Ibo, a ilha bem organizada

Visitei a Ilha do Ibo pela primeira vez em 2012. Dessa viagem recordo uma viagem longa e dura, porque a estrada de terra batida em mau estado não ajudava, porque a viagem de barco dependente das marés pode provocar uma longa espera, e porque não havia cais de acesso aos barcos em Tandanhengue, ainda no continente. Mas todas as dificuldades ficavam lentamente eclipsadas com a chegada à Ilha, devido ao seu encanto arquitetónico, natural e humano. Desde essa altura sonhava fazer a viagem de avião, pois sabia que além da duração da jornada baixar das 8 horas para os 20 minutos, as vistas aéreas são de sonho.

No espaço de duas semanas e pelas piores razões, desloquei-me à Ilha do Ibo de avioneta por três vezes. A primeira vez com uma boleia do DFID – Department For International Development, a Cooperação internacional do Reino Unido, da segunda e terceira vez com a avioneta fretada pelo WFP – Programa Mundial de Alimentação. As visitas serviram para avaliar os danos na área da educação e também para ver o património histórico português. Se em relação às escolas os danos são gerais e bem visíveis, o património português, que com exceção da Fortaleza de S. João Baptista que sofreu uma grande recuperação por parte da organização espanhola, Fundação Ibo, tudo o resto já estava ao abandono, sem que se note destruição devido à passagem do ciclone. 

As três escolas da Ilha têm todas as salas de aula parcialmente destruídas, sem que tivesse havido interrupção das aulas, em sombras improvisadas, e depois da segunda visita com acesso a lonas e tendas da UNICEF. A segunda e terceira visita foi feita na companhia do ponto focal da Direcção Provincial de Educação e Desenvolvimento Humano para as ONG, Florêncio Rissa Mbique, e além de termos reunido com o Administrador do Ibo também reunimos com o Coletivo dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia. 

Se a ida a Macomia me deixou chocado, percorrer toda a Ilha do Ibo a pé, tendo calculado cerca de 7km caminhados, não me deixou tão impressionado. Talvez porque apesar da destruição ser generalizada, o facto de as pessoas estarem calmas e lentamente a reconstruir as suas casas e as suas vidas tenha contribuído para essa perceção. Ao contrário do que aconteceu em toda a costa de Mucojo, Pangane, Inguane e Quiterajo, que foi fortemente varrida e devido a ter ficado isolada, os apoios terem demorado a chegar, no Ibo a ajuda foi rápida e efetiva. Chegaram alimentos e bens não alimentares e toda a distribuição correu de forma organizada. O Administrador do Ibo Issa Turmamade fala em 90% de casas destruídas, mas foram poucas aquelas que vi intactas. A terceira visita ao Ibo já foi para avançar com a construção de três salas de aula na Escola Eduardo Chivambo Mondlane, uma escola que contempla alunos da 1ª à 11ª. No próximo ano terá 12ª classe, o que fará com que os alunos consigam concluir o ensino secundário sem sair da ilha. Fizemos mais uma avaliação do edifício principal da escola, pois também iremos reconstruir as três salas de aula, gabinete dos Diretor, dois gabinetes de Diretores Pedagógicos e salas de professores. Um edifício bonito, construído no Seculo XIX e cujas telhas trazidas pelos portuguesas, eram fabricadas em Marselha, França, algumas datadas de 1892. Além da recuperação do equipamento escolar, também estamos a salvar património histórico e arquitetónico.

Conhecemos a Sandra Garcia da Fundação Ibo, que farão as obras com a HELPO, uma Engenheira Naval que chegou ao Ibo quatro dias antes do ciclone. Um verdadeiro batismo de fogo, ou neste caso um batismo de chuva e vento! Sobreviveu e diz que, passado um mês, já não consegue ver a vida da mesma maneira. Ouvi-la descrever a alegria que sentiu quando dois dias antes tinha tomado banho de duche pela primeira vez, depois de um mês sem eletricidade, faz-nos pensar como damos pouco valor às coisas que são dadas como garantidas. A Sandra também partilhou que logo após a passagem do ciclone, todas as pessoas começaram a reconstruir as suas casas, porque a vida, mesmo sendo levada com calma, só tem um sentido, para a frente!

Ali ao lado da Escola, na Escola de Artes e Ofícios da Fundação Ibo, as crianças inscreviam-se nos torneios organizados no âmbito dos festejos do Dia 1 de Junho – Dia Internacional da Criança. Além de todas as coisas más, o Kenneth trouxe coisas boas: os desenhos das crianças, normalmente recheados de casas, barcos e árvores, ganharam agora novos protagonistas, os helicópteros e os aviões!

A julgar pelo entusiasmo das crianças os problemas maiores já passaram e, melhor que ninguém, as crianças sabem, que é com sorrisos e energia que se vai reconstruir o Ibo, para que volta a ser a Ilha Bem Organizada.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

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