossa honra, leram uma passagem que nos viria a fazer entender a simbologia dos alimentos que tínhamos em cima da mesa: pão, vinho, cordeiro e ervas ácidas. No lugar do cordeiro (que não se encontra cá), saboreamos um pedaço de peixe, de fácil digestão, como pede a quaresma. O pão, disposto num prato florido, também ele fatiado em forma de flor, mostrou-nos mais uma vez como a Irmã Jeane trata todos os alimentos com um especial carinho. Em representação das ervas ácidas tivemos alface. E o vinho, reservado para ocasiões sagrados, desejado há vários dias, fez o requinte da refeição. O pequeno-almoço de amanhã vai ser simples. Até domingo vai prevalecer o silêncio e a introspeção.
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da missão humanitária da Helpo no Dombe #Idai

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s