Escolha sem alternativa 20/03/2019

Os dias correram como se tivessem menos horas do que o normal. A equipa de planeamento da missão reunia numa única mesa que se fazia pequena para a quantidade de tarefas que havia por fazer. Os nossos telefones, demasiado inquietos para as comunicações que não havia, do lado de lá. As instituições comunicavam entre si até ao momento em que anunciavam a sua partida para a zona de catástrofe, momento a partir do qual as notícias mergulhavam num silêncio absoluto.

Entretanto, do lado de lá, o apelo de quem continuava com estruturas de alvenaria em pé, pequenas para tantos apelos, para tanta gente sem teto, sem comida. O Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada continuava a ter uma estrutura hospitalar, uma estrutura escolar, e vontade de dar resposta a tanto desespero. Esta missão, totalmente inacessível por se ter convertido numa autêntica ilha, tinha vontade de acolher a nossa missão, e tinha condições para a montagem de um centro de operações.

Era a primeira vez que ouvíamos o nome da localidade de Dombe, num distrito até então também desconhecido de nome Sussundenga, em Manica. Uma localidade com 12.000 crianças até aos 4 anos de idade, com 13.000 mulheres em idade fértil e com as estradas convertidas em mantos de água.

Chegou a hora de começar a estudar os mapas, as estatísticas, a caracterização da região; aquilo que quem não podia comunicar com facilidade não nos podia dizer. Articulámos com as entidades oficiais num chorrilho de telefonemas e e-mails, com a preocupação de não deixarmos no anonimato as atividades, e sobretudo as necessidades dos milhares de pessoas que era preciso atender. As horas passam e os dias chegam às noites e inevitavelmente o resto tem que ficar para o dia seguinte.#Idai

 

Planeamento da missão de emergência em Moçambique 19/03/2019

Após a catástrofe que assolou Moçambique, o mundo acordou dia 15 de Março sacudido pelas primeiras imagens de desespero que chegavam do centro do país, com particular relevo para a Beira, a segunda cidade mais importante do país. Corria a notícia de que 90% da cidade teria ficado destruída. Um amigo, residente na Beira e colaborador de uma ONG confidenciou-me “a Beira, com o tempo, vai reerguer-se. Mas as imediações, as comunidades, o mundo rural como o conhecemos…a situação está muito feia…”

Um nó entalado na garganta como se as notícias não parassem de ressoar nas nossas cabeças. O prenúncio da desgraça colado aos minutos dos nossos dias. Após repetidas solicitações de inúmeras entidades, amigos e parceiros, encarámos a possibilidade de montar uma missão de emergência, porque não fazer nada, cedo deixou de afigurar-se como uma hipótese.

No dia 19 de março a direção da Helpo decidiu mover esforços para intervir no apoio às vítimas do Idai, em Moçambique. Encetámos um contacto com todos os parceiros em Moçambique no sentido de fazermos uma aferição de necessidades e de avaliarmos de que forma os nossos recursos poderiam responder a elas com o impacto desejado. O respeito pelo sofrimento alheio, pela dignidade humana e pelo valor dos recursos que são, certamente, muito valiosos para assistir muitos milhares de pessoas, ditaram a cautela dos nossos passos.

Começámos a desenhar um plano indicativo de ação com flexibilidade suficiente para este tipo de situação. Começámos a trabalhar no que viria a ser a resposta da Helpo no âmbito da nutrição materno-infantil à população afetada por esta catástrofe, alavancados pelas palavras de apoio e encorajamento dos muitos que sentiam vontade de agir, pela nossa vontade e pelo sentido de missão da nossa equipa. Começámos dia 19, sem saber o dia em que iríamos acabar.#Idai



História de uma missão de emergência (passo a passo)

No dia 15 de Março, a zona centro de Moçambique acordou para se confrontar com um cenário de horror: o ciclone Idai varreu as três províncias desta região, Sofala, Manica e Zambézia, deixando um rasto de destruição e sofrimento numa área vastíssima, e 400 km2 debaixo de água. Os rios esqueceram-se das margens e galgaram as estradas, engoliram as pontes, devastaram as habitações e ceifaram muitas vidas. Estes acontecimentos trágicos fazem prever meses de risco, proliferação de doenças e multiplicação das necessidades, já gritantes para muitos milhares de pessoas antes do dia 15.

A Helpo trabalha há 11 anos em Moçambique e tem uma experiência acumulada no tratamento da desnutrição e riscos associados nas mulheres grávidas, bebés e crianças até aos 5 anos de idade. Perante o contexto que se vive em Moçambique, as parcerias que nos são possíveis pelo longo enraizamento no terreno e o nosso conhecimento especializado, empreendemos uma missão de emergência com foco na nutrição materno-infantil, cuja primeira fase tem uma durabilidade de 6 meses, desconhecendo-se ainda a necessidade e durabilidade de fases subsequentes.

Com este blog a Helpo pretende publicar de forma atualizada e detalhada os passos dados no âmbito da missão de emergência Estamos prontos para ajudar Moçambique- Idai e Kenneth, de forma a conferir-lhe um caráter de transparência e proximidade com todos quantos contribuíram para a sua realização.#Idai #Kenneth