Paradoxos na emergência

Os dias que têm sabor a rescaldo de catástrofe são longos. Parecem demorar-se neles próprios. Os recursos humanos têm cada minuto preenchido com a resposta a uma qualquer das imensas solicitações. Todas urgentes, todas válidas. Tudo o que não é urgente, não encontra espaço para respirar. Como se a vida naqueles locais se tivesse transformado numa coisa que não cabe na rotina de uma normalidade antiga. 

O mundo das manobras logísticas, de aferição de necessidades, dos diagnósticos que se explanam em relatórios de papel timbrado e que passam de mão-em-mão até desaguarem em decisões importantes de desembolso de fundos gordos, esse mundo, existe de mãos dadas com o outro: o mundo em que as pessoas perderam tudo e continuaram a fazer magia com o nada que ficou, e a viver. O mundo em que os telhados das escolas desapareceram num sopro e as crianças se alinham no exterior do que já foi um edifício escolar, a aproveitar a sombra que dá uma fachada. O mundo em que uma família de 7 se transforma numa família de 12 porque as casas foram diminuindo em contas de subtrair feitas pela água e o vento, mas a aldeia abraçou em si cada um dos seus.

Absorvo as informações que chegam por todas as vias (telefone, mensagens, e-mails que nunca acabam) e o espanto faz-me viajar até um papel de observador distante. Não posso deixar de me pasmar com a lentidão com que as coisas acontecem. A dimensão das grandes estruturas (as únicas que podem fazer face a uma desgraça desta medida, com a mesma medida), parece imprimir sempre um ritmo pesado e lamacento às decisões. Como se tudo tivesse que acontecer à medida dessa dimensão, incluindo o tempo que se encerra no processo que leva à tomada de decisão, e entre a tomada de decisão e a concretização do apoio.

E depois há o desencontro flagrante entre o que é preciso fazer e as sentenças emanadas a partir dos escritórios envidraçados, distantes da poeira das comunidades. Há, neste momento em Moçambique e após a passagem violenta de dois ciclones, milhares de edifícios escolares a reconstruir. Há tudo isso, e há um mundo porventura arrogante, de chavões apregoados até à exaustão que se mostra inflexível a uma alteração temporária de agenda: sustentabilidade, replicabilidade, escala, igualdade de género, safe spaces… Tudo extraordinariamente importante, mas surpreendentemente, tudo convertido em obstáculos a uma reconstrução de edifícios escolares tão esforçadamente construídos e tão facilmente arrasados. Como se no jogo da concorrência de abarcar escassos recursos para abundantes necessidades, se pudessem atropelar. Mas de que forma se atingem todas as máximas enunciadas sem edifícios escolares onde ensiná-las a todas? De que forma se evita que quase 4.000 salas de aula arrasadas (num país que já identificava mais de 35.000 salas a menos comparativamente à população estudantil existente), contribuam para um agravamento de taxas dramáticas como a do absentismo escolar (superior a 60%), a do analfabetismo superior a 60% para as mulheres e a 80% nas zonas rurais (de salientar que 70% do país é rural), ou a de desistência escolar (muitas vezes na ordem dos dois dígitos, como no caso de Cabo Delgado que se situa nos 13,7%, nesta província atingida pelo ciclone Kenneth).

Por tudo isto, continuamos a trabalhar, numa dinâmica de formigueiro insistente, com o compromisso de reabilitar 8 salas de aula que já nos comprometemos a reconstruir, de acompanhar as 3.509 pessoas que já assistimos numa primeira resposta, com ajuda alimentar e 5.367 entre rastreios nutricionais, consultas , internamentos e suplementos alimentares (num universo infinitamente maior, de mais de dois milhões de pessoas afetadas!). Por tudo isto, continuamos a mover-nos num mundo entre mundos; num plano entre o paradoxo e a ação, num contexto de necessidade que se resolve, porventura e algures, entre as casas deitadas por terra no mais remoto deste imenso país, e os escritórios erguidos em sofisticados edifícios munidos de sistemas imunes a quase tudo, num canto muito mais visível deste estranho mundo!

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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