Helpo de luto em memória do Padre Maurice Odhiambo

Quando um dia de festa fica irremediavelmente marcado por uma perda irreversível, sentimos que ficamos sem chão, momentaneamente sem rumo e sem saber o que pensar.

Foi isso que aconteceu no dia 7 de novembro, na Cidade da Beira, naquele que seria o culminar glorioso de um projeto que acabou por dar à Helpo mais do que inicialmente havíamos sonhado. Sempre que me refiro a este projeto que, apesar de se chamar Futuros Presidentes de Moçambique, nada tem de política, e que fala sobretudo de sonhos e esperança. Nunca sonhámos receber em cerca de ano e meio, três Presidentes da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de Portugal, Filipe Jacinto Nyusi, de Moçambique, e Kolinda Grabar-Kitarović, da Croácia, como ilustres visitantes, percorrer quatro cidades de Moçambique e receber milhares de visitantes em dois continentes. A metáfora de que uma criança com acesso a uma educação de qualidade pode sonhar ser qualquer coisa, inclusive Presidente da República, continua a inspirar muita gente.

Não esperávamos menos da exposição na Cidade da Beira, exemplarmente preparada pelo Paulo Serras, responsável pelo Camões na capital de Sofala, com um cunho especial por marcar a reabertura do espaço do Centro Cultural Português, depois da passagem do Ciclone Idai que destruiu parcialmente o edifício do Consulado Geral de Portugal onde está inserido.

O Ciclone Idai fez-nos adiar a exposição da Beira, mas também teve o dom de reforçar a presença da Helpo em Moçambique, com uma Missão em Nutrição Materno Infantil, no centro do país, mais concretamente em Dombe, Distrito de Sussundenga, Província de Manica.

Estando numa zona já próxima da fronteira com o vizinho Zimbabué, Dombe foi uma das zonas mais afetadas pelo Ciclone Idai, onde centenas de pessoas perderam a vida devido às cheias e onde milhares continuam a sofrer as consequência de terem visto os seus campos de cultivo, as suas casas, os seus animais, e por vezes tudo a ser levado pelas águas.

Mas o ciclone Idai também nos trouxe novos parceiros e amigos, nomeadamente na Missão de Dombe as Irmãs do Instituto de Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, juntamente com a Obra de Maria, os Padres Missionários de África e a Fazenda da Esperança, nos fizeram sentir em casa desde o primeiro dia.

Tudo estava conjugado para que o dia 7 de Novembro fosse uma grande festa para a Helpo, celebrada junto dos amigos, mas infelizmente não foi. Ao fazer a viagem de 300km, entre Dombe e Beira, o Padre Missionário de África, Maurice Odhiambo, de 35 anos, natural de Kisumu, no Quénia, sofreu um acidente de viação na Estrada Nacional N6, na zona da Nhamantanda, tendo vindo a perder a vida algumas horas mais tarde.

O Padre Maurice iria completar o seu primeiro ano de sacerdócio no próximo mês de Dezembro, sendo que toda a sua atividade havia sido realizada em Dombe. Antes, já ali havia feito o seu estágio, pelo que a sua ligação à comunidade era muito forte.

Padre muito recatado e simples, foi informado pela Irmã Mirian, em jeito de brincadeira, que a inauguração da Helpo seria um evento social muito importante e que deveria caprichar na forma de vestir. Decidiu levar apenas uma pasta com a sua túnica de sacerdócio para usar na inauguração, que demonstra bem a devoção e o orgulho que tinha em ser Padre e em exercer esta missão de Deus.

Quis o destino que o carro onde o Padre Maurice perdeu a vida, fosse o mesmo de onde o Padre Raphael Gasimba havia conseguido escapar com vida, fintando a morte após terem sido engolidos pela subida das águas durante a passagem do Ciclone Idai, precisamente na mesma Estrada Nacional N6.

Recebemos a notícia do acidente minutos antes da cerimónia de inauguração e tive oportunidade de partilhar o sucedido com os presentes. Viria a receber a pior notícia depois do jantar, pelas 22h15. A equipa da Helpo deslocou-se ao Centro Nazaré, em Inhamizua, Casa dos Padres Missionários de África, onde estavam os Missionários de Dombe reunidos. A tristeza era geral mas também era transversal um sentimento de esperança.

No seu curto tempo de sacerdócio, o Padre Maurice inspirou muita gente e a sua memória irá continuar a fazê-lo, agora com o sabor da saudade. Porque como li numa das muitas homenagens ao Padre Maurice nas redes sociais, “Para quem crê, a vida não é tirada, mas transformada!”

*Testemunho de Carlos Almeida, Coordenador nacional dos projetos da Helpo em Moçambique.

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