O medo da repetição 25/04/2019

Ontem foi um dia daqueles em que parece que o silêncio domina tudo: domina os pensamentos, os receios, os momentos que são de espera, e pousa suavemente sobre todas as coisas que estão à nossa volta. Não é um silêncio feito de calma, mas feito de expectativa e de aflição. A palavra “ciclone” traz à nossa memória recente demasiada informação daquela difícil de digerir, daquela que o sono fica a ruminar sem nos deixar mergulhar em si.

Os nossos olhos permanecem presos à imagem de satélite que traz consigo um desenho circular, cheio de cores que prevêem coisas ora menos boas, ora piores, e o nome “Kenneth” vai pairando sobre nós como que ainda sem saber on de se situa: se do lado da desgraça, se do lado do alívio.

Será possível o mesmo país, as mesmas gentes, conhecerem a fúria da natureza, a sua força de destruição aleatória e total, duas vezes, em pouco mais de um mês? Será possível assistirmos a uma repetição de todo o sofrimento e perda, desespero e abandono, quando ainda nem sentimos o pulso ao rescaldo do primeiro abanão, a 360 graus?

O medo tem coisas boas: os centros de abrigo cheios de gente, a precaução a ganhar terreno à dúvida e, a partir daí basta rezar ou fazer figas ou o que seja que as nossas crenças e superstições nos aconselhem a fazer.

As horas passaram e o vento também. A chuva amainou e a aflição também. O Kenneth é um primo afastado do Idai. Há destruição ao nível material sobre algumas habitações, há árvores caídas, há certamente muito por fazer mas hoje, o dia seguinte, é um dia em que as pessoas amanhecem vivas e junto dos seus. E isso faz toda a diferença. Está quase tudo de pé. Já entrámos em contacto com quase todas as comunidades onde trabalhamos (à exceção de uma cujas comunicações vivem todos os dias um período difícil, mas as más notícias viajam rápido e não há sinal delas). Estão de pé, sobretudo, a nossa esperança e o nosso ânimo para continuar a trabalhar junto daqueles para quem a constatação da previsão meteorológica foi bem mais cruel: a população do centro de Moçambique que demorará muitos anos a recompor-se e uma vida inteira a esquecer o medo da chuva e do vento! #Kenneth

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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