Missão Esperança – O Testemunho de Selma Uamusse 8/07/2019

Não sei se já consegui pousar as asas o suficiente para conseguir escrever algo que consiga transmitir as sensações destes 10 dias de um Moçambique que me era desconhecido, mas tão fundamental conhecer. Acredito que as palavras que proferimos têm poder, poder para abençoar, para fazer acontecer e que as palavras não caiem em saco vazio quando a vontade do coração é sincera. Quando no concerto “ Mão Dada a Moçambique” proferi o desejo de visitar as zonas afetadas pelas cheias na sequência do ciclone Idai e, acompanhar o trabalho das instituições que estariam no terreno, foi uma declaração intencional mas nunca poderia imaginar que iria acontecer um outro ciclone (Kenneth) nem que a viagem com a Helpo fosse tão intensa, completa, emocional e espiritualmente revolucionária. Ainda por cima não era apenas o desejo do meu coração. Era-o também da mulher que esteve efetivamente de mão dada não só a Moçambique, mas também a mim durante todo o processo de produção do evento, longe dos holofotes, mas bem perto de todas as pessoas, processos, chatices, pepinos, berbicachos e dor. Lembro-me com demasiado pormenor de como ao longo do bonito concerto nos olhámos de sorriso choroso e dissemos uma para outra num abraço sincero: “temos que lá ir”! , khanimambo Felícia, por esta milha extra que só faria sentido contigo.

Antes de começar a escrever dei uma vista de olhos ao meu diário de bordo e acabei de ler uma carta que me deixa em lágrimas das meninas da Missão de Dombe (Internato Nossa Senhora Rainha do Mundo). Cito em parte a Fiona e a Natália, “ Selma… vieste sentir a dor do teu povo, muitos makorokotos por não teres deixado o teu país. Continua sempre no caminho de Deus, pois ele é chave para a vida… nos apaixonamos bastante pelo teu sorriso que dá esperança”… se elas soubessem o quanto estas palavras significam para mim…

Missão Esperança, acho que é um bom nome não só para a viagem, a minha viagem que me faz duvidar se as minhas asas já pousaram ou não, mas para todo o processo e todo o trabalho feito pelas pessoas da Helpo.

Não consigo resumir a viagem em poucos caracteres, mas posso falar das pessoas que tocaram o meu coração e é com naturalidade que começo pelo Cazé. A minha proximidade com a Helpo era alguma e data de há uns 4/5 anos para cá, pelo que o Cazé não é um ilustre desconhecido, antes tem sido o braço que faz a ponte com a instituição e a ele deve-lho um agradecimento especial por ter sido tão rápido a ouvir as minhas preces e simultaneamente cuidadoso, cauteloso, perspicaz e sábio no planeamento e condução desta viagem. Incansável, pragmático, meticuloso, comunicador, mas também bom ouvinte, por vezes olhava para ele a olhar para mim como se me estivesse a ler, e estou em crer que nos encontramos no campo da compaixão pelos outros. 

Foi bastante simbólico termos chegado a 1 de junho, dia da criança, a Pemba. Depois de uma ligação Lisboa-Maputo-Pemba mesmo à tangente, a alegria das crianças na biblioteca de Pemba, a sua capacidade de organização num “evento” cultural recheado de poesia e teatro de intervenção, música e dança, deu um arranque esperançoso aos intensos dias que se seguiram. O Manuel Cipriano, grande dinamizador e colaborador da Helpo ficou no meu coração pelo modo empenhado como diligentemente cuida de um espaço onde muito se partilha e aprende. A assertiva, pequena em estatura, Mariamo, que de modo imparável  apresentou, coordenou, cantou, representou, declamou e suou mostrando a sua grandiosidade de carácter… claramente estão ali “ futuros presidentes”. Perdão, a Mariamo quer ser governadora!  Tudo a seguir foi bastante arrebatador, a visita à devastada quase fantasma ilha do Ibo, onde vimos os escombros da escola em reconstrução numa parceria da Fundação do Ibo e Helpo, a distribuição alimentar que o World Food Program nos ajudou a acompanhar, a visita a Macomia , a ida de helicóptero a Mucojo… árvores, casas e escolas destruídas, pessoas deslocadas, miséria, fome mas sempre muita cor, música, sorrisos, as águas límpidas das Quirimbas, uma paisagem luxuriante apesar da destruição e muitos rostos não sei se de esperança se de falta dela. Não me posso esquecer do generoso Baboo e a sua esposa, não apenas pela hospitalidade no Kauri junto ao mar, mas pela grandiosidade de coração e pela maneira como vi este homem do Ibo de grande porte, abraçar o seu povo enquanto chorava sentindo ele também a dor ou então os sorrisos do diretor da escola enquanto via a sua escola em Macomia a ser reconstruída durante as aulas das crianças que decorriam no exterior.

Foi pesada a estadia em Cabo Delgado, mais se tornou quando ouvimos os relatos dos ataques armados que as populações estão a sofrer através do ministério da Iris e da Força Militar Brasileira, mas foi em Dombe na província de Manica que ficou o meu coração. Foi aqui que pude não apenas ver ou testemunhar o que aconteceu na sequência do ciclone Idai mas foi aqui que me pude apaixonar. A irmã Maria Teresa, do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, disse-me que: “Quem vai para o Dombe e ama o Dombe volta ao Dombe”… e, eu sei que vou voltar…

Aqui, foi amor à primeira vista pela dedicada Liliana. Era suposto ela ser fã do meu trabalho musical, mas quem saiu de lá fã do trabalho dela enquanto nutricionista fui eu… Como é que se consegue colocar assim o nosso coração ao serviço dos outros e ser simultaneamente tão eficaz, resiliente e doce… desde a distribuição das bicicletas da Mozambikes, à distribuição alimentar, o trabalho no centro de saúde com as pré-mamãs e bebés, ao rastreio, ao simples modo como falava com as pessoas e o carinho com que tratava os colegas de trabalho, a Hélia, o Asme, o Joaquim…Uma verdadeira mulher do Norte, de Portugal e Moçambique que me ajudou ainda mais a deixar parte do meu coração no Dombe…

E ele lá ficou com a minha amiga Inês de mais de 80 anos que esteve com o marido em cima de uma árvore durante 4 dias e que depois de receber uma bicicleta, ia aprender a guiá-la sem medos logo a seguir. Lá ficou o meu coração com a Joana que também ficou numa árvore durante 3 dias, onde grávida de 7 meses prendeu os seus dois filhos aos ramos dividindo a arvore com cobras, lá ficou com o franzino Samuel que bravamente lutou com um crocodilo que o deixou com 90 pontos no corpo, lá ficou com os meninos de 2 a 5 anos com quem cantei, brinquei, caí no chão no infantário de Chitai-Tai ou com a minha Augusta de 4 anos cujos olhos pediam mimo e abraços. Lá ficou com os rapazes que lutam contra vícios na Fazenda da Esperança, lá ficou com as minhas novas filhas adotivas do Internato com quem até hoje mantenho contacto, lá ficou com a Tina Joaquim que delicadamente me mostrou a sua humilde nova casa no centro de reassentamento, com o miserável acampamento de Mococoi, lá ficou com a Hélia, o Asme, o Joaquim, a Marta, Iraci, Ildo, irmãs  Rita, Miriam, Maria, Mª Teresa, Pedro e equipa da MotaEngil. Tantas caras tantos rostos, tantas vidas…

Há uma sensação estranha de olhar para as situações que testemunhei como enorme exemplo de exercício de resiliência, onde não é o meu sorriso que traz esperança mas a força de muitos que nada têm. Mas apesar da resiliência e atitude positiva há traumas, há necessidades, há carência e penso para comigo: “O que resta a estas pessoas que perderam tanto, casa, familiares, animais e já não têm terras para cultivar?” Sobra … Esperança!

Obrigada Helpo por poderem dar e ser esperança a estas populações. Com bens materiais e infraestruturas é certo, mas acima de tudo com dignificação, honra, cuidado e amor. E é com essa revolução e revelação de amor com que me ligo a vós, que de modo nada distante ou distinto, antes próximo e humilde olhando para cada um de modo distinto e individual, honrando, amando, cuidando criando um pedacinho de céu na terra em tudo o que fazem, através do amor.

Testemunho de Selma Uamusse, Cantora a residir em Portugal, moçambicana. #Idai #Kenneth #SelmaUamusse

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