A chuva, a perda, o medo e o medo da perda por causa da chuva 29/04/2019

Depois da passagem do ciclone Kenneth por cima de Moçambique, embatendo na costa pelo norte e distribuindo a sua fúria um pouco por toda a província de Cabo Delgado, com maior incidência para algumas zonas (áreas costeiras, ilhas e zona de Macomia), o ciclone passou e a população, com as histórias do Idai bem vivas na memória, respirou de alívio ao abrigo do exercício da inevitável comparação.

Mas o Kenneth, afinal, não desapareceu como chegou: ficou pelo norte a fazer jorrar água do céu como se o mar tivesse trocado de lugar com o solo. Ficou a assombrar as casas, os regressos, a comida que as famílias tinham guardada até à próxima colheita. Ficou, e a chuva que começou a acumular-se no chão das casas, nas represas que acabariam por ceder, nas estradas que acabariam por ser engolidas pela água, não arredou pé! Ficámos todos a assistir devagar, porque não há mais nada que se possa fazer, aos tetos e paredes que desistiram de sustentar as casas, ás árvores que, cansadas, desmaiam nas bermas das estradas e às pessoas que somam àquilo que já perderam, o que continuam a perder. Mas agarradas à vida, presas ao medo do imprevisto e à segurança que os portos de abrigo oferecem.

Esta manhã, a caminho de uma das comunidades afetadas, Silva Macua, Sunate ou Salaué, (uma comunidade conhecida pelos três nomes), para entregar um kit de alimentação em emergência às 27 famílias que perderam as habitações na totalidade, a equipa parou numa escola secundária onde damos apoio a 144 estudantes. A escola, transformada em centro de abrigo, está a albergar 210 pessoas, mas não tem como saciar a fome a esta gente! As pessoas são muitas para a comida que conseguimos trazer. Teremos que passar com segundo round! Depois de em Silva Macua termos entregue os bens alimentares que irão ajudar no imediato 99 pessoas, não houve alternativa se não aumentar o volume da encomendas de arroz, farinha, água, óleo, açúcar, sal e sabão para conseguir estender a ajuda a mais gente. Uma ajuda pequena na imensidão da necessidade, mas uma ajuda.

De cada vez que a chuva pára, acende-se a esperança do regresso à normalidade. De cada vez que a chuva pára, o medo recolhe. Mas até agora, por cada vez que a chuva parou, a chuva acabou sempre por regressar. Vamos trabalhar e esperar, trabalhando, pelo dia de amanhã. #Kenneth

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

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