De Ciclone em Ciclone 09/05/2019

Depois do Ciclone Idai ter assolado a região Centro de Moçambique e de a Helpo ter sido a escolha de milhares de portugueses, que depositaram em nós confiança e nos obrigaram a transformar em especialistas de contexto de emergência, numa região e numa área para nós desconhecida, eis que a desgraça nos bate à porta.

A passagem do Ciclone Kenneth no dia 26 de abril foi, aparentemente, mais inofensiva que o Ciclone Idai. A capital da Província de Cabo Delgado, Pemba, praticamente nada sofreu com a passagem do ciclone, para além da queda de algumas árvores e algumas estruturas mais frágeis, o que fez as pessoas respirarem de alívio depois do terror sofrido na região Centro ainda estar bem presente em todos os que vivem na pérola do Índico. Apesar do norte da província estar incontactável, a maior área urbana pouco tinha sofrido. Passados dois dias viria o pior, pois nessa noite choveu a mesma quantidade de água que estaria previsto para toda uma época das chuvas. Chover numa noite a chuva de um ano, tem que provocar danos graves e a cidade ficou alagada. Depois de a Helpo ter sofrido na pele a fúria das cheias, sobretudo em 2014, em que a casa e escritório ficaram completamente mergulhadas em água, a mudança para as novas instalações fez com que nada acontecesse.

Enquanto Pemba estava isolada, pois a única estrada para sair da cidade tinha sido conquistada pelo rio na zona de Mieze, e grande parte da cidade estava submersa, eis que começam, aos poucos, a surgir notícias nada animadoras de outros pontos da província. A Ilha do Ibo tinha sido arrasada, a Vila de Macomia foi dilacerada e toda a costa de Mucojo a Quissanga foi varrida. Os números começaram a assustar, 41 mortos, 239.000 pessoas afetadas. O Gabinete Coordenador de Assuntos Humanitários, da ONU, já estava a ser montado em Pemba e rapidamente começaram a chegar meios de apoio internacional.

Para a Helpo o adensar do problema começou quando um dos funcionários afirmou que tinha perdido toda a comida que tinha em casa, pois a água era tanta que teve que abrir uma vala para que o ribeiro recém-criado, passasse por dentro de casa. A casa estava bem, apenas tinha perdido a comida. Não sei como é que uma casa fica bem quando passa um ribeiro por dentro, mas o fornecimento de comida chegou para elevar os ânimos, “o resto depois resolvemos” disse.

Nas nossas comunidades o número de casas perdidas não parava de aumentar. As comunicações não ajudavam, fazendo com que a Helpo várias vezes comunicasse números que mais tarde se verificaram incompletos. Apenas a Comunidade de Chinda, no Distrito de Mocímboa da Praia nada sofreu. Este Distrito ficou isolado, juntamente com outros quatro, Palma, Nangade, Muidumbe e Mueda, devido à queda de uma ponte. Ficaram também sem cobertura de rede de telemóvel, impossibilitando as comunicações.

A Comunidade que mais sofreu foi Silva Macua /Salaué. O nosso Agente Comunitário Xavier disse que estava tudo bem com ele e a família e que apenas tinha perdido uma parede da casa.

Resiliência foi considerada a palavra do ano em Moçambique, numa iniciativa da Plural/Porto Editora e nesta situação, mais uma vez, ficou demonstrado que os Moçambicanos estão sempre prontos a olhar para a frente, mesmo quando quase tudo se foi, forçados a reconstruir o pouco que têm.

A Comunidade de Mahera também sofreu a perda de algumas casas e a última a conseguir dar informação foi Ngoma, onde duas famílias ficaram sem lar. Felizmente não houve fatalidades em nenhuma das nossas comunidades.

Na 2ªfeira a Helpo comprou 2,5 Toneladas de alimentos para levar a 20 famílias de Silva Macua que tinham perdido as suas casas. Quando chegámos, o número já havia crescido para 29. Também fomos informados que na Escola Secundária de Mieze, um dos locais onde a Helpo tem muitos jovens apadrinhados do projeto Futuro Maior, mesmo à saída de Pemba, 280 pessoas estavam alojadas nas salas de aula por terem perdido as suas casas e que estavam a ficar sem comida, apesar da ajuda inicial da Irmãs que vivem mesmo ali ao lado. A Helpo comprometeu-se com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) e com o Bispo de Pemba a apoiar estas pessoas.

No dia 1 de Maio, dia do trabalhador, não houve feriado. Com a ajuda da Empresa Construsoyo Moçambique e da Sociedade Comercial Messalo, que nos cederam camiões e trabalhadores carregámos 12,5 Toneladas de alimentos, para distribuir em Silva Macua e Mahera. Esta operação, que teve lugar no dia 2 de Maio foi testemunhada pela equipa de reportagem da RTP que se deslocou ao local. Cada kit de alimentação é constituído por 25kg de feijão, 25kg de arroz, 25kg de farinha, 10 latas de sardinha, 15 litros de água, 5 litros de óleo, 2 kg de açúcar, 1 kg de sal e 4 barras de sabão.

Entretanto os números finais de casas perdidas, já ascendiam a 89 em Silva Macua e 34 em Mahera. A estratégia, devidamente concertada com as lideranças locais, passam por priorizar quem perdeu a casa na totalidade, depois tentar dar algum apoio a quem perdeu a casa parcialmente com atenção especial a mulheres grávidas e crianças até aos dois anos de idade.

O dia seguinte foi dia de viagem para outro ciclone, outra desgraça.

A equipa da Helpo em Dombe, continua com a moral em alta, mesmo com o pico de trabalho provocado pela chegada de dois camiões com donativos provenientes de um armazém da Beira. O Nutricionista Asmy ficou encarregue das questões logísticas, enquanto as Nutricionistas Liliana e Hélia continuaram a tratar de mulheres grávidas e crianças até 5 anos. Recebemos também o apoio de uma Pediatra e uma Enfermeira, voluntárias da ONG parceira Health4Moz, que vieram dar uma ajuda extra no Centro de Saúde das Irmãs, que nos últimos dias tem chegada e atender 300 pessoas num dia.

Na casa das irmãs do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, nossas parceiras, continuamos a ser muito bem recebidos e agora contámos com o regresso da Irmã Rita, que havia saído para o Brasil e acompanhou o Ciclone à distância. Diz que não consegue pôr em palavras o que sentiu nos dias pós-ciclone em que não teve notícias e que sabia que estava tudo cheio de água, tendo temido o pior. Ao chegar, diz que não consegue olhar para as árvores da mesma maneira, pois apesar de saber que foram nestas dezenas de árvores que as pessoas subiram e permaneceram durante dois ou três dias para se salvar, não consegue perceber o mistério que elas contêm. Alguma magia elas têm que albergar. A força que pessoas idosas ganharam naquela hora para conseguir subir a árvore, amarrar os corpos assustados aos troncos com recurso à sua roupa para não cair. Houve ainda cenários de salvação mas com um toque de filme de terror, pois algumas pessoas tiveram que partilhar a árvore que as socorreu com cobras, numa convivência pacífica homem-animal, mais pacífica quando a cobra estava enrolada, e mais nervosa assim que se começava a mexer, e fazia logo vir o medo novamente.

Também no Estaleiro da Mota-Engil houve heróis anónimos, acho que nem eles próprios se atribuem esse título. Na manhã das cheias, com a água a chegar à parte de trás do estaleiro e estando já isolados, um funcionário moçambicano veio pedir ajuda para ir buscar a família que estava numa árvore. Prontamente, os portugueses ali presentes pegaram em bidons, soldaram-nos com uma grelha no topo e improvisaram uma jangada salva-vidas. Pequenos gestos de altruísmo que salvam vidas.

Numa das noites em Dombe sonhei que estava em Portugal, num local perto de minha casa, perto do Autódromo do Estoril, mas com uma cheia que invadia a estrada. Estava de carro, acompanhado pelo meu pai e o cenário era assustador. Não arriscámos enfrentar as águas e logo acordei. Nessa noite o frio já se fazia sentir em Dombe, tapei-me e lembrei-me do que as famílias estariam a pensar das mantas da GALP que foram oferecidas às comunidades que tudo perderam. Será que também olham para as pessoas da Helpo como heróis? Eu sempre sinto que apenas estamos a fazer o nosso trabalho e que os verdadeiros heróis são os padrinhos, madrinhas, amigos da Helpo, empresas parceiras que, a mais de 9.000 Km confiam em nós, nos dão uma força imensa, em bens monetários, bens materiais, palavras de apreço, que nos dão muita força e ajudam a minimizar o sofrimento de quem tem tão pouco, mas está sempre pronto para devolver um sorriso.

  • Testemunho de Carlos Almeida, coordenador Nacional da Helpo em Moçambique. #Idai #Kenneth

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