Diário de uma viagem – final

A primeira vez que estive com a Selma Uamusse foi numa situação atípica. Depois de a ter visto em palco no Teatro do Bairro, na peça Ruínas de Lynn Nottage, onde me deixou sem palavras perante tamanho talento, quer como atriz, quer como cantora a encher o palco e a encher o meu coração com uma performance de arrepiar e fazer cair a lágrima. Dei-lhe boleia até ao B-Leza, onde mais tarde iria fazer uma pequena atuação mas, estranhamente, durante essa conversa, que foi mais um monólogo porque a Selma praticamente não falou, para proteger a voz. Disse-me que não ia falar, que apenas ia escutar. Falei da Helpo, de amigos em comum e creio que dessa breve comunicação unívoca terá nascido a ligação à Helpo.

Depois disso a Selma foi por duas vezes abrilhantar celebrações da Helpo, como “Embaixadora” artística de Moçambique, o que nos enriqueceu muito e o convite para visitar os nossos projetos estava no ar. Após o Ciclone Idai e com a criação do Movimento Mão dada a Moçambique” do qual foi mentora, a Selma convidou a Helpo para ser uma das organizações beneficiárias e responsáveis por implementar projetos de resposta à emergência, que nos encheu de orgulho.

Quando na noite do dia 2 de Abril, no grandioso concerto do Capitólio onde a equipa formada pela Selma Uamusse, Felícia Silva e mais de 200 artistas, colaboradores e amigos, conseguiram angariar mais de 400 mil euros, ouvi a Selma dizer ao vivo que queria ir a Moçambique visitar os projetos a Moçambique, não tive dúvida que iríamos estar juntos na pérola do Índico. Curiosamente o dia 2 de Abril foi o dia da chegada de uma equipa de seis pessoas a Dombe, Distrito de Sussundenga, Província de Manica, uma das zonas mais atingidas pelo Ciclone Idai, onde violentas cheias provocaram uma enorme desgraça. Nessa equipa de seis estavam as três nutricionistas, que acompanharam um camião com 30 toneladas de bens doados em Nampula e Cabo Delgado, assim como material que estava no armazém da Helpo .

O convite à Selma foi feito no dia 3 de Abril e a resposta foi um “sim redondo”, onde só faltou ajustar as datas.

O que não prevíamos era que no dia 25 de Abril, um novo ciclone iria entrar em Moçambique, obrigando a reorganizar o programa, e assim, de 1 a 9 de Junho, tivemos o prazer de conviver de perto com duas forças da natureza, a Selma Uamusse e a sua agente Felícia Silva. O que se passou já foi descrito e gravado, mas as memórias ficarão guardadas para sempre no coração. Esta programação apertada que incluiu voos de avião, voos de helicóptero, viagens de carro, viagens de barco com crocodilos (que não são problema) por perto, teve muito mais de inteligível do que quilómetros percorridos, aldeias visitas, intervenções testemunhadas. Tenho a certeza absoluta que a Selma saiu com a convicção que as noites de sono perdidas, as horas gastas ao telefone, os nervos causados pelo sufoco protocolar, valeram a pena por tudo aquilo que testemunhou. No discurso das dezenas de meninas do internato das Irmãs em Dombe e do Bispo de Chimoio, D. João Carlos Nunes, houve uma coisa em comum: Chegar alguém importante à Beira é uma coisa normal, mas chegar a Dombe…!!! A Selma espalhou encanto, semeou esperança e tenho uma crença profunda que o seu papel de “Embaixadora” cultural de Moçambique não vai para por aqui e que altos voos estão traçados para ela.

Como na parábola da águia de James Aggrey, que inspirou Kwame Nkrumah, primeiro Presidente do Gana a iniciar o processo de descolonização africana, que D. João Carlos partilhou connosco, uma águia bebé foi criada como galinha e diziam-lhe que nunca poderia voar. Todo o seu crescimento ouviu que era galinha e comportava-se como galinha e achava-se que como tinha sido ensinada assim, nunca seria capaz de sonhar a ser águia. Mas um dia subiu a um ponto elevado, deixou de parte todo o discurso negativo que a puxava para baixo, ousou abrir as asas e voou bem alto.

Os processos longos são difíceis de avaliar mas tenho a certeza que muitas asas se abrirão depois da visita da Selma, muitas águias se irão destacar e talvez um dia as galinhas estejam em minoria e sonhar não seja algo estranho.

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

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