Regresso ao que não há

É tempo de esvaziar os armazéns emprestados generosamente pelos parceiros; fazer a contagem dos últimos bens e procurar determinar, finalmente, o número do último contentor a enviar: o sexto. É tempo de olhar para o mundo como o mundo o deixou e de assistir, nunca impunemente, à normalidade que se cola aos minutos que passam. É tempo de falar em reconstrução e continuar à espera que os processos necessários a essa reconstrução se encurtem, por magia. Passaram os dias e converteram-se em semanas e transformaram-se em meses.

Olho para trás e ainda me parece inacreditável que em 6 semanas o terror tenha visitado duas vezes o mesmo país, e que fora desse terror tudo ande, tudo corra! É quase insuportável que a normalidade e o sofrimento possam conviver tão pacificamente. E há uma ideia que não me larga. Daqui a uns meses, a fome, as doenças, as mortes, serão quase impossíveis de serem determinadas como consequências dos dias 15 e 25 de Abril de 2019. E no entanto.

A normalidade das pessoas que foram e são obrigadas, diariamente, a reinventar as suas vidas e a ignorar a sua condição de vítimas (para quê?), deixou de ser notada e de ser notícia! A onda de solidariedade deu lugar a um mar calmo e infinito, sem qualquer sobressalto no horizonte e a adrenalina dos dias que se fundem com as noites deu lugar a uma calma artificial que esconde o rebuliço de questões que ficam por responder. E ficarão por responder.

O que é a normalidade num mundo em que a fome anda de mãos dadas com as estações do ano; as doenças se aninham no regaço das crianças e testemunham as suas vidas atribuladas até ao dia em que as roubam; os sonhos não entram; a escola depende de tantas contingências que pode ser todos os dias domingo. O que é a normalidade num mundo em que as pessoas sabem que nunca são lembradas e por isso não vão sentir-se esquecidas?

Moçambique saiu da rota dos órgãos de comunicação social e dos hashtags das redes sociais. Voltou a mergulhar no anonimato amargo do esforço diário que torna tudo apenas igual ao que era antes. Ou não?

As pessoas que viram, viveram e procuraram virar ao contrário o avesso das coisas, estão aqui, continuam aqui. Os olhos mais turvos, uma leve névoa de quem não sossega o que vai dentro. Palavras novas no vocabulário diário: vítima, regresso à normalidade, morte, reconstrução…palavras que vão procurando ficar enterradas nas camadas do tempo que vai passando. E já sei, o tempo cura tudo. Quanto tempo?

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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