Recomeçar tudo o que não se deseja recomeçar 01/05/2019

O Kenneth passou, e foi precedido por dias todos iguais: carregados de chuva, de cadastros de pessoas que perderam totalmente, que perderam parcialmente, que perderam… O Kenneth e as chuvas que convidou a ficar não atingiram mortalmente uma cidade inteira, alagaram, alagaram e continuam a alagar tudo o que ainda subsiste sobre a terra que, saturada pela água, vai cedendo todos os dias mais um bocadinho. Assim, com esse cansaço, se engrossam os números de quem perdeu totalmente, de quem perdeu parcialmente e de quem continua a somar perdas!

Nas comunidades onde trabalhamos, assistimos todos os dias a estas somas. Onde havia 4 perdas totais depois da passagem do Kenneth, contam-se agora 80, e assim, sem avisos vermelhos em páginas da internet, somamos Mahera à lista de comunidades que é preciso acudir. Silva Macua, Mahera, Mieze. Locais que conhecemos enxutos, há mais de uma década. Lugares dos quais conhecemos de cor as salas de aula, os números de professores e alunos que crescem de ano para ano, as taxas de desistência escolar, as necessidades e obstáculos para a prossecução de ciclos, os diretores de escola, diretores pedagógicos…

Agora, conhecemos de novo estas comunidades, conhecemos-las do avesso. Não do lado da construção de oportunidades, mas do lado de amenizar a dor e de evitar catástrofes maiores! Do lado da fome e do medo de mais fome. Do lado de quem espera uma ajuda por não saber que outra coisa pode fazer quando as colheitas desapareceram, as casas evaporaram e a única coisa que não havia e que não desaparece é a água, a lama, e a chuva vai continuando a visitar a zona todas as tardes. Diligente, consistente e abundante. Tudo o que não se quer.

Recomeçamos um trabalho que aprendemos a fazer há bem pouco tempo: a aferição de quem precisa do quê, a articulação com quem está a trabalhar onde; o cadastro das grávidas, das crianças até aos 5 anos; as listas do que é preciso comprar, a organização dos transportes e as distribuições. Recomeçamos tudo aquilo que não desejaríamos recomeçar, mas que é a única forma de prestar um apoio vital a quem não tem nada!

É difícil pensar em perder tudo, em passar a viver temporariamente nas salas de uma escola, com medo de quando esse temporariamente acabar. A improvisar camas entre secretárias viradas ao contrário e a esperar comida sem saber muito bem quanta e quando virá, nem de onde, nem se tornará a haver. E toda esta crueldade, e tanta realidade bruta, parece não ter bastado uma vez! Será por isso que já não merece a atenção do mundo?

Por enquanto, Silva Macua: 89 casas destruídas totalmente, 180 destruídas parcialmente, 74 mulheres grávidas, 84 crianças até aos 2 anos de idade; Mahera: 35 casas totalmente destruídas, 85 casas parcialmente destruídas (levantamento da situação em atualização); Mieze: 21 casas destruídas totalmente, 28 casas destruídas parcialmente, 280 pessoas desalojadas (levantamento da situação em atualização). Por enquanto, as 280 pessoas de Mieze já foram acudidas com comida, 99 pessoas em Silva Macua também, e foram compradas e carregadas 12,5 toneladas de comida para fazer face, amanhã bem cedo, àquilo que infelizmente, ainda parece ser só parte da realidade!

Não desejaríamos ter que recomeçar, mas recomeçámos! #Kenneth

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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