Um empate com anseio de vitória – Dombe

Pela primeira vez, a Unidade Sanitária (US) da Missão funcionou como um posto fixo para fazer chegar às populações afetadas pelo ciclone as estratégias delineadas para a Semana de Saúde, este ano com contornos especiais, como resposta à Emergência causada pelo ciclone Idai. É na parte de fora da Missão, numa zona com arvoredo, o que permite algum abrigo do sol tórrido que se faz sentir durante o dia, e com lonas colocadas no chão, para permitir que as mamãs e crianças se sentem enquanto aguardam pelo atendimento, que estão preparadas as atividades de saúde disponibilizadas à população, entre as quais as relacionadas com a Nutrição.
Felizmente, todas as crianças e grávidas triadas que se apresentem desnutridas, podem receber tratamento em ambulatório no próprio dia, uma vez que temos realizado regularmente as consultas de Nutrição na US da Missão e todo o tratamento para a desnutrição aguda já se encontra disponível. E foi assim que Júlia, de 14 meses, com diagnóstico de desnutrição aguda grave, entrou na sala da Nutrição. Vinha com uma senhora mais velha, que se apresentou como sendo avó. Perguntei pela mamã da pequena ao que me responde, juntamente com um gesto da mão como quem sacode algo, que “foi”. Explica então, num português intercalado com a língua Cindau, que a mãe de Júlia faleceu durante as cheias. Quando a água começou a subir, Júlia estava agarrada à sua mãe. Com a subida rápida e descontrolada das águas a mãe, desesperada, começou a gritar e largou a criança, tendo sido arrastada pela forte corrente e falecido. No meio da levada, conseguiram agarrar Júlia, tendo sido entregue à avó, que desde então a tem criado.
Na sala estavam outras mamãs com as suas crianças e quando eu própria tive coragem de levantar a cabeça e limpar o suor dos olhos (expressão usada por um colega da Helpo), vi que todas as mamãs limpavam também os olhos com as suas capulanas. Numa sala sempre barulhenta, reinou, por momentos, um insólito silêncio sepulcral, e tive a sensação de que as mães agarraram com mais força os seus filhos.
O quadro da criança indicou que o tratamento da desnutrição no internamento seria a melhor solução. No entanto, por vezes o ideal esbarra no impossível e a avó indicou que não podia ficar com a criança no hospital – outras crianças a aguardavam em casa e precisaria da autorização do marido. Deixar esta família ir embora para refletir sobre a possibilidade de internamento significaria perder esta criança. E assim, no final das triagens e consultas, levei a família a casa e pedi para falar com o avô de Júlia. Expliquei da forma mais convincente que consegui a importância da criança ser internada e na ânsia do veredito, ouvi que “hoje não pode mas amanhã a criança vai para o hospital, com uma titia ou esta mesma vovó”.
Olho uma vez mais para Júlia. Continua a chuchar no dedo. Penso como isso é algo tão pouco frequente nestas crianças, que habitualmente têm a mama da mãe na boca. Talvez o faça como compensação afetiva, para se sentir mais segura, mais reconfortada na sua própria perda.
No dia seguinte o avô Samuel surgiu na porta da sala de Nutrição, sozinho. A primeira palavra que me disse foi “desculpa”. Explicou que houve uma morte em casa e que têm de fazer o velório, ninguém pode sair da comunidade mas na terça-feira virá trazer a criança.
Na linguagem futebolística, diz-se que prognósticos só no fim do jogo. Sinto que este jogo não está perdido mas também não está ganho. Tenho esperança de que este empate em breve se transforme em vitória!

*Testemunho de Liliana Granja, nutricionista de missão humanitária da Helpo no Dombe

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