Diário de uma visita, II

Só pelo facto de termos conseguido reunir aquele grupo de pessoas, o dia já estava considerado ganho. Reuniram-se no aeroporto para embarcar no Caravan fretado pelo WFP – World Food Programme – Programa Mundial de Alimentação, quatro portugueses, quatro moçambicanos e um espanhol. Talvez seja melhor corrigir para um catalão! Carlos Almeida e Fátima Falua da Helpo, Pedro Martins da RTP e Felícia Silva, agente da Selma pela Ao Sul do Mundo os portugueses presentes. A representação moçambicana com Selma Uamusse, Pedro Figueiredo, Chefe de missão do WFP, Jacinto Baibai da RTP e Nurmomade Abdulcarimo, que toda a gente conhece por Baboo, já uma figura mítica de Cabo Delgado. Daniel Peluffo da Fundacion Ibo representou os nuestros hermanos, ao qual se juntou a Sandra Garcia que nos esperava na Ilha do Ibo.

Depois de uma suave viagem de 16 minutos, aterrámos e fomos para a Escola Eduardo Mondlane onde a Helpo vai reconstruir 11 salas. A reconstrução vai contar com o apoio da Fundacion Ibo, que tem uma forte implantação na ilha do Ibo, com uma Escola de Artes e Ofícios, uma carpintaria e com muitas iniciativas culturais e de preservação do património. Além de financiar a reconstrução após a emergência, a Helpo está a ajudar a desenvolver as forças locais e acreditamos que este será o primeiro passo do que poderá vir a ser uma boa parceria.

Depois da visita à Escola, testemunhámos uma distribuição do WFP, e ficámos felizes por ver que embora numa escala completamente diferente, o conceito e a organização era em tudo semelhante à que utilizamos nas nossas distribuições. À nossa chegada, a multidão observou-nos e o Baboo foi imediatamente reconhecido, pois apesar de ter nascido em Inguane, a norte de Mucojo, no continente, conhece bem a Ilha do Ibo e as suas gentes. Uma senhora fez questão de partilhar que tinham perdido tudo mas estava viva e isso é que era importante. Reforçou que as ajudas de alimentação e outros bens era muito importante, mas que simplesmente receber uma visita já a deixava muito feliz. Baboo não conseguiu conter a emoção e encontrou no abraço da Selma um porto de abrigo, unido por lágrimas que são apenas um sublimar de emoções acumuladas, ao nos sentirmos mínimos, perante tanto apego à vida, tanta simplicidade e tanta destruição.

Quando a Selma tentou conhecer músicas locais com umas raparigas que estavam na distribuição, provocou no Baboo uma viagem no tempo. Subitamente, parecia um miúdo de 6 anos a recordar e a cantar as músicas da sua infância, que falavam da bandeira transportada para a Rainha Dona Amélia e o famoso Tambo Tambulani Tambo.

O WFP está a fazer um excelente trabalho e o Pedro Figueiredo é um moçambicano que correu mundo e que, apesar de estar reformado, continua a ser chamado para missões onde a sua experiência pode fazer a diferença. Uma das bases tinha sido Argélia num trabalho de apoio ao povo Sahrawi, onde tinha conhecido Daniel Peluffo, agora representante da Fundacion Ibo.

A visita à Fortaleza, usada no tempo colonial como prisão da PIDE, foi palco para pedaços de História contada por quem a viveu, com alguns episódios tristes, outros divertidos. Quem quiser conhecer estas e outras histórias basta passar no Kauri, na Cidade de Pemba e arrisca-se a ter uma estadia fantástica e a fazer uma amizade que jamais esquecerá.

Apesar de não ter estado connosco na Ilha do Ibo, o Administrador do Distrito Issa Turmamade mandou preparar um almoço para a comitiva que nenhum dos presentes esquecerá tão cedo. Não vamos revelar as iguarias, apenas deixar o convite para visitar a Ilha do Ibo que quer por razões gastronómicas, que de património ou de beleza natural, vale certamente o esforço da deslocação.

Depois da viagem de regresso, o Baboo ofereceu um jantar no kauri com um manjar de comida típica de Cabo Delgado, com pratos que não estão contemplados do menu do restaurante, mas que são de provar e chorar por mais. O Adminitsrador Issa juntou-se a nós depois de ter estado Conferência Internacional de Doadores para a reconstrução na Beira sobre resposta à emergência dos Ciclones Idai e Kenneth. Quase no final do jantar recebemos o convite do WFP para complementar a nossa viagem do dia seguinte, com destino a Macomia, com uma visita a Mucojo de Helicóptero, uma das zonas mais severamente devastadas pelo Ciclone Kenneth.

Falámos pela noite dentro sobre o passado, com as histórias deliciosas do Baboo e do Issa e também falámos do futuro, só não falámos do Ciclone. “Graças a Deus já passou e estamos vivos! Se Deus quiser tudo irá melhorar! Insha Allah!” Em Cabo Delgado a fé e a espiritualidade são mais forte que as religiões e todos juntos, de mão dada, conseguimos fazer a diferença.

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

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