O melhor “antes e depois” que se possa imaginar 01/05/2019

Foi na tarde de 6 de abril que trouxemos o pequeno Obede para a unidade de Internamento de Desnutrição Grave, no Hospital de Dombe.
No meio da entrega de kits de alimentação e higiene, na comunidade de Massongo, descobrimos aquele ser minúsculo, de olhos encovados e cabelos amarelos, descolorados pela fome.  Acompanhava-o um choro monocórdico e quando, por entre a capulana que o prendia às costas da mãe, tentamos procurar pelos sinais de emagrecimento, deparamo-nos com um caso grave de marasmo, com todos os ossos e costelas visíveis, com a pele dos braços e das pernas que parecia solta do próprio corpo.
Em menos de nada, tínhamos várias mulheres à nossa volta, a gritar e a gesticular, numa comunicação difícil de entender, e só a chegada de um homem, primo da mãe do Obede, acalmou a situação. Explicamos a condição crítica da criança, que seria muito importante garantir cuidados de saúde adequados no hospital e, num bom português, esclareceu-nos que as mulheres estavam a incentivar aquela mãe a pedir-nos ajuda, pois tem rejeitado levar a criança ao hospital.
Obede é o primeiro filho de Eva, uma jovem com aparência de criança, que desconhece a sua própria idade mas que, segundo o primo, terá entre 15 e 17 anos. É a filha mais nova da família, estudou até à 5ª classe mas tem dificuldade em expressar-se em português, ao que se mistura a timidez da meninice, neste caso roubada muito precocemente. O pai faleceu muito novo e Eva casou cedo, tendo a sua mãe recebido “lobolo”, que consiste na oferta de um dote por parte do homem à família da mulher, tradição muito forte na cultura moçambicana. É a terceira mulher do seu marido, que está na África do Sul, e toda a sua resistência em ir ao hospital se justificava no medo de sair da comunidade sem autorização do marido ou de outro homem da família. O primo assumiu essa autorização e, nesse momento, Eva ajoelhou-se e baixou os olhos, em sinal de respeito e agradecimento. Atravessamos o rio Mussapa na casca de árvore e o pensamento nos crocodilos, que marcaram a primeira travessia, ficou toldado pelo caso crítico que tínhamos à frente. Eva, com o seu ar assustado, e o pequeno Obede, ficaram no Hospital, já com todos os cuidados nutricionais e médicos possíveis, com roupa para a criança e uma cesta de alimentação para a mãe.
Três semanas e meia depois, Obede teve alta. O choro deu lugar a um sorriso; os ossos visíveis e a pele flácida deram lugar a tecidos reconstruídos com um bom ganho de peso. O ar assustado de Eva deu lugar a um ar repleto de confiança.
A nossa força e motivação é alimentada por dias como este, trabalhando para que todos os casos de desnutrição tenham o feliz desfecho do nosso pequeno Obede!
* Testemunho de Liliana Granja, nutricionista na missão humanitária da Helpo no Dombe #Idai

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