O primeiro dia do resto dos dias 16/04/2019
Um mês depois, na terra dos telhados de capim 15/04/2019
O ciclone Idai tinha sido anunciado, o aeroporto da Beira foi fechado, os voos domésticos cancelados. Aqueles que tinham meios, (meios para aceder às notícias e meios para se afastarem do “olho do furacão”) e que já anteviam a fúria da natureza, deslocaram-se para longe, tomando os seus lugares no avião enquanto era tempo. Depois disso, só a espera. Há relatos de pessoas, pessoas da cidade com relógios que marcam a passagem do tempo com precisão, que falam em quatro horas de horror. Os relatos das pessoas fora das cidades, esses, não mediam o tempo em horas mas em dias: os dias que estiveram em cima das árvores, os dias que esperaram até receberem a primeira visita, os dias de espera até voltarem a comer, os dias que passaram sem ver aqueles que não voltariam a ver…
É curioso ver as imagens que nos chegaram através das televisões, com centenas de pessoas atulhadas em cima de telhados que pareciam minúsculos tendo em conta o mar de gente que neles permanecia, e imaginar os sítios onde não havia telhados.
70% da população de Moçambique vive em meio rural. Nessa ruralidade, não há lugar para telhados. Os telhados são de capim e em cima de telhados de capim ninguém se salva. Por isso, as histórias dos sobreviventes das aldeias são todas iguais. Sem barulho de vidros a partir e com dias a fio em cima de árvores… Nessas histórias, as pessoas perderam tudo, mas perder tudo é essencialmente perder o norte, perder o produto das colheitas, perder a terras que sentiam como suas, perder familiares e perder a esperança. Vive-se a contar minuciosamente tudo o que se come, a subtrair refeições à fome e a duvidar da próxima vez em que será entregue comida. Vive-se assim independentemente de se ser criança, grávida, velho, ou doente. Vive-se assim porque ainda não se consegue viver de outra maneira.
A vida está organizada em tendas, ou debaixo de lonas improvisadas. A terra está coberta por camadas e camadas de lama avessas ao cultivo e à fixação das populações. E as pessoas vão sendo empurradas contra a urgência de recomeçar, quando muitas vezes a vida não lhes permite programar nem a refeição seguinte.
Depois há o anonimato, espalhado por aquelas centenas de quilómetros quadrados de mato, salpicados de sabe-se-lá-quantas aldeias que ainda não conhecerem ajuda e que ainda não estão referenciadas pelas agências que coordenam toda a operação de resposta e assistência às vítimas do Idai… aldeias cujos mortos ainda não engrossam as estatísticas, estatísticas para as quais os desaparecidos ainda não desapareceram. Aldeias que ficaram de fora dos mapeamentos da ajuda e que, dia a dia, vão sendo descobertas com uma camada espessa de desespero e esquecimento por cima. E depois surgem as notícias, que dão conta de cerca de 700 mil pessoas à espera de ajuda alimentar…
Dentro da lógica do que “faz a notícia”, talvez já não seja notícia que um mês depois haja tanta gente a viver em desespero. Não pela dimensão desse desespero ou pelo número de pessoas, que são imensos, mas por ter passado um mês…Da forma como vejo as coisas, seria (ainda) mais notícia agora…
Passou um mês. A equipa da Helpo que trabalha diariamente no terreno não se emociona menos, não trabalha a menor ritmo, não dá menos de si. Não identifica cada vez menos casos de crianças e grávidas a precisar de cuidados (pelo contrário), não esmorece. Passou um mês, o nível das águas baixou, o sol apareceu e parece ter deixado a descoberto tudo o que ainda há por fazer…
* Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo
História da segunda-feira de um calendário apressado 15/04/2019
Uma normalidade cheia de faltas 13/04/2019
Depois do sol, a chuva regressa ao Dombe 12/04/2019
As quintas-feiras no Dombe…e o dia seguinte ao fecho do contentor 11/04/2019
Quinta-feira é dia de vacinação no posto de saúde no Dombe, o que equivale a dizer que a sala enche de mães. Há quem venha de perto, há quem venha de longe. Este é o dia ideal para acrescentar a área da nutrição materno-infantil ao trabalho da área de saúde que as enfermeiras já fazem regularmente.
Hoje fizemos 26 consultas de nutrição e demos entrada de 3 novos casos de crianças desnutridas, no programa de recuperação nutricional. Houve uma mãe, a Rebeca, que chegou com o filho no colo e muitas queixas: diarreia, olhos encovados e pele visivelmente desidratada. Não falava português e foi preciso identificar entre as restantes mães que se encontravam na sala de espera quem falasse, para nos ajudar na tradução e fazer acontecer a comunicação. O bebé tinha um irmão gémeo, mas esse ficou em casa porque nas costas só dá para carregar um de cada vez.
Da equipa destacámos um elemento para preparar o armazém para a chegada do camião que traria o resto dos bens que ainda se encontravam na diocese do Chimoio e para fazer novos kits de assistência às famílias, para nova entrega.
Quando o camião chegou, eram dois! Fomos obrigados a procurar uma solução de recurso e os colaboradores da empresa Motaengil disponibilizaram parte do seu estaleiro para armazenar alguns bens. Colocaram-nos uma casa desocupada à disposição onde pudemos guardar 59 caixas de roupa ainda por triar, para integrar os kits a montar nos próximos dias.
Apesar de ser quinta-feira, um dia diferente e mais atarefado num dos postos de saúde não deixa de ser dia de internamento para as crianças que estão em recuperação e lá fomos passar visita ao serviço. A noite estava a cair e as mães a cozinhar o jantar debaixo do alpendre. A mãe Eva, já nossa conhecida, avistou-nos ao longe e apressou-se a sorrir e a pedir sal para o cozinhado. A mãe Elisa foi mais rápida e atravessou-nos o caminho com o mesmo pedido: connosco trazíamos precisamente as cestas básicas para que a alimentação não faltasse àquelas mães que, na sua maioria, estão a amamentar e assim sendo são um veículo precioso para ajudarem a melhorar o estado nutricional dos seus filhos.
A meio da tarde, uma de nós foi acompanhar a distribuição de alimentos no centro de acomodação de Máquina, onde já tínhamos estado no dia 6. Foi possível fazer o seguimento das crianças que já tinham sido sinalizadas mas que, apesar disso, ainda não tinham iniciado o tratamento…quando Maomé não vai à montanha…
- testemunho da nutricionista Margarida Lopes, chefe de missão no Domb
Do lado de cá, quinta-feira foi o dia seguinte ao fecho do primeiro contentor que parte de Portugal; poder-se-ia pensar que seria um dia um pouco mais tranquilo que o dia anterior, mas o facto é que a palavra tranquilidade desapareceu, e levou com ela a rotina que conhecíamos.
Às 9h estava à porta do armazém que já sentimos um pouco como sendo uma segunda casa, um camião gigantesco, com mais de 13m de comprimento, absolutamente cheio de caixas a granel que teria que ser descarregado até às 12h, dados os outros compromissos assumidos pelo motorista. O camião tinha sido cheio no dia anterior junto à nossa delegação em Ermesinde e a solidariedade das gentes do Norte exibiu-se dolorosamente diante dos olhos de quem vê milhares de caixas a precisarem de sair de um reboque, no dia seguinte a termos ajudado milhares de caixas a subir para um outro reboque.
Respiramos fundo, o que tem que ser tem muita força e os nossos voluntários também. Ao final do dia, das caixas descarregadas já tínhamos construído 16 paletes, prontas para serem carregadas no próximo contentor a fechar, a nossa próxima meta!
Um grande obrigado a todos os que responderam ao nosso apelo e têm participado das mais variadas formas, no apoio à nossa missão humanitária, no Dombe! #Idai
Poucas camas, pouco espaço, muita gente 10/04/2019
O trabalho no terreno começa a correr todos os dias mais ao ritmo das necessidades do que das contingências. À medida que vamos conhecendo os interlocutores, os voluntários nas comunidades, os régulos, os técnicos de saúde, todos os obstáculos se nos apresentam com mais soluções e a lentidão natural das coisas difíceis parece ir perdendo espaço, lentamente.
A equipa de nutricionistas divide-se. Já não é a primeira vez que uma assiste às consultas no posto de saúde da missão, enquanto as restantes integram a equipa da saúde da região para fazer face a tantas tarefas e acrescentar a valência dos rastreios nutricionais, identificação de casos graves e encaminhamento para o hospital daqueles que já não podem ser socorridos de outra forma. No posto de saúde da missão, são examinadas as crianças sinalizadas nos centros de acomodação. Hoje, a Hélia sinalizou dois casos que encaminhou sou para o hospital e deu início ao tratamento em ambulatório, a três crianças.
O carro que a equipa “alargada” da Helpo deixou para trás e a embarcação “Esperança” são instrumentos fundamentais colocados à disposição da “equipa móvel” de saúde. Nos últimos dias, fomos contactados por outras organizações e agências pedindo a utilização da Esperança para distribuição de comida e acesso a populações isoladas. A nossa resposta é um sim redondo: o propósito deste pequeno-grande investimento é ter um impacto positivo no maior número de pessoas possível. Hoje, na Esperança, levámos connosco para Zichau, além da equipa de saúde, o técnico wash da solidar suiss, a quem pedimos ajuda depois de nos ter sido comunicado que a população estava a consumir água do rio!
Os recursos são poucos para tanta falta…falta de técnicos, falta de medicamentos, falta de espaço, falta de condições, falta de meios de deslocação, falta de camas no hospital… Quando chegámos ao Dombe, no espaço para internamento na pediatria havia uma criança internada e 6 camas no total. Desde o início do nosso trabalho, já foram internados mais 7 (uma média superior a um internamento por cada dia de trabalho, e é de notar que o internamento só ocorre em casos graves). Para colmatar tanta falta, ontem a equipa deu formação aos ativistas da ADPP, de forma a poderem dar apoio às rastreios nutricionais em tantas centenas de crianças espalhadas por zonas acessíveis e inacessíveis. Hoje, já contámos com o seu apoio no terreno.
Ao final do dia, o balanço dava conta da distribuição de 300 redes mosquiteiras, 90 frascos de certeza, 213 rastreios de nutrição e 115 crianças suplementadas com vitamina A e desparasitadas. Do lado triste da balança, pesa um abandono do hospital por parte de uma mãe com a criança (apesar de estarmos a distribuir comida às mães internadas como forma de incentivo para que permaneçam no hospital, a opinião do marido, as crenças enraizadas ou incontáveis urgências familiares que não são para nós inteligíveis, muitas vezes falam mais alto)!
Com o dia a terminar, voltámos ao hospital porque aí acorreram duas mães que tinham sido sinalizadas durante os rastreios e suscitaram dúvidas ao enfermeiro de serviço. Amanhã haverá mais e estamos prontos para ajudar. #Idai
40 pés de alívio a partir numa longa viagem 10/04/2019
Às 8h, chegaram as primeiras caras já sobejamente conhecidas dos colaboradores da bandague, a empresa que, apesar de ver a sua dinâmica de trabalho agitada por estes dias, nos empresta o seu armazém e hoje nos emprestou também colaboradores e empilhadoras, porta paletes e boa vontade, muita boa vontade! O camião com o contentor de 40 pés por encher até fechar, estava atrasado, e os voluntários foram chegando, prontos para o trabalho que houvesse pela frente!
Hoje é o dia de fechar o primeiro contentor que parte de Portugal, com destino ao Dombe. Pela frente, tem um longo caminho: daqui, vai para o porto até à partida do navio que se dirige ao porto de Nacala; de lá o contentor será transportado por terra, percorrendo uma distância de mais de 1200 kms, até ao Dombe, onde o esperarão pouco depois de meio de maio. Roupa, fraldas de pano, colchões, lençóis, papas para bebé e criança, bolachas, pastilhas para desinfectar a água, testes rápidos para a malária, mantas, enlatados…são alguns dos itens que integram as 45 paletes que, a custo, couberam dentro do contentor.
Mais de 20 voluntários emprestaram força, entusiasmo, dedicação e tudo o que foi preciso para concluir a tarefa, o que só veio a acontecer depois das 17h. Veio a rádio, a TV e veio o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, (que se tem mostrado profundamente sensível com a situação do centro de Moçambique), para verem de perto o que a mobilização de tanta gente tem conseguido reunir!
Enquanto carregávamos tudo o que, segundo as indicações do terreno, não podia faltar, na Helpo a norte, era carregado um camião com destino ao armazém que acabáramos de aliviar um pouco. Na agenda já está a data de partida do segundo contentor e a organização logística não pode parar!
Amanhã, a partir das 9h, há mais caixas para carregar paletes para montar e força para emprestar do lado de cá, a quem dela ainda precisa, e muito, do lado de lá! #Idai
* Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo
Nunca se sai do Dombe 9/04/2019
Ao entrar e percorrer toda a localidade de Dombe, estranhei o facto de, ao passar toda a localidade, ter na saída outra placa a anunciar Dombe, como se aquele vazio que se vê depois do alcatrão, também fosse o Dombe.
Cheguei a Dombe, Distrito de Sussundenga, pela primeira vez ao final da tarde de sexta feira, 5 de Abril de 2019, depois de comprar um barco, algo que achava que nunca faria na vida, e de viajar desde Chimoio, capital da Província de Manica.
Fui muito bem recebido pelas Irmãs do Instituto das Pequenas Missionários de Maria Imaculada, onde jantei, mas nessa noite nem conheci aquele que tinha sido a nossa interlocutora via whatsapp, quando a rede o permitia, a Irmã Miriam, pois trabalhou até depois da hora de eu recolher, na vizinha casa dos Padres Missionários de África. No dia seguinte saímos cedo para ir apanhar o barco a Chimoio e regressar, numa pequena viagem de 130 km passando montanhas com curvas, subidas e descidas íngremes, pontes militares, e um reboque, tudo bons ingredientes para uma aventura ao volante. Da recente cheia vemos vestígios por todo o lado, desde bocados de capim no cimo dos postes de eletricidade, indicando os níveis infernais que a água atingiu, vestígios de lama por todo o lado, estradas partidas, pontes danificadas. Numa curta visita a um dos centros de acomodação, deu para sentir o sofrimento do povo.
O Padre Jean Bosco é natural do Burundi. Depois de alguns anos na Missão de Dombe, está agora na Beira. Afirma que as para as pessoas da Cidade da beira o ciclone teve consequências terríveis, cicatrizes que vão demorar a sarar, mas que em um ou dois anos, tudo fica reconstruído. Mas para o povo das zonas rurais, como é o caso de Dombe que ele conhece bem, esta catástrofe, além de ter tirado tudo, tirou a única fonte de rendimento, de alimentação e de esperança. Toda a colheita ficou perdida o que hipoteca sonhos, saúde, e perspetiva da próxima refeição… tudo! Para quem vive da terra isto foi terrível. Falando um pouco sobre a realidade de Dombe, o Padre Jean Bosco diz que o pessoal de Maputo não sabe nada sobre casamentos prematuros: “Aqui tem meninas de 9, 6 anos que são entregues a homens para trabalhar enquanto não têm idade para outras coisas. Se fogem para casa, o próprio pai manda de volta. Por vezes são amarradas para não fugir! Uma vez cheguei numa comunidade e o nosso catequista tinha as meninas sentadas numa fila e os meninos sentados noutra fila. Comecei a perguntar às meninas: -Estudas? -Não; -Estudas? -Não; Estudas? -Não; Todas não! Então perguntei aos meninos: -Estudas? – Sim, 3ª Classe; -Estudas? -Sim, 5ª Classe. Então perguntei porque é que as meninas não iam à escola e o nosso catequista respondeu “As meninas não vão à escola porque lá aprendem a prostituição”. Falou assim, (tendo repetido em língua Ndau) Nosso catequista! Homens aqui têm problemas… Uma vez uma senhora queimou-se enquanto cozinhava chima, precisava apoio médico mas o marido estava em Chimoio e não autorizou ir ao Hospital, deveria esperar dois dias até ele chegar.”
Foi o Padre Jean Bosco que me contou a história do Padre Raphael Gasimba. Na manhã de Domingo dia 7 Abril, dia da Mulher Moçambicana, estava a matabichar, verbo que em Moçambique significa tomar o pequeno almoço (matabicho), quando a sala recebeu a visita do Bispo do Chimoio D. João Carlos Nunes, de uma Irmã Franciscana e do próprio Padre Jean Bosco. Depois do ciclone Idai ter arrasado a Beira e das primeiras notícias que no dia seguinte Dombe tinha ficado submerso, o Padre Raphael que se encontrava na Beira decide viajar para Dombe na madrugada de Sábado para Domingo para tentar fazer alguma coisa. Segundo o Bispo, foi ele quem cortou a estrada N6 entre Beira e Inchope. Estava cheia de água mas ele decidiu passar porque conseguia ver os limites da via, até que a estrada abateu e o carro começou a afundar-se nas águas do Rio Pungué, que se tinha transformado em Oceano! Enquanto o carro descia lentamente, invocou S. José, abriu o vidro, e mesmo sem saber nadar conseguiu sair e pôr-se a salvo, testemunhado por um senhor que estava perto refugiado no cimo de uma árvore. Pouco depois chegou um autocarro, enquanto o Padre Raphael contemplava o imenso mar, e o homem no topo da árvore temia um cenário pior e clamava por ajuda: Salvem esse homem! Ele vai suicidar-se! Deve ter perdido a família dentro do carro! Salvem-no! Ele vai suicidar-se!
Felizmente neste episódio particular ninguém perdeu a vida e o Padre Raphael continua empenhado em dedicar a sua vida a salvar os outros. Na manhã de Segunda feira, dia 8, saiu de madrugada, sozinho na sua mota para percorrer 58 km em 4 horas até Muchamba, uma zona que se sabia que desde o ciclone, há 3 semanas , não havia chegado qualquer ajuda. Depois de fazer o registo das 410 famílias (1674 pessoas) e de tudo o que tinham perdido, o regresso demorou 5 horas, tendo parte da viagem sido feita de noite. Não imagino como seja uma estrada onde carro não entra, mas sei que em algumas zonas a água chegava ao joelho.
O maravilhoso jantar em casa das Irmãs feito pela mão abençoada da Irmã Jeane digno do masterchef, foi perturbado pela preocupação que invadia as irmãs, pois em Muchamba não há rede de telemóvel e ninguém sabia nada do Padre Raphael há várias horas. Foi só à hora da sobremesa e depois de vários telefonemas da Irmã Miriam, e duas idas à casa dos Padres, que descobriu que tinha acabado de chegar, são e salvo. Até a maravilhosa cocada, docinho de coco de provar e chorar por mais, que a Irmã Maira faz de forma divina, conseguiu saber ainda melhor.
Ao chegar a casa dos Padres para pernoitar, encontrei o Padre Raphael, comecei por pedir desculpa, por não me sentir capaz de dar sermão a um Padre, mas tinha que lhe dizer que viajar sozinho de mota naquelas condições não era boa ideia e que tinha deixado as irmãs muito preocupadas. O Padre Raphael sorriu e disse: “Em 1991 tive um acidente de mota no Malawi em que quase perdi a vida. Pedi a Deus que me desse mais dez anos de vida porque iria servir os outros. Já tive mais do que pedi, por isso não estou preocupado em ficar debaixo de água, ou cair de mota. Não penso em mim, penso nessas 410 famílias de Muchamba, que estão há 3 semanas sem nada”
As cheias em Dombe deixaram marcas. No guarda da casa do Padre que ficou 3 dias no cimo de uma árvore e até rezou para chover mais porque tinha sede e precisava beber água da chuva. Deixou marcas no Bispo que ao recebeu uma mensagem a dizer “Missão de Dombe já era”, e que ao constatar que estava cercada de água por todos os lados, não se sabendo o que estava para lá daquele oceano, temeu o pior. Juntando isso ao testemunho de uma pessoa que lhe disse que tinha visto uns brancos a flutuar, fez pairar o pior cenário possível. Afinal a missão apenas ficou “ilhada” tendo a Fazenda da Esperança sofrido destruição nas suas machambas (terrenos agrícolas), um trator revirado e comida perdida. Passado uns dias o Bispo regressou e confrontou a pessoa que afirmara ter visto corpos de brancos a flutuar e, com um sorriso ela disse “eu vi mesmo, deviam ser alguns albinos…” Até na mais profunda das desgraças, os moçambicanos têm força para rir.
No dia 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, o barco da Helpo ganhou nome de mulher, Esperança, batizado pelo Padre Raphael e benzido pelo Bispo. Depois aprendemos que afinal Esperança não é um barco, mas sim uma embarcação, que no dia 8 teve honras de ser lançado ao rio Mussapa para beneficiar a população da área de ZIchau e para permitir as nutricionistas da Helpo e as equipas da Saúde de fazer trabalho nessa área.
O Régulo Zichau, não cabia em si de feliz. Os Régulos são os líderes comunitários, os “donos da terra”, e ver a população atravessar rios em cascas de árvores, segundo as suas palavras, não anima. Ele próprio disse que a esposa estava doente mas não queria vir ao Hospital por ter medo de cruzar o rio. Tivemos uma conversa para tentar operacionalizar da melhor forma a utilização da ESPERANÇA e o Régulo afirmou que já tinha levado as irmãs a rios com crocodilos. Perante a preocupação da Irmã Teresa, respondeu de forma muito pragmática – “Tem crocodilo mas crocodilo não é problema. Cidade não está cheia de carros e acidentes? E por causa disso não vamos à cidade? Vamos! Sr. Carlos não chegou de Nampula, nessa estrada cheia de carros e acidentes? Crocodilo não é problema!”
Se dúvidas houvesse da afinidade entre portugueses distantes do seu lar, no Dombe tivemos mais uma prova. Cinco portugueses, funcionários da Empresa Mota-Engil, “desterrados” para a construção da estrada Chimoio – Espungabera, abriram-nos as portas do estaleiro, muito hospitaleiros, ajudaram no lançamento da ESPERANÇA ao rio Mussapa, resolveram um pequeno problema mecânico e disponibilizaram-se para ajudar na integração das nossa Nutricionistas, logo com um convite para um almoço de elevado valor nutricional, um arroz de cabidela. Um dos homens da Mota-Engil, o Célio, foi subtraído de um maço de tabaco e um isqueiro pelo Régulo Zichau que agradeceu muito o favor. Quando avisei que era melhor não fumar pois fazia mal saúde, respondeu-me “Não tem problema, fico este amigo português lá no hospital! Fico muito bem!”
Quando as desgraças nos fazem conhecer o melhor das pessoas e quando avançar na escuridão nos faz vez uma enorme luz de esperança, penso no exercício que foi, fechados na sala de reuniões da Helpo, pensar, questionar, telefonar, estudar, sentir pressões externas para avançar para aquilo que sabíamos ser o correto, mas não sabíamos como. Depois dos contatos telefónicos com as Irmãs do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, sentimos que era ali que poderíamos fazer a diferença. Conhecer a irmã Miriam, um poço de energia, capaz de fazer 10 coisas ao mesmo tempo, sempre a primeira a sair e a última a chegar, e tudo isto com um permanente sorriso encantador nos lábios, conhecer a Irmã Maria Teresa, um autêntico farol, que com uma serenidade, nos guia , nos acalma e nos dá força. Deixar as nossas 3 nutricionistas num local pós catástrofe poderia ser complicado, mas acho que ao sair nos apercebemos que esta parceria que parece ter tido intervenção divina para acontecer, nos deixa confiantes que o trabalho será bem feito e estão perfeitamente enquadrada e com ambiente de afeto, necessário para realizar um trabalho de excelência.
Nem as histórias macabras dos gritos incessantes das pessoas penduradas 2 e 3 dias em cima das árvores pedindo socorro, do casal que, agarrado a um tronco flutuou durante cerca de 14 km, mas que mesmo se salvando os filhos “foram embora”, das histórias de esperança dos pais que amarraram as crianças às árvores com rede mosquiteira para que não caíssem no rio que se fez mar, faz sentir vibrações negativas nesta terra.
É muito mais o bem que podemos fazer que o mal que pode acontecer.
P.S. – 24 horas mais tarde e com 475 km rumo a Nampula percorridos, sabemos que por termos contatado a OCHA (Gabinete Coordenador), em Chimoio, e tendo dado toda a informação sobre a situação alarmante em Muchamba, incluindo os relatórios detalhados do Padre Raphael, já foram tomadas medidas para ser feita uma intervenção, por helicóptero. Também recebemos informação que a UK AID solicitou a nossa embarcação ESPERANÇA para uma intervenção em grande escala noutra zona do rio onde a ajuda era necessária. Também demos um abraço ao Joaquim Vidigal, que rapidamente passou de vendedor de barco para amigo e voluntário ativo da Helpo em Chimoio, ajudando em todos os quadrantes. Foi a 475 km de distância que compreendi o significado da placa no final de Dombe. Nunca se sai daquele lugar porque veio algo no meu coração que eu não conhecia. Aquele lugar e as suas gentes estão aqui comigo e acompanharam-me toda esta viagem. Sinto que nunca mais sairei de Dombe.
- Testemunho de Carlos Almeida, coordenador Nacional da Helpo em Moçambique. Caia, aos 9/04/2019 #Idai









