Diário de uma visita III, De helicóptero descemos ao Inferno de Mucojo

A distância de Pemba para Macomia são 200km, mas é fácil lá chegar: 80km até ao cruzamento de Silva Macua e depois 120km por uma estrada mais estreita e em piores condições, mas que dá para andar bem. Parámos em Silva Macua, comunidade com forte implementação da Helpo, com três salas de aula construídas e duas salas reconstruídas na Escola Primária onde é distribuído lanche escolar. Na Escolinha Comunitária construímos três salas e uma sala polivalente.

Depois da forte resposta na semana seguinte ao Ciclone, só em Silva Macua, aldeia também conhecida por Salaué e Sunate, apoiámos com bens alimentares 125 famílias que perderam as suas casas na totalidade. Mais tarde apoiámos 168 famílias que perderam as suas casas parcialmente. A missão do dia era entregar às crianças apadrinhadas que perderam as suas casas parcialmente um apoio reforçado, entrega que teve um toque especial, porque a Selma Uamusse estava connosco.

Depois da entrega, rumámos a norte, em Direção a Macomia, para a pista de aviação onde o Helicóptero do WFP nos iria levar em direção a Mucojo, junto à costa. A tripulação Ucraniana recebeu-nos muito bem e a experiência fantástica de voar no MI-8, helicóptero de carga de fabrico russo, faz-nos descer aos infernos.

Mucojo, que fica situado na costa e ainda pertence ao Distrito de Macomia, foi simplesmente arrasado, praticamente todas as árvores foram deitadas abaixo, as casas caíram ou perderam o telhado e por ser um local onde ainda não chegam camiões, o transporte de bens está a chegar a conta gotas.

A paragem previa uma visita de 20 minutos e ao caminharmos em direção ao oceano azul turquesa, que a cerca de 2 km de distância nos mostra um cenário paradisíaco, fomos passando pelas antenas de rede de telemóvel completamente desfeitas, em direção a uma árvore, uma das poucas que permanece de pé. Acredito que aquela árvore tem uma energia especial que a fez ficar de pé e que faz dela um símbolo de resiliência e de esperança. Olhar para aquela árvore foi como olhar para as centenas de pessoas que aos poucos vão reconstruindo as suas casas a partir do nada. As árvores nem sempre morrem de pé e os moçambicanos, independentemente da sua religião, acreditam que só se morre quando Deus quer.

Mas a reconstrução das casas e erguer-se perante as adversidades, depende de cada um. Vai demorar, mas acontecerá.

Na viagem de regresso, olhando com mais atenção a paisagem, vemos zonas em que todas as árvores, sem exceção, foram arrasadas. Saímos de Mucojo de coração vazio.

Ao chegar a Macomia fomos visitar a Escola Primária Macomia Sede, onde a reconstrução das nove salas de aula está a um ritmo acelerado e as turmas que estão espalhadas pelas sombras improvisadas pelo pátio, olham com ansiedade o momento em que vão entrar nas salas renovadas, graças ao apoio da Helpo e dos milhares de portugueses que confiaram em nós.

A RTP fez uma reportagem sobre esta conquista onde vemos que, por vezes, depois das coisas más chegam mesmo coisas boas. Os 1499 alunos desta escola depois de todo o sofrimento que os atingiu vão receber 9 salas de aula com telhado novo, pintura nova e arranjos nas portas e janelas.

Depois de Mucojo, precisávamos de algo que nos confortasse o coração. A Selma Uamusse gostou do que viu e gravou a primeira parte de uma entrevista para RTP sentada em cima de um dos troncos das árvores que caíram e que agora são usados como parque de diversão para as crianças. Algumas árvores do pátio da escola caíram, mas a vontade de estudar continua em alta e os alunos da Escola Primária de Macomia Sede estão comprometidos em fazer esquecer as coisas más que o Kenneth trouxe e agarrar com as duas mãos as coisas boas que estão a chegar.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

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One thought on “Diário de uma visita III, De helicóptero descemos ao Inferno de Mucojo

  1. Mucojo foi a terra onde o meu pai – Basílio Constantino – nasceu há 92 anos, num palmar dos meus avós com casa e familiares tb no Ibo. Teve de abandonar a família e amigos para vir estudar para Portugal em casa de irmão mais velho, apenas com 9 anos numa viagem de barco 31 dias sozinho, pois na região só havia escolas até à 4ª classe. Sinto imensa gratidão por ter chegado aí, local tão austero, e levando contributos para refazer escolas, etc. Temos de conversar sobre esses projetos, gostaria imenso de estar presente neles.
    Saúde e boa sorte. A todas as etapas e horas belas, diga-lhes que estou com elas.

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