Missão Esperança – O Testemunho de Selma Uamusse 8/07/2019

Não sei se já consegui pousar as asas o suficiente para conseguir escrever algo que consiga transmitir as sensações destes 10 dias de um Moçambique que me era desconhecido, mas tão fundamental conhecer. Acredito que as palavras que proferimos têm poder, poder para abençoar, para fazer acontecer e que as palavras não caiem em saco vazio quando a vontade do coração é sincera. Quando no concerto “ Mão Dada a Moçambique” proferi o desejo de visitar as zonas afetadas pelas cheias na sequência do ciclone Idai e, acompanhar o trabalho das instituições que estariam no terreno, foi uma declaração intencional mas nunca poderia imaginar que iria acontecer um outro ciclone (Kenneth) nem que a viagem com a Helpo fosse tão intensa, completa, emocional e espiritualmente revolucionária. Ainda por cima não era apenas o desejo do meu coração. Era-o também da mulher que esteve efetivamente de mão dada não só a Moçambique, mas também a mim durante todo o processo de produção do evento, longe dos holofotes, mas bem perto de todas as pessoas, processos, chatices, pepinos, berbicachos e dor. Lembro-me com demasiado pormenor de como ao longo do bonito concerto nos olhámos de sorriso choroso e dissemos uma para outra num abraço sincero: “temos que lá ir”! , khanimambo Felícia, por esta milha extra que só faria sentido contigo.

Antes de começar a escrever dei uma vista de olhos ao meu diário de bordo e acabei de ler uma carta que me deixa em lágrimas das meninas da Missão de Dombe (Internato Nossa Senhora Rainha do Mundo). Cito em parte a Fiona e a Natália, “ Selma… vieste sentir a dor do teu povo, muitos makorokotos por não teres deixado o teu país. Continua sempre no caminho de Deus, pois ele é chave para a vida… nos apaixonamos bastante pelo teu sorriso que dá esperança”… se elas soubessem o quanto estas palavras significam para mim…

Missão Esperança, acho que é um bom nome não só para a viagem, a minha viagem que me faz duvidar se as minhas asas já pousaram ou não, mas para todo o processo e todo o trabalho feito pelas pessoas da Helpo.

Não consigo resumir a viagem em poucos caracteres, mas posso falar das pessoas que tocaram o meu coração e é com naturalidade que começo pelo Cazé. A minha proximidade com a Helpo era alguma e data de há uns 4/5 anos para cá, pelo que o Cazé não é um ilustre desconhecido, antes tem sido o braço que faz a ponte com a instituição e a ele deve-lho um agradecimento especial por ter sido tão rápido a ouvir as minhas preces e simultaneamente cuidadoso, cauteloso, perspicaz e sábio no planeamento e condução desta viagem. Incansável, pragmático, meticuloso, comunicador, mas também bom ouvinte, por vezes olhava para ele a olhar para mim como se me estivesse a ler, e estou em crer que nos encontramos no campo da compaixão pelos outros. 

Foi bastante simbólico termos chegado a 1 de junho, dia da criança, a Pemba. Depois de uma ligação Lisboa-Maputo-Pemba mesmo à tangente, a alegria das crianças na biblioteca de Pemba, a sua capacidade de organização num “evento” cultural recheado de poesia e teatro de intervenção, música e dança, deu um arranque esperançoso aos intensos dias que se seguiram. O Manuel Cipriano, grande dinamizador e colaborador da Helpo ficou no meu coração pelo modo empenhado como diligentemente cuida de um espaço onde muito se partilha e aprende. A assertiva, pequena em estatura, Mariamo, que de modo imparável  apresentou, coordenou, cantou, representou, declamou e suou mostrando a sua grandiosidade de carácter… claramente estão ali “ futuros presidentes”. Perdão, a Mariamo quer ser governadora!  Tudo a seguir foi bastante arrebatador, a visita à devastada quase fantasma ilha do Ibo, onde vimos os escombros da escola em reconstrução numa parceria da Fundação do Ibo e Helpo, a distribuição alimentar que o World Food Program nos ajudou a acompanhar, a visita a Macomia , a ida de helicóptero a Mucojo… árvores, casas e escolas destruídas, pessoas deslocadas, miséria, fome mas sempre muita cor, música, sorrisos, as águas límpidas das Quirimbas, uma paisagem luxuriante apesar da destruição e muitos rostos não sei se de esperança se de falta dela. Não me posso esquecer do generoso Baboo e a sua esposa, não apenas pela hospitalidade no Kauri junto ao mar, mas pela grandiosidade de coração e pela maneira como vi este homem do Ibo de grande porte, abraçar o seu povo enquanto chorava sentindo ele também a dor ou então os sorrisos do diretor da escola enquanto via a sua escola em Macomia a ser reconstruída durante as aulas das crianças que decorriam no exterior.

Foi pesada a estadia em Cabo Delgado, mais se tornou quando ouvimos os relatos dos ataques armados que as populações estão a sofrer através do ministério da Iris e da Força Militar Brasileira, mas foi em Dombe na província de Manica que ficou o meu coração. Foi aqui que pude não apenas ver ou testemunhar o que aconteceu na sequência do ciclone Idai mas foi aqui que me pude apaixonar. A irmã Maria Teresa, do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, disse-me que: “Quem vai para o Dombe e ama o Dombe volta ao Dombe”… e, eu sei que vou voltar…

Aqui, foi amor à primeira vista pela dedicada Liliana. Era suposto ela ser fã do meu trabalho musical, mas quem saiu de lá fã do trabalho dela enquanto nutricionista fui eu… Como é que se consegue colocar assim o nosso coração ao serviço dos outros e ser simultaneamente tão eficaz, resiliente e doce… desde a distribuição das bicicletas da Mozambikes, à distribuição alimentar, o trabalho no centro de saúde com as pré-mamãs e bebés, ao rastreio, ao simples modo como falava com as pessoas e o carinho com que tratava os colegas de trabalho, a Hélia, o Asme, o Joaquim…Uma verdadeira mulher do Norte, de Portugal e Moçambique que me ajudou ainda mais a deixar parte do meu coração no Dombe…

E ele lá ficou com a minha amiga Inês de mais de 80 anos que esteve com o marido em cima de uma árvore durante 4 dias e que depois de receber uma bicicleta, ia aprender a guiá-la sem medos logo a seguir. Lá ficou o meu coração com a Joana que também ficou numa árvore durante 3 dias, onde grávida de 7 meses prendeu os seus dois filhos aos ramos dividindo a arvore com cobras, lá ficou com o franzino Samuel que bravamente lutou com um crocodilo que o deixou com 90 pontos no corpo, lá ficou com os meninos de 2 a 5 anos com quem cantei, brinquei, caí no chão no infantário de Chitai-Tai ou com a minha Augusta de 4 anos cujos olhos pediam mimo e abraços. Lá ficou com os rapazes que lutam contra vícios na Fazenda da Esperança, lá ficou com as minhas novas filhas adotivas do Internato com quem até hoje mantenho contacto, lá ficou com a Tina Joaquim que delicadamente me mostrou a sua humilde nova casa no centro de reassentamento, com o miserável acampamento de Mococoi, lá ficou com a Hélia, o Asme, o Joaquim, a Marta, Iraci, Ildo, irmãs  Rita, Miriam, Maria, Mª Teresa, Pedro e equipa da MotaEngil. Tantas caras tantos rostos, tantas vidas…

Há uma sensação estranha de olhar para as situações que testemunhei como enorme exemplo de exercício de resiliência, onde não é o meu sorriso que traz esperança mas a força de muitos que nada têm. Mas apesar da resiliência e atitude positiva há traumas, há necessidades, há carência e penso para comigo: “O que resta a estas pessoas que perderam tanto, casa, familiares, animais e já não têm terras para cultivar?” Sobra … Esperança!

Obrigada Helpo por poderem dar e ser esperança a estas populações. Com bens materiais e infraestruturas é certo, mas acima de tudo com dignificação, honra, cuidado e amor. E é com essa revolução e revelação de amor com que me ligo a vós, que de modo nada distante ou distinto, antes próximo e humilde olhando para cada um de modo distinto e individual, honrando, amando, cuidando criando um pedacinho de céu na terra em tudo o que fazem, através do amor.

Testemunho de Selma Uamusse, Cantora a residir em Portugal, moçambicana. #Idai #Kenneth #SelmaUamusse

Anúncios

Diário de uma viagem – final

A primeira vez que estive com a Selma Uamusse foi numa situação atípica. Depois de a ter visto em palco no Teatro do Bairro, na peça Ruínas de Lynn Nottage, onde me deixou sem palavras perante tamanho talento, quer como atriz, quer como cantora a encher o palco e a encher o meu coração com uma performance de arrepiar e fazer cair a lágrima. Dei-lhe boleia até ao B-Leza, onde mais tarde iria fazer uma pequena atuação mas, estranhamente, durante essa conversa, que foi mais um monólogo porque a Selma praticamente não falou, para proteger a voz. Disse-me que não ia falar, que apenas ia escutar. Falei da Helpo, de amigos em comum e creio que dessa breve comunicação unívoca terá nascido a ligação à Helpo.

Depois disso a Selma foi por duas vezes abrilhantar celebrações da Helpo, como “Embaixadora” artística de Moçambique, o que nos enriqueceu muito e o convite para visitar os nossos projetos estava no ar. Após o Ciclone Idai e com a criação do Movimento Mão dada a Moçambique” do qual foi mentora, a Selma convidou a Helpo para ser uma das organizações beneficiárias e responsáveis por implementar projetos de resposta à emergência, que nos encheu de orgulho.

Quando na noite do dia 2 de Abril, no grandioso concerto do Capitólio onde a equipa formada pela Selma Uamusse, Felícia Silva e mais de 200 artistas, colaboradores e amigos, conseguiram angariar mais de 400 mil euros, ouvi a Selma dizer ao vivo que queria ir a Moçambique visitar os projetos a Moçambique, não tive dúvida que iríamos estar juntos na pérola do Índico. Curiosamente o dia 2 de Abril foi o dia da chegada de uma equipa de seis pessoas a Dombe, Distrito de Sussundenga, Província de Manica, uma das zonas mais atingidas pelo Ciclone Idai, onde violentas cheias provocaram uma enorme desgraça. Nessa equipa de seis estavam as três nutricionistas, que acompanharam um camião com 30 toneladas de bens doados em Nampula e Cabo Delgado, assim como material que estava no armazém da Helpo .

O convite à Selma foi feito no dia 3 de Abril e a resposta foi um “sim redondo”, onde só faltou ajustar as datas.

O que não prevíamos era que no dia 25 de Abril, um novo ciclone iria entrar em Moçambique, obrigando a reorganizar o programa, e assim, de 1 a 9 de Junho, tivemos o prazer de conviver de perto com duas forças da natureza, a Selma Uamusse e a sua agente Felícia Silva. O que se passou já foi descrito e gravado, mas as memórias ficarão guardadas para sempre no coração. Esta programação apertada que incluiu voos de avião, voos de helicóptero, viagens de carro, viagens de barco com crocodilos (que não são problema) por perto, teve muito mais de inteligível do que quilómetros percorridos, aldeias visitas, intervenções testemunhadas. Tenho a certeza absoluta que a Selma saiu com a convicção que as noites de sono perdidas, as horas gastas ao telefone, os nervos causados pelo sufoco protocolar, valeram a pena por tudo aquilo que testemunhou. No discurso das dezenas de meninas do internato das Irmãs em Dombe e do Bispo de Chimoio, D. João Carlos Nunes, houve uma coisa em comum: Chegar alguém importante à Beira é uma coisa normal, mas chegar a Dombe…!!! A Selma espalhou encanto, semeou esperança e tenho uma crença profunda que o seu papel de “Embaixadora” cultural de Moçambique não vai para por aqui e que altos voos estão traçados para ela.

Como na parábola da águia de James Aggrey, que inspirou Kwame Nkrumah, primeiro Presidente do Gana a iniciar o processo de descolonização africana, que D. João Carlos partilhou connosco, uma águia bebé foi criada como galinha e diziam-lhe que nunca poderia voar. Todo o seu crescimento ouviu que era galinha e comportava-se como galinha e achava-se que como tinha sido ensinada assim, nunca seria capaz de sonhar a ser águia. Mas um dia subiu a um ponto elevado, deixou de parte todo o discurso negativo que a puxava para baixo, ousou abrir as asas e voou bem alto.

Os processos longos são difíceis de avaliar mas tenho a certeza que muitas asas se abrirão depois da visita da Selma, muitas águias se irão destacar e talvez um dia as galinhas estejam em minoria e sonhar não seja algo estranho.

Regresso ao que não há

É tempo de esvaziar os armazéns emprestados generosamente pelos parceiros; fazer a contagem dos últimos bens e procurar determinar, finalmente, o número do último contentor a enviar: o sexto. É tempo de olhar para o mundo como o mundo o deixou e de assistir, nunca impunemente, à normalidade que se cola aos minutos que passam. É tempo de falar em reconstrução e continuar à espera que os processos necessários a essa reconstrução se encurtem, por magia. Passaram os dias e converteram-se em semanas e transformaram-se em meses.

Olho para trás e ainda me parece inacreditável que em 6 semanas o terror tenha visitado duas vezes o mesmo país, e que fora desse terror tudo ande, tudo corra! É quase insuportável que a normalidade e o sofrimento possam conviver tão pacificamente. E há uma ideia que não me larga. Daqui a uns meses, a fome, as doenças, as mortes, serão quase impossíveis de serem determinadas como consequências dos dias 15 e 25 de Abril de 2019. E no entanto.

A normalidade das pessoas que foram e são obrigadas, diariamente, a reinventar as suas vidas e a ignorar a sua condição de vítimas (para quê?), deixou de ser notada e de ser notícia! A onda de solidariedade deu lugar a um mar calmo e infinito, sem qualquer sobressalto no horizonte e a adrenalina dos dias que se fundem com as noites deu lugar a uma calma artificial que esconde o rebuliço de questões que ficam por responder. E ficarão por responder.

O que é a normalidade num mundo em que a fome anda de mãos dadas com as estações do ano; as doenças se aninham no regaço das crianças e testemunham as suas vidas atribuladas até ao dia em que as roubam; os sonhos não entram; a escola depende de tantas contingências que pode ser todos os dias domingo. O que é a normalidade num mundo em que as pessoas sabem que nunca são lembradas e por isso não vão sentir-se esquecidas?

Moçambique saiu da rota dos órgãos de comunicação social e dos hashtags das redes sociais. Voltou a mergulhar no anonimato amargo do esforço diário que torna tudo apenas igual ao que era antes. Ou não?

As pessoas que viram, viveram e procuraram virar ao contrário o avesso das coisas, estão aqui, continuam aqui. Os olhos mais turvos, uma leve névoa de quem não sossega o que vai dentro. Palavras novas no vocabulário diário: vítima, regresso à normalidade, morte, reconstrução…palavras que vão procurando ficar enterradas nas camadas do tempo que vai passando. E já sei, o tempo cura tudo. Quanto tempo?

Diário de uma visita VI

As noites de Dombe são frias e húmidas, nesta altura do ano. Esta noite que passou chegou aos 11 graus e pela manhã o orvalho brindava com um tempero de frescura tudo o que tocava. Bem cedo, no estaleiro da Mota Engil, a equipa da RTP trabalhava na reportagem sobre o Sr. Tomás Macumbuzi, um homem simples que se transcendeu na noite de 15 para 16 de Março, ao ver a sua casa invadida pelas águas,  e que foi a nado até terra firme para “mostrar preocupação” ao Chefe da Oficina, o Sr. Lima. A preocupação que trazia era, nada mais, nada menos que ter a sua família refugiada em cima de uma árvore, juntamente com muitas mais pessoas. Apenas pediu uma tábua ao Sr. Lima, mais outro ser humano simples na sua grandiosidade, que rapidamente sugeriu usar uns bidões da Galp como flutuadores. Depois de ter soldado dois bidões, e de os ter levado até ao mar que tinha nascido às portas do estaleiro, aperceberam-se que baloiçavam muito e decidiram soldar mais dois bidões com uma estrutura metálica por cima, tendo sido este engenho flutuante que permitiu ao Sr. Tomás salvar a sua família, não tendo parado por aí, pois continuou a ir de árvore em árvore, carregar pessoas e levá-las para a Missão, tendo salvo no total 120 pessoas.

Para ele não foi um ato heroico, foi apenas resolver uma preocupação. Para o Sr. Lima foi apenas fazer o que tinha que ser feito naquele momento.

Mas os heróis são assim, e precisamos de mais Senhores Tomás e mais Senhores Limas para fazer deste mundo um mundo melhor. Mas melhor que ler estas linhas é assistir à peça da RTP, Jangada improvisada, feita com mestria pelo Pedro Martins e o Jacinto Baibai, cuja produção eu tive o prazer de assistir.

De seguida fomos encontrar a Selma Uamusse a espalhar magia e amor na Escolinha Chitaitai, onde nem parece que estes edifícios estiveram submersos há pouco menos de três meses, pois está tudo impecavelmente limpo, pintado e recuperado. As crianças passaram por momentos terríveis, mas aquele ambiente acolhedor é certamente o mais propício para ajudar a ultrapassar o trauma. Além disso, ter a Selma a cantar com eles e para eles, certamente os alegrou e os sorrisos que nos presenteavam não enganavam. A “tia Selma” fez um dia diferente para estas crianças.

Foi uma manhã corrida em que tivemos tempo de mostrar à Selma e à RTP o trabalho realizado pela nossa equipa de nutricionistas no Centro de Saúde das Irmãs, acompanhar uma distribuição alimentar em Mucombe, visitar o centro de reassentamento de Mucombe, atravessar o Rio Mussapa na embarcação Esperança, que a Helpo adquiriu à chegada a Dombe e que ainda apoia a população e as equipas da saúde.

À tarde houve ainda tempo para ver um rastreio nutricional na Comunidade de Macocoe, onde o centro de reassentamento é grande e as condições das pessoas são extremamente precárias. O jantar foi momento de despedida da equipa da RTP que partia em direção ao Chimoio na manhã seguinte, mas que teve oportunidade de acompanhar dias muito intensos, recheados de um trabalho sério que além de ser feito, precisa ser mostrado, para que quem acreditou e confiou na Helpo, se sinta tão satisfeito e realizado como nós nos sentimos.

Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

Diário de uma visita V

Saímos às 5:30 de Dondo, pela estrada Nacional 6 em direção ao Inchope, passando pela zona de Lamego e Nhamatanda onde pudemos observar os estragos provocados pelo Ciclone Idai, que comeu praticamente metade da estrada, obrigando a uma paragem para permitir a circulação apenas num sentido. Felizmente a espera não foi longa, o que nos permitiu entrar passado uma hora em Chimoio, capital da Província de Manica  para matabichar, num sítio de referência na antiga Vila Pery, o Restaurante / Café Ponto de Encontro. Vila Pery ganhou este nome em homenagem a João Pery de Lind, Governador do território pela Companhia de Moçambique, no ano de 1916. Em 1975 conquistou o nome atual, mas que nunca se tinha perdido, pois os naturais da terra nunca tinham deixado de utilizar o nome Chimoio, terra conhecida pelo seu algodão e vasta produção agrícola.

Depois de percorrermos mais 130km passarmos a barreira natural das montanhas no Parque Nacional transfronteiriço de Chimanimani, chegámos a Dombe onde tudo estava preparado para um evento que estava a mexer com toda a Comunidade: a entrega de 100 bicicletas Mozambikes!

Um a um foram sendo chamados os 100 sortudos, agentes polivalentes de saúde, ativistas da saúde, voluntários da missão e alunos da Escola Secundária que precisam percorrer longas distâncias. Além da equipa de nutricionistas da Helpo e do Voluntário Joaquim Batista, padrinho e voluntário da Helpo de longa data, recentemente chegado a Dombe para tratar da logística ligada ao projeto, também contámos com a preciosa ajuda da equipa da Mota Engil, liderada pelo Eng. Pedro Fontes, todo o pessoal ligado à Missão de Dombe, Rui Mesquita da Mozambikes e claro, da Selma Uamusse e da Felícia Silva. A RTP estava a apanhar todos os pormenores e os presentes não conseguiam esconder as suas emoções. A primeira a extravasar os sentimentos foi a Inês, a senhora mais idosa do grupo que logo agradeceu muito à Selma de forma cativante e que chamou a atenção de todos, começando a cantar e a dançar mobilizando prontamente todo o grupo. A Selma não se ficou e as duas dançaram, cantaram e abraçaram-se como velhas amigas. Não foi a primeira grande entrega que a Helpo fez com a Mozambikes, mas esta foi certamente a mais emotiva, não só pelas razões que levam a esta entrega, mas sobretudo pela diferença que estas bicicletas irão fazer na vida de todas estas pessoas.

Na parte da tarde tivemos um pequeno contratempo, pois o carro que alugámos para garantir a viagem de Beira até Dombe, trancou-se sozinho com as chaves no seu interior. Mais uma vez contámos com a ajuda preciosa da Mota Engil que trouxe as ferramentas tendo a mestria técnica ficado a cargo do Joaquim Batista, que dizia para os jovens que ali estavam por perto que aquilo não era para ser aprendido. Conseguimos abrir o carro que logo de seguida regressou à Beira nas mãos de um motorista que o nosso amigo Vidigal, que nos vendeu o barco no início desta missão, arranjou graciosamente.

Depois de resolvido o problema, descemos ao Rio Mussapa e é impressionante ver o que o rio subiu, e os estragos que causou. Toda a zona circundante ao leito, que anteriormente era usada como machamba, terra de cultivo, é agora uma área estéril onde durante os próximos tempos nada prosperará. A RTP entrevistou alguns sobreviventes para conhecer histórias que mudaram as vidas das pessoas que ali viviam. Ficamos pequeninos ao ouvir histórias de desgraça e de força. Pensar em pessoas aparentemente frágeis que ficaram três dias em cima de uma árvore, sem comer, sem beber, agarrados a troncos, agarrados à vida, alguns ainda agarrados aos seus filhos, deixa-nos a pensar sobre muita coisa. Estar aqui a ouvir estas histórias faz-nos sentir vazios mas ao mesmo tempo conscientes de como é bom estar vivo, obrigando-nos a relativizar aquilo que são os nossos problemas.

Ao final da tarde foi impossível dizer que não ao convite da Mota Engil para um jantar no estaleiro, não só pela companhia e pela qualidade da cozinha do Chefe Almeida, um moçambicano que orgulhosamente diz que já conhece Portugal pois já esteve umas semanas no Fundão, a terra das cerejas,  mas também por ser o único sítio num raio de 130 Km onde tínhamos a possibilidade de assistir ao jogo da seleção de Portugal contra a Suiça, coroada com um hat-trick do nosso Cristiano Ronaldo. Apesar de toda a desgraça que caiu aqui, Dombe é um sítio de celebração. Celebração de vida, de amizade, de esperança e até da festa do futebol!

Diário de uma visita IV

Depois de uma partida feita pela LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, mas também conhecido por Late And Maybe (Atrasada ou talvez), que decidiu adiar o horário do vôo Pemba – Beira das 10:25 para as 19:25 sem nos avisar, acabámos ficando mais tempo do que previsto em Pemba. A Selma aproveitou a manhã para experimentar uma máscara de Mussiro, ainda por cima pelas mãos experientes da Alima Bacar, natural do Ibo, cara conhecida pelo seu sorriso cativante no Restaurante do Kauri. A equipa da Helpo que se tem desmultiplicado em reuniões do Governo, do INGC – Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, e OCHA – Office of Coordination of Humanitarian Affairs (Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários), participou numa reunião encabeçada pela UNICEF e a OIM/IOM – Organização Internacional para as Migrações, para saber quais as organizações presentes no terreno na reconstrução de edifícios escolares, das quais apenas estavam presentes a Helpo e a Fundação Nema.

No contexto de emergência, cada reunião é uma aprendizagem em diversos campos: Ter oportunidade de partilhar momentos com pessoas de outros países, alguns a que estamos mais habituados como Espanha, França, Itália, Brasil, Inglaterra, Escócia, Austrália, Estados Unidos, África do Sul, Canadá, mas também de países cujos habitantes se encontram pouco em Moçambique ou Portugal como Dinamarca, Noruega, Afeganistão, Síria, Indonésia, Malásia, Bósnia-Herzegovina, Nicarágua, Honduras, apenas para mencionar algumas, faz desta experiência algo inolvidável.

Na esperança de que o voo da LAM não sofresse novo adiamento, tivemos uma surpresa na sala de embarque, pois a segunda equipa da Força Nacional de Segurança Pública, os Bombeiros Militares do Brasil, que depois de um grande trabalho no Ciclone Idai, vieram para Cabo Delgado para a resposta ao Ciclone Kenneth, estavam de saída e iriam voar connosco. 29 Heróis que já tínhamos encontrado na Ilha do Ibo e agora estavam a regressar a casa. Quando, dentro do avião o Comandante referiu que a Força Nacional estava no avião e agradeceu o seu trabalho, uma forte salva de palmas ecoou em todo o avião. Homenagem merecida por quem tanto fez pelo povo moçambicano.

Com uma breve escala em Nampula, conseguimos chegar à Beira e com o adiantar da hora já não conseguimos fazer o passeio pela Cidade da Beira, cujo nome foi dado em Homenagem ao Príncipe da Beira, título dado ao Príncipe primogénito do herdeiro presuntivo da Coroa de Portugal.

Passámos a noite em Dondo, mesmo à saída da Beira, tantas vezes confundido com Dombe, destino final da nossa viagem. Quis o destino (e a LAM) que tivéssemos que passar uma noite em Dondo, onde fomos muito bem recebidos a altas horas da noite pelo Luís e Raquel da Missão África que nos receberam de braços abertos e com uma refeição simples, mas que nos deixou a todos muito satisfeitos.

Não conseguimos chegar a Dombe, como previsto, mas chegámos ao Dondo e valeu a pena! Mais amigos fizemos e mais enriquecida ficou a nossa viagem. No dia seguinte, 350km de carro separam a Missão África em Dondo da Missão de Dombe, em Sussundenga, onde todos somos um!

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Diário de uma visita III, De helicóptero descemos ao Inferno de Mucojo

A distância de Pemba para Macomia são 200km, mas é fácil lá chegar: 80km até ao cruzamento de Silva Macua e depois 120km por uma estrada mais estreita e em piores condições, mas que dá para andar bem. Parámos em Silva Macua, comunidade com forte implementação da Helpo, com três salas de aula construídas e duas salas reconstruídas na Escola Primária onde é distribuído lanche escolar. Na Escolinha Comunitária construímos três salas e uma sala polivalente.

Depois da forte resposta na semana seguinte ao Ciclone, só em Silva Macua, aldeia também conhecida por Salaué e Sunate, apoiámos com bens alimentares 125 famílias que perderam as suas casas na totalidade. Mais tarde apoiámos 168 famílias que perderam as suas casas parcialmente. A missão do dia era entregar às crianças apadrinhadas que perderam as suas casas parcialmente um apoio reforçado, entrega que teve um toque especial, porque a Selma Uamusse estava connosco.

Depois da entrega, rumámos a norte, em Direção a Macomia, para a pista de aviação onde o Helicóptero do WFP nos iria levar em direção a Mucojo, junto à costa. A tripulação Ucraniana recebeu-nos muito bem e a experiência fantástica de voar no MI-8, helicóptero de carga de fabrico russo, faz-nos descer aos infernos.

Mucojo, que fica situado na costa e ainda pertence ao Distrito de Macomia, foi simplesmente arrasado, praticamente todas as árvores foram deitadas abaixo, as casas caíram ou perderam o telhado e por ser um local onde ainda não chegam camiões, o transporte de bens está a chegar a conta gotas.

A paragem previa uma visita de 20 minutos e ao caminharmos em direção ao oceano azul turquesa, que a cerca de 2 km de distância nos mostra um cenário paradisíaco, fomos passando pelas antenas de rede de telemóvel completamente desfeitas, em direção a uma árvore, uma das poucas que permanece de pé. Acredito que aquela árvore tem uma energia especial que a fez ficar de pé e que faz dela um símbolo de resiliência e de esperança. Olhar para aquela árvore foi como olhar para as centenas de pessoas que aos poucos vão reconstruindo as suas casas a partir do nada. As árvores nem sempre morrem de pé e os moçambicanos, independentemente da sua religião, acreditam que só se morre quando Deus quer.

Mas a reconstrução das casas e erguer-se perante as adversidades, depende de cada um. Vai demorar, mas acontecerá.

Na viagem de regresso, olhando com mais atenção a paisagem, vemos zonas em que todas as árvores, sem exceção, foram arrasadas. Saímos de Mucojo de coração vazio.

Ao chegar a Macomia fomos visitar a Escola Primária Macomia Sede, onde a reconstrução das nove salas de aula está a um ritmo acelerado e as turmas que estão espalhadas pelas sombras improvisadas pelo pátio, olham com ansiedade o momento em que vão entrar nas salas renovadas, graças ao apoio da Helpo e dos milhares de portugueses que confiaram em nós.

A RTP fez uma reportagem sobre esta conquista onde vemos que, por vezes, depois das coisas más chegam mesmo coisas boas. Os 1499 alunos desta escola depois de todo o sofrimento que os atingiu vão receber 9 salas de aula com telhado novo, pintura nova e arranjos nas portas e janelas.

Depois de Mucojo, precisávamos de algo que nos confortasse o coração. A Selma Uamusse gostou do que viu e gravou a primeira parte de uma entrevista para RTP sentada em cima de um dos troncos das árvores que caíram e que agora são usados como parque de diversão para as crianças. Algumas árvores do pátio da escola caíram, mas a vontade de estudar continua em alta e os alunos da Escola Primária de Macomia Sede estão comprometidos em fazer esquecer as coisas más que o Kenneth trouxe e agarrar com as duas mãos as coisas boas que estão a chegar.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique