História de uma missão de emergência (passo a passo)

Destaque

No dia 15 de Março, a zona centro de Moçambique acordou para se confrontar com um cenário de horror: o ciclone Idai varreu as três províncias desta região, Sofala, Manica e Zambézia, deixando um rasto de destruição e sofrimento numa área vastíssima, e 400 km2 debaixo de água. Os rios esqueceram-se das margens e galgaram as estradas, engoliram as pontes, devastaram as habitações e ceifaram muitas vidas. Estes acontecimentos trágicos fazem prever meses de risco, proliferação de doenças e multiplicação das necessidades, já gritantes para muitos milhares de pessoas antes do dia 15.

A Helpo trabalha há 11 anos em Moçambique e tem uma experiência acumulada no tratamento da desnutrição e riscos associados nas mulheres grávidas, bebés e crianças até aos 5 anos de idade. Perante o contexto que se vive em Moçambique, as parcerias que nos são possíveis pelo longo enraizamento no terreno e o nosso conhecimento especializado, empreendemos uma missão de emergência com foco na nutrição materno-infantil, cuja primeira fase tem uma durabilidade de 6 meses, desconhecendo-se ainda a necessidade e durabilidade de fases subsequentes.

Com este blog a Helpo pretende publicar de forma atualizada e detalhada os passos dados no âmbito da missão de emergência Estamos prontos para ajudar Moçambique- Idai, de forma a conferir-lhe um caráter de transparência e proximidade com todos quantos contribuíram para a sua realização.

Mais um contentor, mais milhares de famílias ouvidas e atendidas 23/04/2019

Hoje foi um dia que lembra a repetição de muitos dos dias vividos no último mês. Foi dia de acordar com a dúvida latente sobre se a noite chegou a passar, de levantar cedo e de estar num dos armazéns que de tão ocupado já parece nosso, para carregar um novo contentor de 40 pés, com destino ao Dombe.

O carregamento do contentor obedece à aferição de necessidades transmitida pelo terreno: x paletes de roupa; x paletes de mantas; x paletes lençóis; de sal e de açúcar; de comidas prontas; de óleo e por aí fora…até que, depois das 46 paletes diligentemente encolhidas entre o metal do contentor, ele se recusa a receber mais um sopro que seja, e as portas fecham-se, para se voltarem a abrir apenas no Dombe, dentro de aproximadamente 6 semanas de viagem…

Depois disto, mais espaço para voltar a encher com os materiais que ainda não foram triados, acondicionados e montados em paletes. Mais alguma necessidade de descanso que talvez não venha a ser suprida, mais alguns músculos que nem sabíamos que tínhamos a avisar que é preciso parar um pouco e respirar.

É agora, quando é preciso parar um pouco e respirar, quando a noite cai e os pensamentos não libertam a mente, que começamos a receber as fotografias do dia de trabalho da equipa que está no Dombe. E esta é a peça do puzzle que vem dar sentido ao dia, aos dias, ao cansaço absurdo que parece só saber somar e a tudo o que vai ficando em suspenso, enquanto há gente que espera ajuda e que precisa dela…agora!

Olho para o lado, e vejo uma lista de sacrifícios cujos protagonistas se recusam a dar-lhes esse nome: as viagens canceladas e antecipadas, aquelas que não chegaram a acontecer; os dias de semana que se transformaram apenas numa corrente contínua de dias de trabalho; os colegas cheios de planos adiados e eventos que já não vai haver; as noites que eles não dormiram porque, como os próprios confessam, “se não for ao hospital dar o leite terapêutico, sei que ninguém vai”; os milhares de quilómetros percorridos magicamente em horas que deveriam ser o dobro…procuro explicar ao meu filho de 4 anos o que estão os meus “amigos do trabalho” a fazer, e digo-lhe que estão a ajudar muitas pessoas ao mesmo tempo, em circunstâncias extremamente difíceis. E ele pergunta: como um super-herói? Engulo em seco. Não gosto de rótulos mas se há um que lhes assenta bem agora, seria este! A eles, e a todos aqueles que ainda resistem e que darão sentido ao envio de mais um contentor!

Mais um dia de chegar às famílias e acolher quem precisa 22/04/2019

Eram sete horas da manhã, e sim o dia começou com uma visita dos nossos parceiros da MotaEngil. Afinal é mais uma mão amiga que a equipa encontrou no Dombe. Assim, o difícil torna-se mais fácil, quando as pessoas se fazem pontes e dão o que têm para que as coisas aconteçam. A MotaEngil trouxe um camião para ajudar à distribuição de kits de apoio às famílias, e era um camião de boa disposição e cheio e vida.

Com isso, a comunidade de Nhanhemba finalmente poderia comer e cobrir-se. Desta vez foram 208 kits de apoio às famílias, com alimentos, (contendo um pouco de todos os grupos alimentares) e ainda 208 kits de aconchego, (refiro-me às adoradas e coloridas mantas oferecidas pela Galp).

Enquanto isso, outra nutricionista da equipa, a Liliana, fez-se ao centro de saúde de Dombe para mais um dia de esperança para os pequenos lutadores que precisam do inteiro apoio, alimento e vida que as equipas de saúde possam trazer-lhes.

Hoje a enfermaria ficou lotada: dois casos novos para internamento, o que perfaz um total de 11 casos desde a nossa chegada. No entanto, do outro lado da balança e alívio de toda a equipa, três casos melhoraram satisfatoriamente.

O dia acabou? Não. No centro de saúde da missão ouviu-se um zumbido. Era mais uma criança a precisar de assistência. A mãe, Cidália Titosse aproximou-se da irmã e pediu-lhe, por favor, que ajudasse a sua filha. Cheguei mais perto e só precisei de olhar para perceber os sinais evidentes de desidratação estampados no rosto da menina. A pequena Roda Timóteo, sua filha, estava desnutrida. E vinha engrossar o número de casos que reclamam uma cama de hospital. A mãe, gestante, também apresentava sinais de DAM (desnutrição aguda moderna), e também foi preciso disponibilizar-lhe suplementos.

As horas foram passando e as gavetas de trabalho foram sendo arrumadas. Mas sobrou tempo para rumar à comunidade de Magaro, para antecipar a nossa saúde de amanhã, para mais um rastreio.

Se o nosso mundo é humano, juntos estaremos para Dombe e por Dombe!

Testemunho de Hélia Seda, nutricionista da equipa da missão humanitária da Helpo, no Dombe

O que não há, e que não deixa dormir 18/04/2019

Morre-se de malária, o que não é novidade, mas já não devia ser assim em pleno século XXI. Ficou mais uma cama livre na enfermaria.
Não há medicamentos. A energia elétrica ainda não foi restabelecida. Existe uma ambulância, que é autocarro dos profissionais de saúde, que é carro de compras e que depois também é ambulância. As salas do centro de saúde ficam muitas vezes de porta aberta sem que os responsáveis possam responder, porque eles próprios foram chamados para responder em outro lugar, e, os doentes esperam horas para ser atendidos.
Dava jeito ter outro par de braços e poder dividir o corpo em dois para mais poder fazer. E se não fosse pedir muito, também dava jeito que o dia pudesse ter mais que vinte e quatro horas. Gostava de chegar à cama e adormecer vencida pelo cansaço dos dias tão cheios e intensos, mas fico a lutar contra um turbilhão de emoções.
Hoje exploramos o acesso ao centro de saúde de Bunga. Mas sem resultado. Como choveu nos últimos dias a estrada voltou a ser matope (lama). O enfermeiro Joaquim explicou-nos que o caminho alternativo era atravessar o rio na casca de árvore, colocar a mota nessa mesma casca de árvore, e já do lado de lá, percorrer mais 7km para chegar a Phembanhissa. Arriscado. Muito arriscado.
Em Portugal, parece que a falta de combustível desencadeou uma correria desenfreada para as gasolineiras. Aqui faltam estradas. Faltam pontes que deixem os rios ser apenas natureza, e não inimigos do povo que está isolado. Faltam carros. Falta combustível para o estômago de quem tem de palmear quilómetros com a sola dos pés.
Dualidades. Tenho a sensação de que estou num filme, daqueles que ganham óscares de tão reais que parecem ser. O mais angustiante é que é mesmo real. É real que a esta hora, lá fora, centenas de pessoas dormem ao relento sem terem tido um jantar digno. E nós aqui dentro, vamos dormir num quarto partilhado, pequenino, mas tão luxuoso que é impossível queixar-me de qualquer coisa que seja. Olho para o fundo da cama e as nossas mochilas de campismo que continuam a ser o nosso armário da roupa, dormem num chão mais confortável que a terra molhada dos centros de acomodação.
Estamos em tempo de quaresma. A quinta-feira santa é um dos dias mais importantes para esta congregação que nos recebeu de braços abertos aqui no Dombe, o Instituo das Pequenas Missionárias da Maria Imaculada. E exatamente por isso, a noite de hoje foi carregada de simbolismo. O jantar foi simples. Como é costume, acompanhamos as irmãs na oração de agradecimento pela refeição antes de começarmos a comer. Mas hoje, sentimo-nos duplamente abençoadas quando, em nossa honra, leram uma passagem que nos viria a fazer entender a simbologia dos alimentos que tínhamos em cima da mesa: pão, vinho, cordeiro e ervas ácidas. No lugar do cordeiro (que não se encontra cá), saboreamos um pedaço de peixe, de fácil digestão, como pede a quaresma. O pão, disposto num prato florido, também ele fatiado em forma de flor, mostrou-nos mais uma vez como a Irmã Jeane trata todos os alimentos com um especial carinho. Em representação das ervas ácidas tivemos alface. E o vinho, reservado para ocasiões sagrados, desejado há vários dias, fez o requinte da refeição. O pequeno-almoço de amanhã vai ser simples. Até domingo vai prevalecer o silêncio e a introspeção.
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da missão humanitária da Helpo no Dombe

Dia de números, de balanço, de boas notícias e de preparar mais dias 17/04/2019

Hoje fomos buscar conquistas e otimismo às crianças do internamento.
Começámos, como já é hábito, logo cedo, a passar visita na enfermaria. Falar com as mães, fazer pesagens, ver a evolução e ajustar a quantidade dos leites terapêuticos. Duas das crianças, passaram no teste do apetite. É assim que se chama, quando se faz a passagem do leite terapêutico F100, para a alimentação. Tudo indica que em breve vão poder regressar às suas casas.
A saída da brigada móvel para a comunidade, foi cancelada. Um imprevisto com o técnico de nutrição fez com que ele não chegasse a tempo de Chimoio.
Mas nem por isso, o ritmo abrandou. No armazém, a montagem dos kits de alimentos para distribuir à população não se esgota. A próxima entrega planeada para Nhanhemba precisa de chegar a mais de 500 famílias. Tratámos do empréstimo de uma carrinha maior para conseguir chegar lá numa só viagem e juntámo-nos à equipa de ajudantes do Francisco (o responsável do armazém) para rechear o salão que contém os kits já prontos.
À tarde estava planeado ir a Zichau, mas outro imprevisto com o régulo também nos cancelou a distribuição. Sendo o régulo o chefe da comunidade, nada pode ser feito sem a sua presença.
A responsável de nutrição da província de Manica e uma equipa do Unicef vieram visitar o Dombe e fazer um ponto de situação no local. Juntámo-nos à volta da mesa a estudar as comunidades que ainda não estão acessíveis e a delinear as próximas intervenções. Foi bom ouvir o elogio do trabalho que a Helpo tem feito. A prioridade do ministério da saúde, na área da nutrição, é fazer rastreios em massa e tratar os casos sinalizados. Em apenas duas semanas a Helpo já fez 604 rastreios e está a seguir 25 desnutridos.
No meio de tudo isto ainda fomos ambulância temporária, e transportámos um menino que apareceu no centro de saúde da missão com uma queimadura na cara e pescoço, que precisava ser rapidamente atendido no Dombe. Valeu estar no sítio certo à hora certa. E faremos por continuar a estar!
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da m missão humanitária da Helpo no Dombe
Entretanto, por cá, foi o dia seguinte ao fecho do fecho da campanha de recolha de bens; isto é, depois de termos encerrado a campanha a dia 12/04/2019, encerraríamos a receção de materiais agendados com parceiros registados a 16/04/2019. No entanto, parece difícil fechar uma porta que esteve, durante algum tempo, tão escancarada!
Com esta campanha aprendemos que tudo é difícil: é difícil fazer respeitar os prazos; é difícil fazer cumprir as entregas apenas do que foi pedido; é difícil (muito difícil), dizer que “já não”; porque já temos 3 (se não 4), contentores de 40 pés cheios de material para enviar e não faz sentido continuar a tentar encaminhar material para a zona atingida através da Helpo porque não teremos encaixe financeiro para proceder a mais envios…
E é difícil fazer a triagem de tudo o que nos chega; contactar outras organizações e agendar com as mesmas a recolha do que não nos será útil e nunca pedimos que nos doassem; manter a energia como se estivéssemos no primeiro dia; ler as declarações que mais parecem ataques que as organizações empreendem implicitamente, umas sobre as outras, apenas para justificar o seu modos operandi como o mais válido de todos.
Como disse, aprendemos que tudo é difícil.
Mas, depois, no meio deste imbróglio de dificuldades, chegam-nos as histórias de sobrevivência do terreno, os dias sem segundos livres dos técnicos no Dombe; os testemunhos do que falta e do que se inventa para se fazer face àquilo que falta; enfim, as razões de todo o movimento que reiniciamos diariamente às 9h sem hora para terminar…e como que num passe de mágica, tudo o que aprendemos nos últimos tempos que é difícil, se faz minúsculo e insignificante!
Contamos, por estes dias, com uma média de 17 voluntários por dia que têm um valor inestimável! Reforçam-nos o ânimo, emprestam-nos energia e fazem tão parte desta equipa como cada um de nós. Nesta máquina, tudo funciona numa interdependência perfeita. Todos temos o nosso lugar graças a alguma coisa que outros fazem e têm feito! E não há grande coisa a fazer além de agradecer: a quem fez donativos em dinheiro, em géneros, em tempo; a quem generosamente colocou a vida em pausa para ir para o Dombe; a quem triplicou as horas nos dias da agenda para encaixar esta missão sob a sua coordenação…e sinto que ficaremos a agradecer a muita gente, por muito tempo!

O primeiro dia do resto dos dias 16/04/2019

O primeiro dia depois de um mês do ciclone. Para mim, continua a parecer sempre o primeiro dia. Acordo com a urgência de acudir quem ainda continua sem comida, sem roupa, sem casa.
Ontem eram quase 20h, noite cerrada, quando deixei o último grupo de voluntários do Curso de Desenvolvimento Comunitário da One World University, no acampamento, depois de uma tarde de preparação de kits para distribuir à população. Já estava a regressar a casa, quando o telefone tocou. O técnico Zacarias referenciou uma mãe para a equipa da nutrição. Mãe de gémeas.
Voltei para trás, o jantar ficou à minha espera. Entrei na enfermaria destinada aos homens onde não era suposto estarem crianças, mas a sala do lado estava lotada. O técnico Zacarias diz: a mãe é esta aqui, apontando para a primeira cama do lado direito. Consegui decifrar a cor da rede mosquiteira. Azul. Mas mais do que isso já não era possível. Não há energia. Percebi que a cama estava cheia. Cumprimentei as outras mamãs, que já familiarizadas com a visita da Helpo, me reconheceram no escuro. O técnico Zacarias transformou o telemóvel em lanterna e preparou o ambiente para uma espécie de consulta.
A primeira gémea, de nome Zinha, estava no colo de uma irmã, com os seus seis, sete, oito anos. “Por aí… não sabe precisar”. Dormia. A segunda, de nome Esta, estava a mamar, embrulhada numa mixórdia de panos sujos que disfarçavam o seu minúsculo tamanho. Estavam à minha espera desde a hora do almoço. O técnico Zacarias, no fim de as ter atendido na consulta infantil encaminhou-as para uma avaliação de nutrição e pediu à mãe para esperar. Como não tinha saldo no telemóvel, o recado só chegou cá deste lado, quando conseguiu um telemóvel emprestado para me avisar.
A mãe Lúcia não percebe o meu português. É preciso escolher bem as perguntas para que a comunicação não seja uma des-comunicação.
“Estava bem, mas desde que saí da árvore estou muito fraca.”
Ficou dois dias empoleirada nos galhos a ver a água passar debaixo do corpo amedrontado pela morte. Segurou as duas filhas, não sabe bem como. Sem comer e sem dormir. Diz que se salvou porque rezou.
No fim de perceber que os bebés tinham boa sucção, não havia tempo a perder. Era preciso matar a fome daquela lactante, para que ela matasse a fome dos seus bebés e pudessem ter uma noite reparadora. Tinham saído de casa às seis da manhã e percorrido duas horas a pé, que medidas sem relógio são bem capazes de chegar a três. Não tinham voltado a comer.
É um cenário difícil de imaginar, quando pensamos num hospital do nosso país, onde são servidas cinco ou seis refeições por dia, das quais às vezes ainda reclamamos. No Dombe há um hospital que nem comida de hospital tem.
Hoje o dia começou mais cedo, para podermos avaliar estas crianças com tempo, com luz e com a energia matinal. Às sete da manhã, a caneta registava 1525g e 1700g. A balança pensava que tinha duas recém-nascidas em cima, mas não, estas duas meninas tinham completado dois meses. Dois meses, dois dias em cima da árvore. Duas almas do outro mundo.
A meio da manhã, o carro seguiu para o centro de acomodação de Nhanhemba, onde fizemos 298 rastreios a crianças menores de cinco anos e a 69 mulheres grávidas e lactantes. Enquanto no centro de saúde da Missão, a outra nutricionista fazia consultas de nutrição aos casos que já estão em tratamento.
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da missão humanitária da Helpo, no Dombe

Um mês depois, na terra dos telhados de capim 15/04/2019

O ciclone Idai tinha sido anunciado, o aeroporto da Beira foi fechado, os voos domésticos cancelados. Aqueles que tinham meios, (meios para aceder às notícias e meios para se afastarem do “olho do furacão”) e que já anteviam a fúria da natureza, deslocaram-se para longe, tomando os seus lugares no avião enquanto era tempo. Depois disso, só a espera. Há relatos de pessoas, pessoas da cidade com relógios que marcam a passagem do tempo com precisão, que falam em quatro horas de horror. Os relatos das pessoas fora das cidades, esses, não mediam o tempo em horas mas em dias: os dias que estiveram em cima das árvores, os dias que esperaram até receberem a primeira visita, os dias de espera até voltarem a comer, os dias que passaram sem ver aqueles que não voltariam a ver…

É curioso ver as imagens que nos chegaram através das televisões, com centenas de pessoas atulhadas em cima de telhados que pareciam minúsculos tendo em conta o mar de gente que neles permanecia, e imaginar os sítios onde não havia telhados.

70% da população de Moçambique vive em meio rural. Nessa ruralidade, não há lugar para telhados. Os telhados são de capim e em cima de telhados de capim ninguém se salva. Por isso, as histórias dos sobreviventes das aldeias são todas iguais. Sem barulho de vidros a partir e com dias a fio em cima de árvores… Nessas histórias, as pessoas perderam tudo, mas perder tudo é essencialmente perder o norte, perder o produto das colheitas, perder a terras que sentiam como suas, perder familiares e perder a esperança. Vive-se a contar minuciosamente tudo o que se come, a subtrair refeições à fome e a duvidar da próxima vez em que será entregue comida. Vive-se assim independentemente de se ser criança, grávida, velho, ou doente. Vive-se assim porque ainda não se consegue viver de outra maneira.

A vida está organizada em tendas, ou debaixo de lonas improvisadas. A terra está coberta por camadas e camadas de lama avessas ao cultivo e à fixação das populações. E as pessoas vão sendo empurradas contra a urgência de recomeçar, quando muitas vezes a vida não lhes permite programar nem a refeição seguinte.

Depois há o anonimato, espalhado por aquelas centenas de quilómetros quadrados de mato, salpicados de sabe-se-lá-quantas aldeias que ainda não conhecerem ajuda e que ainda não estão referenciadas pelas agências que coordenam toda a operação de resposta e assistência às vítimas do Idai… aldeias cujos mortos ainda não engrossam as estatísticas, estatísticas para as quais os desaparecidos ainda não desapareceram. Aldeias que ficaram de fora dos mapeamentos da ajuda e que, dia a dia, vão sendo descobertas com uma camada espessa de desespero e esquecimento por cima. E depois surgem as notícias, que dão conta de cerca de 700 mil pessoas à espera de ajuda alimentar…

Dentro da lógica do que “faz a notícia”, talvez já não seja notícia que um mês depois haja tanta gente a viver em desespero. Não pela dimensão desse desespero ou pelo número de pessoas, que são imensos, mas por ter passado um mês…Da forma como vejo as coisas, seria (ainda) mais notícia agora…

Passou um mês. A equipa da Helpo que trabalha diariamente no terreno não se emociona menos, não trabalha a menor ritmo, não dá menos de si. Não identifica cada vez menos casos de crianças e grávidas a precisar de cuidados (pelo contrário), não esmorece. Passou um mês, o nível das águas baixou, o sol apareceu e parece ter deixado a descoberto tudo o que ainda há por fazer…

 

História da segunda-feira de um calendário apressado 15/04/2019

A realização dos rastreios nutricionais requere uma programação e articulação adequada com os Régulos e líderes das comunidades e hoje, foi precisamente assim que iniciámos o dia.
Deslocamo-nos à comunidade de Nhanhemba, que dista cerca de 17km do Dombe, e fomos recebidas pelo agente de saúde Jossias Noé Tchaka. Esta comunidade é composta por 4 bairros – Sambanhe, Raice, Ndamanicua e Mussengue – e é banhada pelos rios Lucite e Munhanhage, que subiram dramaticamente durante as cheias. O rio Lucite protagonizou algumas das imagens que se tornaram conhecidas através das redes sociais, tv e jornais mas, sendo um dos rios que se situa na bacia do Buzi, acabou por passar incólume no que diz respeito à fama.
Segundo os relatos do Sr. Jossias, as pessoas tiveram de percorrer longas distâncias desde a margem dos rios até encontrarem zonas mais altas onde se sentissem minimamente seguras. Várias pessoas, durante a fuga desenfreada da água, tiveram de ficar penduradas nas árvores e algumas mulheres “deram parto” nessas condições. Apenas um ou dois casos fizeram história na imprensa mas por incrível que pareça, a situação repetiu-se aqui e ali.
Só no bairro de Mussengue, 161 casas ficaram destruídas. São descrições absolutamente impressionantes. Nesta comunidade, para além de termos identificado que a alimentação chegou pela última vez há cerca de um mês, percebemos também que a bomba de água de Sambanhe não está a funcionar, existindo adicionalmente uma preocupação das pessoas relativamente à qualidade da própria água.
O ciclone, esse, ficou lá atrás, no dia 15 de Março, mas as ondas de choque que provocou não param de multiplicar-se, com o passar dos dias!
Registámos todas essas informações com inquietação, manifestando a nossa vontade de realizar as diligências necessárias para ajudarmos. Assim, à chegada ao centro de saúde, conversamos com o Dr. Sérgio e a partir de amanhã, junto de cada ponto de abastecimento de água, estarão ativistas a distribuir Certeza e a informar as pessoas de como deverão proceder para garantir que a água não esteja contaminada. Articulámos também com a Swiss Internacional, que trabalha com wash (sigla que está para Water, Sanitation and Higiene), a dar conta da situação da bomba de Sambanhe.
É bom quando encontramos as pessoas certas, no local certo, e damos seguimento aos nossos propósitos! É bom sentir que estar no terreno, de olhos postos nas pessoas e nos seus problemas, apesar de termos um foco específico, nos permite estabelecer pontes que chegam para amenizar muitos outros problemas!
No meio de tudo isto, uma das nutricionistas ficou a dar apoio às crianças com desnutrição que estão internadas, com as pesagens diárias e devidos ajustes nas doses dos leites terapêuticos.
O período da tarde revelou-se um autêntico desafio, com a constituição dos kits de roupa, que serão distribuídos em articulação com as Irmãs durante esta semana, nas comunidades já identificadas.
Esta foi a segunda-feira que marca um mês após a passagem do Idai pelo centro de Moçambique, pelo Dombe, por estas comunidades e pela vida destas pessoas adentro, e foi uma segunda-feira cheia de diversidade, que faz antever uma semana muito preenchida e uns tempos vindouros em que (ainda) não se tem tempo para respirar, porque a urgência ainda dita o ritmo dos dias!
* Testemunho de Liliana Granja, nutricionista da equipa da missão humanitária da Helpo no Dombe