Diário de uma visita V

Saímos às 5:30 de Dondo, pela estrada Nacional 6 em direção ao Inchope, passando pela zona de Lamego e Nhamatanda onde pudemos observar os estragos provocados pelo Ciclone Idai, que comeu praticamente metade da estrada, obrigando a uma paragem para permitir a circulação apenas num sentido. Felizmente a espera não foi longa, o que nos permitiu entrar passado uma hora em Chimoio, capital da Província de Manica  para matabichar, num sítio de referência na antiga Vila Pery, o Restaurante / Café Ponto de Encontro. Vila Pery ganhou este nome em homenagem a João Pery de Lind, Governador do território pela Companhia de Moçambique, no ano de 1916. Em 1975 conquistou o nome atual, mas que nunca se tinha perdido, pois os naturais da terra nunca tinham deixado de utilizar o nome Chimoio, terra conhecida pelo seu algodão e vasta produção agrícola.

Depois de percorrermos mais 130km passarmos a barreira natural das montanhas no Parque Nacional transfronteiriço de Chimanimani, chegámos a Dombe onde tudo estava preparado para um evento que estava a mexer com toda a Comunidade: a entrega de 100 bicicletas Mozambikes!

Um a um foram sendo chamados os 100 sortudos, agentes polivalentes de saúde, ativistas da saúde, voluntários da missão e alunos da Escola Secundária que precisam percorrer longas distâncias. Além da equipa de nutricionistas da Helpo e do Voluntário Joaquim Batista, padrinho e voluntário da Helpo de longa data, recentemente chegado a Dombe para tratar da logística ligada ao projeto, também contámos com a preciosa ajuda da equipa da Mota Engil, liderada pelo Eng. Pedro Fontes, todo o pessoal ligado à Missão de Dombe, Rui Mesquita da Mozambikes e claro, da Selma Uamusse e da Felícia Silva. A RTP estava a apanhar todos os pormenores e os presentes não conseguiam esconder as suas emoções. A primeira a extravasar os sentimentos foi a Inês, a senhora mais idosa do grupo que logo agradeceu muito à Selma de forma cativante e que chamou a atenção de todos, começando a cantar e a dançar mobilizando prontamente todo o grupo. A Selma não se ficou e as duas dançaram, cantaram e abraçaram-se como velhas amigas. Não foi a primeira grande entrega que a Helpo fez com a Mozambikes, mas esta foi certamente a mais emotiva, não só pelas razões que levam a esta entrega, mas sobretudo pela diferença que estas bicicletas irão fazer na vida de todas estas pessoas.

Na parte da tarde tivemos um pequeno contratempo, pois o carro que alugámos para garantir a viagem de Beira até Dombe, trancou-se sozinho com as chaves no seu interior. Mais uma vez contámos com a ajuda preciosa da Mota Engil que trouxe as ferramentas tendo a mestria técnica ficado a cargo do Joaquim Batista, que dizia para os jovens que ali estavam por perto que aquilo não era para ser aprendido. Conseguimos abrir o carro que logo de seguida regressou à Beira nas mãos de um motorista que o nosso amigo Vidigal, que nos vendeu o barco no início desta missão, arranjou graciosamente.

Depois de resolvido o problema, descemos ao Rio Mussapa e é impressionante ver o que o rio subiu, e os estragos que causou. Toda a zona circundante ao leito, que anteriormente era usada como machamba, terra de cultivo, é agora uma área estéril onde durante os próximos tempos nada prosperará. A RTP entrevistou alguns sobreviventes para conhecer histórias que mudaram as vidas das pessoas que ali viviam. Ficamos pequeninos ao ouvir histórias de desgraça e de força. Pensar em pessoas aparentemente frágeis que ficaram três dias em cima de uma árvore, sem comer, sem beber, agarrados a troncos, agarrados à vida, alguns ainda agarrados aos seus filhos, deixa-nos a pensar sobre muita coisa. Estar aqui a ouvir estas histórias faz-nos sentir vazios mas ao mesmo tempo conscientes de como é bom estar vivo, obrigando-nos a relativizar aquilo que são os nossos problemas.

Ao final da tarde foi impossível dizer que não ao convite da Mota Engil para um jantar no estaleiro, não só pela companhia e pela qualidade da cozinha do Chefe Almeida, um moçambicano que orgulhosamente diz que já conhece Portugal pois já esteve umas semanas no Fundão, a terra das cerejas,  mas também por ser o único sítio num raio de 130 Km onde tínhamos a possibilidade de assistir ao jogo da seleção de Portugal contra a Suiça, coroada com um hat-trick do nosso Cristiano Ronaldo. Apesar de toda a desgraça que caiu aqui, Dombe é um sítio de celebração. Celebração de vida, de amizade, de esperança e até da festa do futebol!

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

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