Um obstáculo após outro, após outro, após outro…

Nos dias que se seguiram ao ciclone Idai, no distrito de Sussundenga, o Dombe ficou “ilhado”; suspenso num bocado de terra seca de onde apenas se vislumbrava a água e a ideia de tudo o que essa água escondia, submerso. 

Nesses dias, a missão do Instituto de Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, foi âncora, porto de abrigo, último reduto e fonte de consolo (que consolo?) para milhares de pessoas a quem não restou nada, a não ser um resíduo de alma que permitiria (ou não), reconstruir a esperança e continuar a viver.

Nesta missão, há um lar de estudantes que alberga mais de 200 jovens. Nesta missão, esses estudantes pegaram nas suas coisas, (que sobreviveram, ilhadas, à arbitrariedade das águas) e procuraram com elas mitigar o sofrimento daqueles que estavam à sua volta. Com comida, com agasalhos, com o que tinham. Quando a Helpo começou a fazer chegar os camiões carregados de mantimentos para alívio das populações, os estudantes organizaram-se para ajudar a descarregá-los, para ajudar a ajudar. 

Estes são meninos e meninas habituados a tratar as dificuldades por “tu”, a viver na “falta”, no improviso. São meninos e meninas para quem o conceito de “obstáculo” é mais um membro da família. São meninos e meninas que inventaram a resiliência e que não se demoram a chorar as perdas porque a vida não lhes permite. 

Na manhã de 13 de Maio, o edifício do lar das estudantes onde estavam alojadas 47 meninas da 10ª e 11ª classes ardeu, enquanto as meninas estavam nas aulas, deixando-as apenas com aquilo que tinham consigo. Não foi possível retirar nada do interior do edifício e arderam 23 beliches, 17 colchões, 47 redes mosquiteiras, roupa, material escolar, documentos… está vedada a entrada no edifício cuja estrutura ficou fortemente afetada e está em risco de ruir, não podendo ser reconstruído!

A Helpo procedeu à distribuição de mantas, roupa e calçado, com o material que ainda restava no armazém, e assistiu, incrédula, à ironia de que a vida é capaz! Às vezes parece uma anedota gigantesca de mau gosto, a aplicar truques de resistência às pessoas.

Em Cabo Delgado, pouco depois da passagem do ciclone Kenneth, havia um par de dias desde que tinha começado a distribuição alimentar, a população em Macomia foi assaltada, uma vez mais, pelo terror. O terror sem justificação (muitas têm sido as possíveis motivações apontadas aos chamados “insurgentes” de Cabo Delgado, mas poucas ou nenhuma têm satisfeito a lógica e a racionalidade mínimas inerentes a qualquer realidade), o terror sem nome, o terror gratuito e por estes dias com fome, que assaltou a população que já tinha recebido alguma assistência alimentar, matou e deixou um rasto de desespero sobre as pessoas, ao provocar a suspensão das missões de assistência a operar no local.

Dou comigo a pensar que sentido faz esta sobrecarga de violência e desgraça sobre as pessoas e mais, sobre as mesmas pessoas, repetidamente, como que a testar um limite que não existe. Qual é o limite do sofrimento? Gosto de pensar que o limite do sofrimento é imposto pela esperança, e que o trabalho que vamos desenvolvendo nas centenas de horas roubadas à tranquilidade, ao descanso, a outros compromissos, ao sono, oferece algum limite a este tom lubregue em que por vezes a vida parece cair.

No sábado levei o meu filho de 5 anos ao armazém que a Câmara de Cascais emprestou à Helpo para acomodar os bens doados no âmbito da campanha de resposta à emergência, e que aos poucos vai sendo esvaziado, dos milhares e milhares de produtos que foram sendo despachados numa soma que já conta com 4 contentores de 40 pés enviados para Moçambique (o último dos quais fechado ontem, dia 22/05). No sábado, neste espaço, vi famílias inteiras, muitas crianças, empenhadas em cumprir as indicações de acondicionamento do material, voluntários movidos pela vontade de ajudar quem precisa, de emprestar a sua esperança a milhões de pessoas no outro canto do mundo a quem foi abrupta e injustamente roubada. Esta visão faz-se sentir o que já aqui foi escrito, neste blogue, e que soa a mantra para a humanidade: é maior o bem que podemos fazer do que o mal que nos pode acontecer! Haja esperança!

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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