Helpo de luto em memória do Padre Maurice Odhiambo

Quando um dia de festa fica irremediavelmente marcado por uma perda irreversível, sentimos que ficamos sem chão, momentaneamente sem rumo e sem saber o que pensar.

Foi isso que aconteceu no dia 7 de novembro, na Cidade da Beira, naquele que seria o culminar glorioso de um projeto que acabou por dar à Helpo mais do que inicialmente havíamos sonhado. Sempre que me refiro a este projeto que, apesar de se chamar Futuros Presidentes de Moçambique, nada tem de política, e que fala sobretudo de sonhos e esperança. Nunca sonhámos receber em cerca de ano e meio, três Presidentes da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de Portugal, Filipe Jacinto Nyusi, de Moçambique, e Kolinda Grabar-Kitarović, da Croácia, como ilustres visitantes, percorrer quatro cidades de Moçambique e receber milhares de visitantes em dois continentes. A metáfora de que uma criança com acesso a uma educação de qualidade pode sonhar ser qualquer coisa, inclusive Presidente da República, continua a inspirar muita gente.

Não esperávamos menos da exposição na Cidade da Beira, exemplarmente preparada pelo Paulo Serras, responsável pelo Camões na capital de Sofala, com um cunho especial por marcar a reabertura do espaço do Centro Cultural Português, depois da passagem do Ciclone Idai que destruiu parcialmente o edifício do Consulado Geral de Portugal onde está inserido.

O Ciclone Idai fez-nos adiar a exposição da Beira, mas também teve o dom de reforçar a presença da Helpo em Moçambique, com uma Missão em Nutrição Materno Infantil, no centro do país, mais concretamente em Dombe, Distrito de Sussundenga, Província de Manica.

Estando numa zona já próxima da fronteira com o vizinho Zimbabué, Dombe foi uma das zonas mais afetadas pelo Ciclone Idai, onde centenas de pessoas perderam a vida devido às cheias e onde milhares continuam a sofrer as consequência de terem visto os seus campos de cultivo, as suas casas, os seus animais, e por vezes tudo a ser levado pelas águas.

Mas o ciclone Idai também nos trouxe novos parceiros e amigos, nomeadamente na Missão de Dombe as Irmãs do Instituto de Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, juntamente com a Obra de Maria, os Padres Missionários de África e a Fazenda da Esperança, nos fizeram sentir em casa desde o primeiro dia.

Tudo estava conjugado para que o dia 7 de Novembro fosse uma grande festa para a Helpo, celebrada junto dos amigos, mas infelizmente não foi. Ao fazer a viagem de 300km, entre Dombe e Beira, o Padre Missionário de África, Maurice Odhiambo, de 35 anos, natural de Kisumu, no Quénia, sofreu um acidente de viação na Estrada Nacional N6, na zona da Nhamantanda, tendo vindo a perder a vida algumas horas mais tarde.

O Padre Maurice iria completar o seu primeiro ano de sacerdócio no próximo mês de Dezembro, sendo que toda a sua atividade havia sido realizada em Dombe. Antes, já ali havia feito o seu estágio, pelo que a sua ligação à comunidade era muito forte.

Padre muito recatado e simples, foi informado pela Irmã Mirian, em jeito de brincadeira, que a inauguração da Helpo seria um evento social muito importante e que deveria caprichar na forma de vestir. Decidiu levar apenas uma pasta com a sua túnica de sacerdócio para usar na inauguração, que demonstra bem a devoção e o orgulho que tinha em ser Padre e em exercer esta missão de Deus.

Quis o destino que o carro onde o Padre Maurice perdeu a vida, fosse o mesmo de onde o Padre Raphael Gasimba havia conseguido escapar com vida, fintando a morte após terem sido engolidos pela subida das águas durante a passagem do Ciclone Idai, precisamente na mesma Estrada Nacional N6.

Recebemos a notícia do acidente minutos antes da cerimónia de inauguração e tive oportunidade de partilhar o sucedido com os presentes. Viria a receber a pior notícia depois do jantar, pelas 22h15. A equipa da Helpo deslocou-se ao Centro Nazaré, em Inhamizua, Casa dos Padres Missionários de África, onde estavam os Missionários de Dombe reunidos. A tristeza era geral mas também era transversal um sentimento de esperança.

No seu curto tempo de sacerdócio, o Padre Maurice inspirou muita gente e a sua memória irá continuar a fazê-lo, agora com o sabor da saudade. Porque como li numa das muitas homenagens ao Padre Maurice nas redes sociais, “Para quem crê, a vida não é tirada, mas transformada!”

*Testemunho de Carlos Almeida, Coordenador nacional dos projetos da Helpo em Moçambique.

19 agosto, Dia Mundial de Assistência Humanitária

As Nações Unidas assinalam a 19 de agosto o Dia Mundial de Assistência Humanitária. Este ano, a organização destaca a ação de mulheres que atuam em crises em todo o mundo a quem chama de “heróis desconhecidos”.

Na sequência dos ciclones Idai e Kenneth, um destaque especial para as mulheres moçambicanas, que são um misto de beleza e fortaleza, com base no papel fundamental que têm na sociedade, no trabalho na linha dianteira que assumem nas suas comunidades e na sua luta permanente no combate à fome.

40″ solidários

Foi a mais de 10 000 kms de distância que acompanhámos toda a operação de angariação de bens para apoiar as pessoas vítimas dos ciclones Idai e Kenneth.

Foi de longe que realizámos e nos sensibilizámos com o imenso movimento de solidariedade e generosidade do povo português em relação ao povo moçambicano.

Testemunhámos a energia e o espírito de uma equipa que preparou, organizou e enviou 5 contentores de 40″ para Moçambique. Uma equipa incansável e da qual nos orgulhamos muito de pertencer!

Foram tantos os momentos em que o coração quis estar em Portugal e fazer parte desse movimento, dessa energia!… Daí que a chegada de um contentor a Pemba tenha sido uma imensa alegria porque a sentimos como o culminar de todo um processo, de todo um caminho.

À alegria seguiu-se a vontade de arregaçar as mangas, pôr mãos à obra e descarregar o material. Caixa após caixa, fomos conquistando os 12 metros do contentor e foi já ao cair da noite, sob a luz de uma lua quase cheia, que demos por terminado o trabalho.

Agora inicia-se uma nova fase: honrar o compromisso de fazer chegar os bens aos que mais precisam!

Estamos prontos 🙂

* Testemunho de Fátima Falua, diretora de programa da Helpo em Cabo Delgado

4 meses depois, o Dombe!

Depois de 4 meses a adivinhar os contornos e cores às coisas, às caras das pessoas. A imaginar o corpo às histórias que me contavam, Dombe, na primeira pessoa.

O rio, que já serenou e encolheu até voltar a caber nele próprio, não levanta qualquer suspeita sobre a fúria de que é capaz. As copas das árvores ainda estão aloiradas pela lama que ali chegou. Mas em volta não há casas. Imagino aldeias inteiras a ser engolidas por aquilo que não deixava distinguir entre chuva e cheia. Aldeias que agora se encaixam em tendas, lonas e estacas. Tendas que são latrinas, tendas que são escolas, tendas que são casas. O regresso à normalidade faz-se de coisas tão fora do normal! O frio é intenso. As noites oferecem 7, 8 graus centígrados, e ocorre-me que a normalidade, por aqui, está repleta de coisas difíceis. Não era diferente antes do ciclone. As coisas difíceis, digo.

De manhã, no hospital onde as mamãs desaguam com crianças de todos os tamanhos e idades, há queimaduras a tratar. Dorme-se demasiado perto da fogueira, para espantar o frio, e a capulana pega fogo!

Na sala onde decorrem as consultas para tratamento das crianças desnutridas, insiste-se com as mamãs e os papás que as fórmulas não são para poupar. São para dar às crianças, uma por dia e estão contadas. Procuramos contornar-lhes o medo afirmando que na semana que vem, na consulta, há outras tantas para levar. Mas o medo…essa espera por uma ajuda que não se sabe até quando!

Os animais morreram, as colheitas desapareceram e foram substituídas por uma camada espessa de lama, terra morta da qual, após tentativas, é possível perceber que não nasce nada. Por enquanto.

Voltar ao normal é restabelecer aldeias inteiras em sítios destinados pelo governo, sítios mais longe do rio, mais seguros. Nunca se sabe. É fazer das tendas casas e esperar por ajuda. É lançar sementes, constatar a falta de resultado, e esperar por ajuda.

As pessoas viram morrer outras pessoas: filhos, esposos, pais, mães, primos, tios, sobrinhos, vizinhos e amigos. Viram morrer e desaparecer tantos que não chegarão a constar das listas dos óbitos, à falta de corpos que constatem o óbvio!

Estas pessoas querem recomeçar. Todos os professores dizem ter registado poucas desistências por parte de crianças; as pessoas procuram estabelecer uma nova rotina. A natureza tem o seu tempo. Quanto tempo? Será que o tempo da natureza se coaduna com os orçamentos das agências que ainda estão no terreno?

Conheci a irmã Mirian. Quase toda a gente que seguiu os acontecimentos da catástrofe em Moçambique conheceu a irmã Mirian, mesmo não se recordando: na rádio, na imprensa escrita, na televisão. A irmã estava no Dombe na casa que ladeia o hospital. Duas estruturas que permaneceram intactas, como que numa ilha rodeada de um rio que virou oceano. Albergaram um mar de gente, assistiram a tudo e não esquecem. Esperaram 3 dias até conseguirem comunicar com o resto do mundo, 4 dias até o nível da água começar a baixar. Ouviram os primeiros relatos. As pessoas que diziam que enterraram os mortos sem identificá-los porque ninguém vinha e as coisas não podiam ficar assim.

As pessoas do Dombe sabem que estão longe, e logo, fora do epicentro dos apoios que chegam, daquilo de que se fala. Ontem alguém me dizia que o rasto de destruição que se vê na Beira impressiona. E eu pensava que no Dombe não se vê nada! Não ficou rasto de nada. Ingrata realidade a das aldeias que nem direito a rasto de destruição têm! 

Ainda assim, as pessoas de Dombe. Sem sorte, nem na geografia das tragédias, mas com um enorme sorriso de esperança e uma pergunta: já vai partir?

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

Missão Esperança – O Testemunho de Selma Uamusse 8/07/2019

Não sei se já consegui pousar as asas o suficiente para conseguir escrever algo que consiga transmitir as sensações destes 10 dias de um Moçambique que me era desconhecido, mas tão fundamental conhecer. Acredito que as palavras que proferimos têm poder, poder para abençoar, para fazer acontecer e que as palavras não caiem em saco vazio quando a vontade do coração é sincera. Quando no concerto “ Mão Dada a Moçambique” proferi o desejo de visitar as zonas afetadas pelas cheias na sequência do ciclone Idai e, acompanhar o trabalho das instituições que estariam no terreno, foi uma declaração intencional mas nunca poderia imaginar que iria acontecer um outro ciclone (Kenneth) nem que a viagem com a Helpo fosse tão intensa, completa, emocional e espiritualmente revolucionária. Ainda por cima não era apenas o desejo do meu coração. Era-o também da mulher que esteve efetivamente de mão dada não só a Moçambique, mas também a mim durante todo o processo de produção do evento, longe dos holofotes, mas bem perto de todas as pessoas, processos, chatices, pepinos, berbicachos e dor. Lembro-me com demasiado pormenor de como ao longo do bonito concerto nos olhámos de sorriso choroso e dissemos uma para outra num abraço sincero: “temos que lá ir”! , khanimambo Felícia, por esta milha extra que só faria sentido contigo.

Antes de começar a escrever dei uma vista de olhos ao meu diário de bordo e acabei de ler uma carta que me deixa em lágrimas das meninas da Missão de Dombe (Internato Nossa Senhora Rainha do Mundo). Cito em parte a Fiona e a Natália, “ Selma… vieste sentir a dor do teu povo, muitos makorokotos por não teres deixado o teu país. Continua sempre no caminho de Deus, pois ele é chave para a vida… nos apaixonamos bastante pelo teu sorriso que dá esperança”… se elas soubessem o quanto estas palavras significam para mim…

Missão Esperança, acho que é um bom nome não só para a viagem, a minha viagem que me faz duvidar se as minhas asas já pousaram ou não, mas para todo o processo e todo o trabalho feito pelas pessoas da Helpo.

Não consigo resumir a viagem em poucos caracteres, mas posso falar das pessoas que tocaram o meu coração e é com naturalidade que começo pelo Cazé. A minha proximidade com a Helpo era alguma e data de há uns 4/5 anos para cá, pelo que o Cazé não é um ilustre desconhecido, antes tem sido o braço que faz a ponte com a instituição e a ele deve-lho um agradecimento especial por ter sido tão rápido a ouvir as minhas preces e simultaneamente cuidadoso, cauteloso, perspicaz e sábio no planeamento e condução desta viagem. Incansável, pragmático, meticuloso, comunicador, mas também bom ouvinte, por vezes olhava para ele a olhar para mim como se me estivesse a ler, e estou em crer que nos encontramos no campo da compaixão pelos outros. 

Foi bastante simbólico termos chegado a 1 de junho, dia da criança, a Pemba. Depois de uma ligação Lisboa-Maputo-Pemba mesmo à tangente, a alegria das crianças na biblioteca de Pemba, a sua capacidade de organização num “evento” cultural recheado de poesia e teatro de intervenção, música e dança, deu um arranque esperançoso aos intensos dias que se seguiram. O Manuel Cipriano, grande dinamizador e colaborador da Helpo ficou no meu coração pelo modo empenhado como diligentemente cuida de um espaço onde muito se partilha e aprende. A assertiva, pequena em estatura, Mariamo, que de modo imparável  apresentou, coordenou, cantou, representou, declamou e suou mostrando a sua grandiosidade de carácter… claramente estão ali “ futuros presidentes”. Perdão, a Mariamo quer ser governadora!  Tudo a seguir foi bastante arrebatador, a visita à devastada quase fantasma ilha do Ibo, onde vimos os escombros da escola em reconstrução numa parceria da Fundação do Ibo e Helpo, a distribuição alimentar que o World Food Program nos ajudou a acompanhar, a visita a Macomia , a ida de helicóptero a Mucojo… árvores, casas e escolas destruídas, pessoas deslocadas, miséria, fome mas sempre muita cor, música, sorrisos, as águas límpidas das Quirimbas, uma paisagem luxuriante apesar da destruição e muitos rostos não sei se de esperança se de falta dela. Não me posso esquecer do generoso Baboo e a sua esposa, não apenas pela hospitalidade no Kauri junto ao mar, mas pela grandiosidade de coração e pela maneira como vi este homem do Ibo de grande porte, abraçar o seu povo enquanto chorava sentindo ele também a dor ou então os sorrisos do diretor da escola enquanto via a sua escola em Macomia a ser reconstruída durante as aulas das crianças que decorriam no exterior.

Foi pesada a estadia em Cabo Delgado, mais se tornou quando ouvimos os relatos dos ataques armados que as populações estão a sofrer através do ministério da Iris e da Força Militar Brasileira, mas foi em Dombe na província de Manica que ficou o meu coração. Foi aqui que pude não apenas ver ou testemunhar o que aconteceu na sequência do ciclone Idai mas foi aqui que me pude apaixonar. A irmã Maria Teresa, do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, disse-me que: “Quem vai para o Dombe e ama o Dombe volta ao Dombe”… e, eu sei que vou voltar…

Aqui, foi amor à primeira vista pela dedicada Liliana. Era suposto ela ser fã do meu trabalho musical, mas quem saiu de lá fã do trabalho dela enquanto nutricionista fui eu… Como é que se consegue colocar assim o nosso coração ao serviço dos outros e ser simultaneamente tão eficaz, resiliente e doce… desde a distribuição das bicicletas da Mozambikes, à distribuição alimentar, o trabalho no centro de saúde com as pré-mamãs e bebés, ao rastreio, ao simples modo como falava com as pessoas e o carinho com que tratava os colegas de trabalho, a Hélia, o Asme, o Joaquim…Uma verdadeira mulher do Norte, de Portugal e Moçambique que me ajudou ainda mais a deixar parte do meu coração no Dombe…

E ele lá ficou com a minha amiga Inês de mais de 80 anos que esteve com o marido em cima de uma árvore durante 4 dias e que depois de receber uma bicicleta, ia aprender a guiá-la sem medos logo a seguir. Lá ficou o meu coração com a Joana que também ficou numa árvore durante 3 dias, onde grávida de 7 meses prendeu os seus dois filhos aos ramos dividindo a arvore com cobras, lá ficou com o franzino Samuel que bravamente lutou com um crocodilo que o deixou com 90 pontos no corpo, lá ficou com os meninos de 2 a 5 anos com quem cantei, brinquei, caí no chão no infantário de Chitai-Tai ou com a minha Augusta de 4 anos cujos olhos pediam mimo e abraços. Lá ficou com os rapazes que lutam contra vícios na Fazenda da Esperança, lá ficou com as minhas novas filhas adotivas do Internato com quem até hoje mantenho contacto, lá ficou com a Tina Joaquim que delicadamente me mostrou a sua humilde nova casa no centro de reassentamento, com o miserável acampamento de Mococoi, lá ficou com a Hélia, o Asme, o Joaquim, a Marta, Iraci, Ildo, irmãs  Rita, Miriam, Maria, Mª Teresa, Pedro e equipa da MotaEngil. Tantas caras tantos rostos, tantas vidas…

Há uma sensação estranha de olhar para as situações que testemunhei como enorme exemplo de exercício de resiliência, onde não é o meu sorriso que traz esperança mas a força de muitos que nada têm. Mas apesar da resiliência e atitude positiva há traumas, há necessidades, há carência e penso para comigo: “O que resta a estas pessoas que perderam tanto, casa, familiares, animais e já não têm terras para cultivar?” Sobra … Esperança!

Obrigada Helpo por poderem dar e ser esperança a estas populações. Com bens materiais e infraestruturas é certo, mas acima de tudo com dignificação, honra, cuidado e amor. E é com essa revolução e revelação de amor com que me ligo a vós, que de modo nada distante ou distinto, antes próximo e humilde olhando para cada um de modo distinto e individual, honrando, amando, cuidando criando um pedacinho de céu na terra em tudo o que fazem, através do amor.

Testemunho de Selma Uamusse, Cantora a residir em Portugal, moçambicana. #Idai #Kenneth #SelmaUamusse

Diário de uma viagem – final

A primeira vez que estive com a Selma Uamusse foi numa situação atípica. Depois de a ter visto em palco no Teatro do Bairro, na peça Ruínas de Lynn Nottage, onde me deixou sem palavras perante tamanho talento, quer como atriz, quer como cantora a encher o palco e a encher o meu coração com uma performance de arrepiar e fazer cair a lágrima. Dei-lhe boleia até ao B-Leza, onde mais tarde iria fazer uma pequena atuação mas, estranhamente, durante essa conversa, que foi mais um monólogo porque a Selma praticamente não falou, para proteger a voz. Disse-me que não ia falar, que apenas ia escutar. Falei da Helpo, de amigos em comum e creio que dessa breve comunicação unívoca terá nascido a ligação à Helpo.

Depois disso a Selma foi por duas vezes abrilhantar celebrações da Helpo, como “Embaixadora” artística de Moçambique, o que nos enriqueceu muito e o convite para visitar os nossos projetos estava no ar. Após o Ciclone Idai e com a criação do Movimento Mão dada a Moçambique” do qual foi mentora, a Selma convidou a Helpo para ser uma das organizações beneficiárias e responsáveis por implementar projetos de resposta à emergência, que nos encheu de orgulho.

Quando na noite do dia 2 de Abril, no grandioso concerto do Capitólio onde a equipa formada pela Selma Uamusse, Felícia Silva e mais de 200 artistas, colaboradores e amigos, conseguiram angariar mais de 400 mil euros, ouvi a Selma dizer ao vivo que queria ir a Moçambique visitar os projetos a Moçambique, não tive dúvida que iríamos estar juntos na pérola do Índico. Curiosamente o dia 2 de Abril foi o dia da chegada de uma equipa de seis pessoas a Dombe, Distrito de Sussundenga, Província de Manica, uma das zonas mais atingidas pelo Ciclone Idai, onde violentas cheias provocaram uma enorme desgraça. Nessa equipa de seis estavam as três nutricionistas, que acompanharam um camião com 30 toneladas de bens doados em Nampula e Cabo Delgado, assim como material que estava no armazém da Helpo .

O convite à Selma foi feito no dia 3 de Abril e a resposta foi um “sim redondo”, onde só faltou ajustar as datas.

O que não prevíamos era que no dia 25 de Abril, um novo ciclone iria entrar em Moçambique, obrigando a reorganizar o programa, e assim, de 1 a 9 de Junho, tivemos o prazer de conviver de perto com duas forças da natureza, a Selma Uamusse e a sua agente Felícia Silva. O que se passou já foi descrito e gravado, mas as memórias ficarão guardadas para sempre no coração. Esta programação apertada que incluiu voos de avião, voos de helicóptero, viagens de carro, viagens de barco com crocodilos (que não são problema) por perto, teve muito mais de inteligível do que quilómetros percorridos, aldeias visitas, intervenções testemunhadas. Tenho a certeza absoluta que a Selma saiu com a convicção que as noites de sono perdidas, as horas gastas ao telefone, os nervos causados pelo sufoco protocolar, valeram a pena por tudo aquilo que testemunhou. No discurso das dezenas de meninas do internato das Irmãs em Dombe e do Bispo de Chimoio, D. João Carlos Nunes, houve uma coisa em comum: Chegar alguém importante à Beira é uma coisa normal, mas chegar a Dombe…!!! A Selma espalhou encanto, semeou esperança e tenho uma crença profunda que o seu papel de “Embaixadora” cultural de Moçambique não vai para por aqui e que altos voos estão traçados para ela.

Como na parábola da águia de James Aggrey, que inspirou Kwame Nkrumah, primeiro Presidente do Gana a iniciar o processo de descolonização africana, que D. João Carlos partilhou connosco, uma águia bebé foi criada como galinha e diziam-lhe que nunca poderia voar. Todo o seu crescimento ouviu que era galinha e comportava-se como galinha e achava-se que como tinha sido ensinada assim, nunca seria capaz de sonhar a ser águia. Mas um dia subiu a um ponto elevado, deixou de parte todo o discurso negativo que a puxava para baixo, ousou abrir as asas e voou bem alto.

Os processos longos são difíceis de avaliar mas tenho a certeza que muitas asas se abrirão depois da visita da Selma, muitas águias se irão destacar e talvez um dia as galinhas estejam em minoria e sonhar não seja algo estranho.

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

Regresso ao que não há

É tempo de esvaziar os armazéns emprestados generosamente pelos parceiros; fazer a contagem dos últimos bens e procurar determinar, finalmente, o número do último contentor a enviar: o sexto. É tempo de olhar para o mundo como o mundo o deixou e de assistir, nunca impunemente, à normalidade que se cola aos minutos que passam. É tempo de falar em reconstrução e continuar à espera que os processos necessários a essa reconstrução se encurtem, por magia. Passaram os dias e converteram-se em semanas e transformaram-se em meses.

Olho para trás e ainda me parece inacreditável que em 6 semanas o terror tenha visitado duas vezes o mesmo país, e que fora desse terror tudo ande, tudo corra! É quase insuportável que a normalidade e o sofrimento possam conviver tão pacificamente. E há uma ideia que não me larga. Daqui a uns meses, a fome, as doenças, as mortes, serão quase impossíveis de serem determinadas como consequências dos dias 15 e 25 de Abril de 2019. E no entanto.

A normalidade das pessoas que foram e são obrigadas, diariamente, a reinventar as suas vidas e a ignorar a sua condição de vítimas (para quê?), deixou de ser notada e de ser notícia! A onda de solidariedade deu lugar a um mar calmo e infinito, sem qualquer sobressalto no horizonte e a adrenalina dos dias que se fundem com as noites deu lugar a uma calma artificial que esconde o rebuliço de questões que ficam por responder. E ficarão por responder.

O que é a normalidade num mundo em que a fome anda de mãos dadas com as estações do ano; as doenças se aninham no regaço das crianças e testemunham as suas vidas atribuladas até ao dia em que as roubam; os sonhos não entram; a escola depende de tantas contingências que pode ser todos os dias domingo. O que é a normalidade num mundo em que as pessoas sabem que nunca são lembradas e por isso não vão sentir-se esquecidas?

Moçambique saiu da rota dos órgãos de comunicação social e dos hashtags das redes sociais. Voltou a mergulhar no anonimato amargo do esforço diário que torna tudo apenas igual ao que era antes. Ou não?

As pessoas que viram, viveram e procuraram virar ao contrário o avesso das coisas, estão aqui, continuam aqui. Os olhos mais turvos, uma leve névoa de quem não sossega o que vai dentro. Palavras novas no vocabulário diário: vítima, regresso à normalidade, morte, reconstrução…palavras que vão procurando ficar enterradas nas camadas do tempo que vai passando. E já sei, o tempo cura tudo. Quanto tempo?

*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo