Um novo normal

Há dois meses, o ciclone Idai alcançava terra firme em Moçambique, trazendo ventos, cheias, devastação e morte. A perceção da passagem do tempo nem sempre é clara: dois meses que parecem ter sido ontem, pela carga sentimental ainda tatuada nos discursos das pessoas; dois meses que parecem ter sido há um ano, por tanto que já foi feito. Desde logo, há uma lição a retirar desta tragédia – as pessoas, pelo menos a julgar pelas de Dombe, são fortes e resilientes. Viveram momentos de dificuldade extrema, deram à luz em cima de árvores, agarraram-se à vida presos a telhados e vegetação que compartilharam com cobras e outros animais, viram familiares a serem levados pelas enxurradas mas, com a ajuda possível, estão a reconstruir as suas vidas e sente-se que, passo a passo, vão caminhando no sentido certo.

Por aqui, a falar-se de um retorno à normalidade mas é uma normalidade tão anormal, com um nível de exigência tão baixo, que permanentemente me questiono como é possível, nos dias de hoje, tantas pessoas viverem em condições tão difíceis. Falamos em retorno à normalidade, quando temos o Hospital de Dombe sem eletricidade, sem água, sem gerador. Falamos em retorno à normalidade, quando ainda temos pessoas a viverem debaixo de lonas, presas a quatro estacas, enquanto esperam por paus para construírem as suas casas. Falamos de retorno à normalidade, quando existem pessoas que desde as cheias, não mais meteram à boca uma verdura, uma fruta, uma fonte de proteína animal. Em zonas rurais, como o Dombe, as pessoas vivem da terra, ao sabor da sazonalidade.

O Idai levou as machambas (hortas) e os animais, trazendo a fome. Não há alimentos e não há dinheiro para os comprar. São necessárias sementes para voltar a cultivar e é preciso esperar pela próxima colheita. Nas consultas de Nutrição, que fazemos na Unidade Sanitária da Missão, os diálogos repetem-se:

– A criança come feijão?

– Apana (palavra em Cindau, que significa não há/ não tem).

– Ovo? Galinha?

– Apana.

– Banana? Tangerina?

– Apana.

– Amendoim? Gergelim?

– Apana. Água levou tudo. Aqui, a normalidade, parece ser isto. Talvez seja a mesma normalidade quando pergunto a alguém “como está?” e me respondem “um pouco normal”. É difícil compreender o conceito de normalidade que, de facto, encerra em si mesmo tanta subjetividade e está dependente do ponto de vista de quem o analisa. Penso muitas vezes sobre o que irá na cabeça das pessoas, de que forma sentem e olham para a realidade que as rodeia, quais serão os seus anseios, os seus desejos, os seus sonhos… Dois meses depois da passagem do ciclone Idai, o Dombe parece retomar a tal vida normal. Talvez um novo normal. Olho para trás e alegro-me com o tanto que já conseguimos fazer. Realizámos triagem  nutricional a mais  de 4200 crianças com idade inferior a 5 anos e mulheres grávidas e lactantes. Estamos a seguir em tratamento de desnutrição em ambulatório cerca de 50 crianças e 20 mulheres. Demos 6 altas a crianças desnutridas que estiveram internadas. Assistimos quase 1200 famílias, com kits de alimentação e higiene, roupa e mantas. Olho para a frente e penso no tanto que tem de ser de ser feito pela população de Dombe, em especial por quem perdeu tudo o que tinha e que, em tantos casos, era já tão pouco.

*Testemunho de Liliana Granja, nutricionista da missão humanitária da Helpo, no Dombe

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