Rá-tá-tá-tá-tá em Macomia- Cabo Delgado

Macomia foi devastada! A notícia chegou a Pemba e as fotos do edifício do banco completamente destruído e da bomba de combustível com graves danos ajudaram a contextualizar.

O representante do Ministério da Educação, Dr. José Luís Pereira deixou temporariamente a pele de Director Nacional do Ensino Secundário para vir dar apoio à província e depois da sua visita a Macomia confidenciou-nos: “Em Macomia, parece que passou uma máquina – rá-tá-tá-tá-tá”. O gesto das mãos ajudava a compreender o efeito sonoro do resultado da passagem de ventos com velocidades superiores a 200 km/h.  Tendo chegado de Dombe na 5ª feira, fizemo-nos à estrada na manhã de 6ª feira, percorrendo os 200km que separam a capital da Província da Vila de Macomia, com passagem pelos Distritos de Metuge, Ancuabe, Meluco e Quissanga, passando no Parque Nacional das Quirimbas. 20km antes de chegar a Macomia começámos a notar a destruição bem patente dos dois lados da estrada, com muitas árvores caídas, arbustos completamente amassados e casas destruídas. À medida que nos aproximamos de Macomia, vemos o crescendo de destruição, recebendo o cartão de visita à entrada com o Camião do Banco móvel estacionado em frente ao que resta do edifício destruído e da bomba de combustível que, mesmo com a destruição nos edifícios, continua a funcionar. Desde a saída de Pemba até Mocimboa da Praia, numa distância de 350km, este é o único local para reabastecer, por isso independentemente das condições, não pode parar. À chegada ao cruzamento temos 3 opções: à direita normalmente dá para chegar a Mucojo, e digo normalmente pois a estrada continua cortada e, devido a isso, Mucojo está inacessível; se seguirmos em frente vamos pela única estrada que liga aos cinco distritos mais a norte da província, cuja rápida intervenção na ponte sobre o Rio Muagamula permitiu que se conseguisse chegar a Muidumbe, Mueda, Mocímboa da Praia, Nangade e Palma, depois de alguns dias sem ligação; à esquerda, passando pelo mercado, e depois de uma ligeira descida é sempre a subir, em altitude  e também em termos de destruição, percorrendo ao longo de cerca de 4 km toda a Vila de Macomia. Ao olharmos, somos engolidos por um cenário apocalíptico. Se quisermos ver toda a destruição não conseguimos pois entre árvores gigantes caídas (até um embondeiro secular tombou), coqueiros devastados, casas arrasadas, rasgos no solo, chapas de zinco amassadas como papel, o nosso olhar não consegue acompanhar o desfilar de desgraça e o cérebro não consegue ter lucidez para ver tudo. Por outro lado, se quisermos ignorar o cenário tétrico que nos invade, apenas o conseguimos fazer se fecharmos os olhos. A descrição confirmava-se e o os meus olhos viam e os meus ouvidos escutavam o rá-tá-tá-tá-tá que o Dr. José Luís Pereira falava.

Fomos recebidos pela Administração do Distrito em tendas a fazer de edifício do Governo, que também ficou órfão de telhado e, de seguida, acompanhados pela Directora dos Servições Distritais Fidélia Macie, visitámos a Escola Primária Completa de Macomia – Sede, uma escola com 1499 alunos, para testemunhar o caos. As salas de aula perderam os telhados, o sistema de energia solar do bloco administrativo foi destruído, estragos incontáveis na secretaria, árvores de grande porte caíram como castelos de cartas no recinto escolar. No regresso vimos uma imagem repetida muitas vezes, casas completamente destruídas onde a única coisa que se aguentou de pé foi a porta e o aro. Num desses cenários parei para falar com os três irmãos, Meque, Cardoso e Júlio que perante a desgraça não pararam e já recomeçaram a pôr de pé a nova casa, mesmo ali ao lado. Também vieram informar que não tinham recebido qualquer apoio em alimentação na tentativa de receberem algo. Ao receberem a explicação que a Helpo em Macomia apenas estava a ajudar na área da educação, agradeceram muito e desejaram-nos boa sorte. A boa sorte que tanto precisavam para voltar a pôr as vidas de pé.

Mais 100km de estrada e chegámos a Ancuabe, onde a destruição não é tão visível mas deixou o parque escolar sem 7 salas de aula, pois 4 telhados voaram e 3 salas construídas em material misto caíram.

A Helpo já conseguiu recolher fundos para assumir a reconstrução das 9 salas em Macomia e das 4 em Ancuabe que foram parcialmente destruídas. Além de mudar os telhados, as salas serão pintadas. Quanto às 3 salas totalmente destruídas em Ancuabe, já começámos a procurar financiamento, pois na manhã de Sábado fizemos 200 km para visitar a mina de grafite da empresa alemã GK para pedir apoio para esta calamidade. Também o CTA – Confederação Empresarial de Cabo Delgado foi informado deste objetivo da Helpo e em Portugal empresas parceiras e amigas foram contatadas para apoiar esta iniciativa.

Na tarde de Sábado tive a oportunidade de estar com o Administrador do Ibo, Issa Tarmamade que, na 1ª pessoa testemunhou a devastação que a Ilha sofreu. Ele próprio viu a sua casa ser devastada e na noite do ciclone dormiu no chão, em cima de uns plásticos, por baixo de uma mesa. Aproveitou para lamentar o facto do enorme espólio cultural e histórico português na Ilha estar vetado a um total abandono. Deu como exemplo de forte ligação às tradições portuguesas, o facto de numa população quase na sua totalidade muçulmana, o feriado municipal continuar a ser o dia 24 de Junho, dia de São João, e que até aos dias de hoje a tradição de saltar fogueiras na noite de S. João se mantém viva. Mas desta vez nem o Santo Padroeiro da Ilha São João Baptista, que também dá nome à Fortaleza, valeu para proteger esta pérola do arquipélago das Quirimbas.

Aparentemente o ciclone já passou e os problemas já estão ultrapassados, e quando nos noticiários não se fala de nada, somos levados a pensar que facto de não haver notícias significa que apenas há boas notícias. Aqui não é o caso. Cabo Delgado continua a sofrer muito, a Comunidade Internacional continua a fazer chegar ajuda, embora ainda insuficiente, e a presença portuguesa reduz-se a alguns empresários e individuais empenhados a ajudar da forma que podem e a Helpo, única organização não governamental portuguesa a trabalhar ativamente em Cabo Delgado até ao momento, que está na linha da frente no apoio às comunidades onde trabalha e no apoio incondicional à Educação em toda a província.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

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