Diário de uma visita VI

As noites de Dombe são frias e húmidas, nesta altura do ano. Esta noite que passou chegou aos 11 graus e pela manhã o orvalho brindava com um tempero de frescura tudo o que tocava. Bem cedo, no estaleiro da Mota Engil, a equipa da RTP trabalhava na reportagem sobre o Sr. Tomás Macumbuzi, um homem simples que se transcendeu na noite de 15 para 16 de Março, ao ver a sua casa invadida pelas águas,  e que foi a nado até terra firme para “mostrar preocupação” ao Chefe da Oficina, o Sr. Lima. A preocupação que trazia era, nada mais, nada menos que ter a sua família refugiada em cima de uma árvore, juntamente com muitas mais pessoas. Apenas pediu uma tábua ao Sr. Lima, mais outro ser humano simples na sua grandiosidade, que rapidamente sugeriu usar uns bidões da Galp como flutuadores. Depois de ter soldado dois bidões, e de os ter levado até ao mar que tinha nascido às portas do estaleiro, aperceberam-se que baloiçavam muito e decidiram soldar mais dois bidões com uma estrutura metálica por cima, tendo sido este engenho flutuante que permitiu ao Sr. Tomás salvar a sua família, não tendo parado por aí, pois continuou a ir de árvore em árvore, carregar pessoas e levá-las para a Missão, tendo salvo no total 120 pessoas.

Para ele não foi um ato heroico, foi apenas resolver uma preocupação. Para o Sr. Lima foi apenas fazer o que tinha que ser feito naquele momento.

Mas os heróis são assim, e precisamos de mais Senhores Tomás e mais Senhores Limas para fazer deste mundo um mundo melhor. Mas melhor que ler estas linhas é assistir à peça da RTP, Jangada improvisada, feita com mestria pelo Pedro Martins e o Jacinto Baibai, cuja produção eu tive o prazer de assistir.

De seguida fomos encontrar a Selma Uamusse a espalhar magia e amor na Escolinha Chitaitai, onde nem parece que estes edifícios estiveram submersos há pouco menos de três meses, pois está tudo impecavelmente limpo, pintado e recuperado. As crianças passaram por momentos terríveis, mas aquele ambiente acolhedor é certamente o mais propício para ajudar a ultrapassar o trauma. Além disso, ter a Selma a cantar com eles e para eles, certamente os alegrou e os sorrisos que nos presenteavam não enganavam. A “tia Selma” fez um dia diferente para estas crianças.

Foi uma manhã corrida em que tivemos tempo de mostrar à Selma e à RTP o trabalho realizado pela nossa equipa de nutricionistas no Centro de Saúde das Irmãs, acompanhar uma distribuição alimentar em Mucombe, visitar o centro de reassentamento de Mucombe, atravessar o Rio Mussapa na embarcação Esperança, que a Helpo adquiriu à chegada a Dombe e que ainda apoia a população e as equipas da saúde.

À tarde houve ainda tempo para ver um rastreio nutricional na Comunidade de Macocoe, onde o centro de reassentamento é grande e as condições das pessoas são extremamente precárias. O jantar foi momento de despedida da equipa da RTP que partia em direção ao Chimoio na manhã seguinte, mas que teve oportunidade de acompanhar dias muito intensos, recheados de um trabalho sério que além de ser feito, precisa ser mostrado, para que quem acreditou e confiou na Helpo, se sinta tão satisfeito e realizado como nós nos sentimos.

Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

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