4 meses depois, o Dombe!

Depois de 4 meses a adivinhar os contornos e cores às coisas, às caras das pessoas. A imaginar o corpo às histórias que me contavam, Dombe, na primeira pessoa.

O rio, que já serenou e encolheu até voltar a caber nele próprio, não levanta qualquer suspeita sobre a fúria de que é capaz. As copas das árvores ainda estão aloiradas pela lama que ali chegou. Mas em volta não há casas. Imagino aldeias inteiras a ser engolidas por aquilo que não deixava distinguir entre chuva e cheia. Aldeias que agora se encaixam em tendas, lonas e estacas. Tendas que são latrinas, tendas que são escolas, tendas que são casas. O regresso à normalidade faz-se de coisas tão fora do normal! O frio é intenso. As noites oferecem 7, 8 graus centígrados, e ocorre-me que a normalidade, por aqui, está repleta de coisas difíceis. Não era diferente antes do ciclone. As coisas difíceis, digo.

De manhã, no hospital onde as mamãs desaguam com crianças de todos os tamanhos e idades, há queimaduras a tratar. Dorme-se demasiado perto da fogueira, para espantar o frio, e a capulana pega fogo!

Na sala onde decorrem as consultas para tratamento das crianças desnutridas, insiste-se com as mamãs e os papás que as fórmulas não são para poupar. São para dar às crianças, uma por dia e estão contadas. Procuramos contornar-lhes o medo afirmando que na semana que vem, na consulta, há outras tantas para levar. Mas o medo…essa espera por uma ajuda que não se sabe até quando!

Os animais morreram, as colheitas desapareceram e foram substituídas por uma camada espessa de lama, terra morta da qual, após tentativas, é possível perceber que não nasce nada. Por enquanto.

Voltar ao normal é restabelecer aldeias inteiras em sítios destinados pelo governo, sítios mais longe do rio, mais seguros. Nunca se sabe. É fazer das tendas casas e esperar por ajuda. É lançar sementes, constatar a falta de resultado, e esperar por ajuda.

As pessoas viram morrer outras pessoas: filhos, esposos, pais, mães, primos, tios, sobrinhos, vizinhos e amigos. Viram morrer e desaparecer tantos que não chegarão a constar das listas dos óbitos, à falta de corpos que constatem o óbvio!

Estas pessoas querem recomeçar. Todos os professores dizem ter registado poucas desistências por parte de crianças; as pessoas procuram estabelecer uma nova rotina. A natureza tem o seu tempo. Quanto tempo? Será que o tempo da natureza se coaduna com os orçamentos das agências que ainda estão no terreno?

Conheci a irmã Mirian. Quase toda a gente que seguiu os acontecimentos da catástrofe em Moçambique conheceu a irmã Mirian, mesmo não se recordando: na rádio, na imprensa escrita, na televisão. A irmã estava no Dombe na casa que ladeia o hospital. Duas estruturas que permaneceram intactas, como que numa ilha rodeada de um rio que virou oceano. Albergaram um mar de gente, assistiram a tudo e não esquecem. Esperaram 3 dias até conseguirem comunicar com o resto do mundo, 4 dias até o nível da água começar a baixar. Ouviram os primeiros relatos. As pessoas que diziam que enterraram os mortos sem identificá-los porque ninguém vinha e as coisas não podiam ficar assim.

As pessoas do Dombe sabem que estão longe, e logo, fora do epicentro dos apoios que chegam, daquilo de que se fala. Ontem alguém me dizia que o rasto de destruição que se vê na Beira impressiona. E eu pensava que no Dombe não se vê nada! Não ficou rasto de nada. Ingrata realidade a das aldeias que nem direito a rasto de destruição têm! 

Ainda assim, as pessoas de Dombe. Sem sorte, nem na geografia das tragédias, mas com um enorme sorriso de esperança e uma pergunta: já vai partir?

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

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