Diário de uma visita, II

Só pelo facto de termos conseguido reunir aquele grupo de pessoas, o dia já estava considerado ganho. Reuniram-se no aeroporto para embarcar no Caravan fretado pelo WFP – World Food Programme – Programa Mundial de Alimentação, quatro portugueses, quatro moçambicanos e um espanhol. Talvez seja melhor corrigir para um catalão! Carlos Almeida e Fátima Falua da Helpo, Pedro Martins da RTP e Felícia Silva, agente da Selma pela Ao Sul do Mundo os portugueses presentes. A representação moçambicana com Selma Uamusse, Pedro Figueiredo, Chefe de missão do WFP, Jacinto Baibai da RTP e Nurmomade Abdulcarimo, que toda a gente conhece por Baboo, já uma figura mítica de Cabo Delgado. Daniel Peluffo da Fundacion Ibo representou os nuestros hermanos, ao qual se juntou a Sandra Garcia que nos esperava na Ilha do Ibo.

Depois de uma suave viagem de 16 minutos, aterrámos e fomos para a Escola Eduardo Mondlane onde a Helpo vai reconstruir 11 salas. A reconstrução vai contar com o apoio da Fundacion Ibo, que tem uma forte implantação na ilha do Ibo, com uma Escola de Artes e Ofícios, uma carpintaria e com muitas iniciativas culturais e de preservação do património. Além de financiar a reconstrução após a emergência, a Helpo está a ajudar a desenvolver as forças locais e acreditamos que este será o primeiro passo do que poderá vir a ser uma boa parceria.

Depois da visita à Escola, testemunhámos uma distribuição do WFP, e ficámos felizes por ver que embora numa escala completamente diferente, o conceito e a organização era em tudo semelhante à que utilizamos nas nossas distribuições. À nossa chegada, a multidão observou-nos e o Baboo foi imediatamente reconhecido, pois apesar de ter nascido em Inguane, a norte de Mucojo, no continente, conhece bem a Ilha do Ibo e as suas gentes. Uma senhora fez questão de partilhar que tinham perdido tudo mas estava viva e isso é que era importante. Reforçou que as ajudas de alimentação e outros bens era muito importante, mas que simplesmente receber uma visita já a deixava muito feliz. Baboo não conseguiu conter a emoção e encontrou no abraço da Selma um porto de abrigo, unido por lágrimas que são apenas um sublimar de emoções acumuladas, ao nos sentirmos mínimos, perante tanto apego à vida, tanta simplicidade e tanta destruição.

Quando a Selma tentou conhecer músicas locais com umas raparigas que estavam na distribuição, provocou no Baboo uma viagem no tempo. Subitamente, parecia um miúdo de 6 anos a recordar e a cantar as músicas da sua infância, que falavam da bandeira transportada para a Rainha Dona Amélia e o famoso Tambo Tambulani Tambo.

O WFP está a fazer um excelente trabalho e o Pedro Figueiredo é um moçambicano que correu mundo e que, apesar de estar reformado, continua a ser chamado para missões onde a sua experiência pode fazer a diferença. Uma das bases tinha sido Argélia num trabalho de apoio ao povo Sahrawi, onde tinha conhecido Daniel Peluffo, agora representante da Fundacion Ibo.

A visita à Fortaleza, usada no tempo colonial como prisão da PIDE, foi palco para pedaços de História contada por quem a viveu, com alguns episódios tristes, outros divertidos. Quem quiser conhecer estas e outras histórias basta passar no Kauri, na Cidade de Pemba e arrisca-se a ter uma estadia fantástica e a fazer uma amizade que jamais esquecerá.

Apesar de não ter estado connosco na Ilha do Ibo, o Administrador do Distrito Issa Turmamade mandou preparar um almoço para a comitiva que nenhum dos presentes esquecerá tão cedo. Não vamos revelar as iguarias, apenas deixar o convite para visitar a Ilha do Ibo que quer por razões gastronómicas, que de património ou de beleza natural, vale certamente o esforço da deslocação.

Depois da viagem de regresso, o Baboo ofereceu um jantar no kauri com um manjar de comida típica de Cabo Delgado, com pratos que não estão contemplados do menu do restaurante, mas que são de provar e chorar por mais. O Adminitsrador Issa juntou-se a nós depois de ter estado Conferência Internacional de Doadores para a reconstrução na Beira sobre resposta à emergência dos Ciclones Idai e Kenneth. Quase no final do jantar recebemos o convite do WFP para complementar a nossa viagem do dia seguinte, com destino a Macomia, com uma visita a Mucojo de Helicóptero, uma das zonas mais severamente devastadas pelo Ciclone Kenneth.

Falámos pela noite dentro sobre o passado, com as histórias deliciosas do Baboo e do Issa e também falámos do futuro, só não falámos do Ciclone. “Graças a Deus já passou e estamos vivos! Se Deus quiser tudo irá melhorar! Insha Allah!” Em Cabo Delgado a fé e a espiritualidade são mais forte que as religiões e todos juntos, de mão dada, conseguimos fazer a diferença.

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Diário de Uma Visita I, 1 de junho

Quando a Helpo foi convidada a fazer parte do movimento “Mão dada a Moçambique”, não pensava que iria fazer parte de algo histórico. Ao ser “obrigada” a preparar uma missão de resposta à emergência do Ciclone Idai, a Helpo foi obrigada a reinventar-se e a traçar caminhos desconhecidos. Todos nós estávamos confiantes, mas sempre com a noção que caminhar em direção ao desconhecido pode trazer momentos menos agradáveis. No entanto, quando se caminha com amigos, as coisas ficam mais fáceis. Além das centenas de pessoas que nos deram força, doando dinheiro, doando bens, participando como voluntárias, também tivemos a honra de ser convidados pela Selma Uamusse, a fazer parte deste movimento, ela que é amiga da Helpo já há alguns anos, colaborando sempre que solicitada, ela que é uma verdadeira Embaixadora Cultural de Moçambique em Portugal e na Europa!

No dia seguinte àquele que recordo como o maior sucesso de movimento solidário em Portugal direcionado ao estrangeiro, que culminou com um espetáculo com mais de 50 artistas no Capitólio, a Helpo convidou a Selma Uamusse a visitar Moçambique. Era um convite que estava pendente há anos, e este era o momento para que viesse visitar o trabalho em que ela confiava à distância, e ver os trabalhos de resposta à emergência.

Queria o destino que a data de chegada fosse o Dia 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, o expoente máximo de celebração infantil em Moçambique. Como nesse dia o tempo de ligação entre o voo carinhosamente oferecido pela TAP e a partida para Pemba era de apenas 70 minutos, foi necessário muito trabalho de bastidores envolvendo, o pessoal da TAP, o pessoal da Migração, o pessoal da LAM, a família da Selma em Maputo, para que tudo corresse bem e efetivamente correu.

Setenta crianças esperavam a Selma na Biblioteca Pública Provincial Samora Machel de Pemba, casa da Ludoteca da Helpo. Depois de um apreciado almoço, as flores que nunca murcham, como o Patrono da Biblioteca referia, aproveitaram a tarde em grande, com demonstrações de Teatro, poesia, dança, e com o convidado especial AZ, um famoso cantor de Pemba. A Selma aproveitou o momento para recordar a sua infância e a Helpo aproveitou para relembrar às crianças que os bons exemplos são para seguir, e a Selma Uamusse é claramente um bom exemplo. Uma menina moçambicana que foi para Portugal, tendo ficado a viver sozinha desde tenra idade, mas sempre focada no objetivo a que se tinha proposto. O sonho levou-a além do objetivo e a Engenheira Civil e a Engenheira de Planeamento e Ordenamento do Território deu lugar a uma Cantora! Mas uma cantora que não se limita a cantar e a encantar, pois isso seria pouco para ela. Mas também a espalhar a cultura moçambicana pelo mundo e fazer o que pode para melhorar o seu país, um país cheio de riqueza humana, a mais valiosa e onde se deve investir com mais força, para dar um melhor rumo à Pérola do Índico.

Do teatro encenado pelas crianças ficou a mensagem forte da igualdade de género, cada vez mais percebido pelos jovens. Do discurso da Selma ficaram sementes de esperança em cada uma daquelas 70 cabeças. Da Helpo ficou a certeza de que juntos somos mais fortes e que a vinda da Selma para testemunhar os trabalhos de resposta à emergência dos Ciclones Idai e Kenneth, nos vai fazer mais fortes e mais prontos para ajudar sempre que formos solicitados. Obrigado pela confiança, Selma! Obrigado pela confiança, Portugal!

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Ibo, a ilha bem organizada

Visitei a Ilha do Ibo pela primeira vez em 2012. Dessa viagem recordo uma viagem longa e dura, porque a estrada de terra batida em mau estado não ajudava, porque a viagem de barco dependente das marés pode provocar uma longa espera, e porque não havia cais de acesso aos barcos em Tandanhengue, ainda no continente. Mas todas as dificuldades ficavam lentamente eclipsadas com a chegada à Ilha, devido ao seu encanto arquitetónico, natural e humano. Desde essa altura sonhava fazer a viagem de avião, pois sabia que além da duração da jornada baixar das 8 horas para os 20 minutos, as vistas aéreas são de sonho.

No espaço de duas semanas e pelas piores razões, desloquei-me à Ilha do Ibo de avioneta por três vezes. A primeira vez com uma boleia do DFID – Department For International Development, a Cooperação internacional do Reino Unido, da segunda e terceira vez com a avioneta fretada pelo WFP – Programa Mundial de Alimentação. As visitas serviram para avaliar os danos na área da educação e também para ver o património histórico português. Se em relação às escolas os danos são gerais e bem visíveis, o património português, que com exceção da Fortaleza de S. João Baptista que sofreu uma grande recuperação por parte da organização espanhola, Fundação Ibo, tudo o resto já estava ao abandono, sem que se note destruição devido à passagem do ciclone. 

As três escolas da Ilha têm todas as salas de aula parcialmente destruídas, sem que tivesse havido interrupção das aulas, em sombras improvisadas, e depois da segunda visita com acesso a lonas e tendas da UNICEF. A segunda e terceira visita foi feita na companhia do ponto focal da Direcção Provincial de Educação e Desenvolvimento Humano para as ONG, Florêncio Rissa Mbique, e além de termos reunido com o Administrador do Ibo também reunimos com o Coletivo dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia. 

Se a ida a Macomia me deixou chocado, percorrer toda a Ilha do Ibo a pé, tendo calculado cerca de 7km caminhados, não me deixou tão impressionado. Talvez porque apesar da destruição ser generalizada, o facto de as pessoas estarem calmas e lentamente a reconstruir as suas casas e as suas vidas tenha contribuído para essa perceção. Ao contrário do que aconteceu em toda a costa de Mucojo, Pangane, Inguane e Quiterajo, que foi fortemente varrida e devido a ter ficado isolada, os apoios terem demorado a chegar, no Ibo a ajuda foi rápida e efetiva. Chegaram alimentos e bens não alimentares e toda a distribuição correu de forma organizada. O Administrador do Ibo Issa Turmamade fala em 90% de casas destruídas, mas foram poucas aquelas que vi intactas. A terceira visita ao Ibo já foi para avançar com a construção de três salas de aula na Escola Eduardo Chivambo Mondlane, uma escola que contempla alunos da 1ª à 11ª. No próximo ano terá 12ª classe, o que fará com que os alunos consigam concluir o ensino secundário sem sair da ilha. Fizemos mais uma avaliação do edifício principal da escola, pois também iremos reconstruir as três salas de aula, gabinete dos Diretor, dois gabinetes de Diretores Pedagógicos e salas de professores. Um edifício bonito, construído no Seculo XIX e cujas telhas trazidas pelos portuguesas, eram fabricadas em Marselha, França, algumas datadas de 1892. Além da recuperação do equipamento escolar, também estamos a salvar património histórico e arquitetónico.

Conhecemos a Sandra Garcia da Fundação Ibo, que farão as obras com a HELPO, uma Engenheira Naval que chegou ao Ibo quatro dias antes do ciclone. Um verdadeiro batismo de fogo, ou neste caso um batismo de chuva e vento! Sobreviveu e diz que, passado um mês, já não consegue ver a vida da mesma maneira. Ouvi-la descrever a alegria que sentiu quando dois dias antes tinha tomado banho de duche pela primeira vez, depois de um mês sem eletricidade, faz-nos pensar como damos pouco valor às coisas que são dadas como garantidas. A Sandra também partilhou que logo após a passagem do ciclone, todas as pessoas começaram a reconstruir as suas casas, porque a vida, mesmo sendo levada com calma, só tem um sentido, para a frente!

Ali ao lado da Escola, na Escola de Artes e Ofícios da Fundação Ibo, as crianças inscreviam-se nos torneios organizados no âmbito dos festejos do Dia 1 de Junho – Dia Internacional da Criança. Além de todas as coisas más, o Kenneth trouxe coisas boas: os desenhos das crianças, normalmente recheados de casas, barcos e árvores, ganharam agora novos protagonistas, os helicópteros e os aviões!

A julgar pelo entusiasmo das crianças os problemas maiores já passaram e, melhor que ninguém, as crianças sabem, que é com sorrisos e energia que se vai reconstruir o Ibo, para que volta a ser a Ilha Bem Organizada.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Paradoxos na emergência

Os dias que têm sabor a rescaldo de catástrofe são longos. Parecem demorar-se neles próprios. Os recursos humanos têm cada minuto preenchido com a resposta a uma qualquer das imensas solicitações. Todas urgentes, todas válidas. Tudo o que não é urgente, não encontra espaço para respirar. Como se a vida naqueles locais se tivesse transformado numa coisa que não cabe na rotina de uma normalidade antiga. 

O mundo das manobras logísticas, de aferição de necessidades, dos diagnósticos que se explanam em relatórios de papel timbrado e que passam de mão-em-mão até desaguarem em decisões importantes de desembolso de fundos gordos, esse mundo, existe de mãos dadas com o outro: o mundo em que as pessoas perderam tudo e continuaram a fazer magia com o nada que ficou, e a viver. O mundo em que os telhados das escolas desapareceram num sopro e as crianças se alinham no exterior do que já foi um edifício escolar, a aproveitar a sombra que dá uma fachada. O mundo em que uma família de 7 se transforma numa família de 12 porque as casas foram diminuindo em contas de subtrair feitas pela água e o vento, mas a aldeia abraçou em si cada um dos seus.

Absorvo as informações que chegam por todas as vias (telefone, mensagens, e-mails que nunca acabam) e o espanto faz-me viajar até um papel de observador distante. Não posso deixar de me pasmar com a lentidão com que as coisas acontecem. A dimensão das grandes estruturas (as únicas que podem fazer face a uma desgraça desta medida, com a mesma medida), parece imprimir sempre um ritmo pesado e lamacento às decisões. Como se tudo tivesse que acontecer à medida dessa dimensão, incluindo o tempo que se encerra no processo que leva à tomada de decisão, e entre a tomada de decisão e a concretização do apoio.

E depois há o desencontro flagrante entre o que é preciso fazer e as sentenças emanadas a partir dos escritórios envidraçados, distantes da poeira das comunidades. Há, neste momento em Moçambique e após a passagem violenta de dois ciclones, milhares de edifícios escolares a reconstruir. Há tudo isso, e há um mundo porventura arrogante, de chavões apregoados até à exaustão que se mostra inflexível a uma alteração temporária de agenda: sustentabilidade, replicabilidade, escala, igualdade de género, safe spaces… Tudo extraordinariamente importante, mas surpreendentemente, tudo convertido em obstáculos a uma reconstrução de edifícios escolares tão esforçadamente construídos e tão facilmente arrasados. Como se no jogo da concorrência de abarcar escassos recursos para abundantes necessidades, se pudessem atropelar. Mas de que forma se atingem todas as máximas enunciadas sem edifícios escolares onde ensiná-las a todas? De que forma se evita que quase 4.000 salas de aula arrasadas (num país que já identificava mais de 35.000 salas a menos comparativamente à população estudantil existente), contribuam para um agravamento de taxas dramáticas como a do absentismo escolar (superior a 60%), a do analfabetismo superior a 60% para as mulheres e a 80% nas zonas rurais (de salientar que 70% do país é rural), ou a de desistência escolar (muitas vezes na ordem dos dois dígitos, como no caso de Cabo Delgado que se situa nos 13,7%, nesta província atingida pelo ciclone Kenneth).

Por tudo isto, continuamos a trabalhar, numa dinâmica de formigueiro insistente, com o compromisso de reabilitar 8 salas de aula que já nos comprometemos a reconstruir, de acompanhar as 3.509 pessoas que já assistimos numa primeira resposta, com ajuda alimentar e 5.367 entre rastreios nutricionais, consultas , internamentos e suplementos alimentares (num universo infinitamente maior, de mais de dois milhões de pessoas afetadas!). Por tudo isto, continuamos a mover-nos num mundo entre mundos; num plano entre o paradoxo e a ação, num contexto de necessidade que se resolve, porventura e algures, entre as casas deitadas por terra no mais remoto deste imenso país, e os escritórios erguidos em sofisticados edifícios munidos de sistemas imunes a quase tudo, num canto muito mais visível deste estranho mundo!

Um obstáculo após outro, após outro, após outro…

Nos dias que se seguiram ao ciclone Idai, no distrito de Sussundenga, o Dombe ficou “ilhado”; suspenso num bocado de terra seca de onde apenas se vislumbrava a água e a ideia de tudo o que essa água escondia, submerso. 

Nesses dias, a missão do Instituto de Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, foi âncora, porto de abrigo, último reduto e fonte de consolo (que consolo?) para milhares de pessoas a quem não restou nada, a não ser um resíduo de alma que permitiria (ou não), reconstruir a esperança e continuar a viver.

Nesta missão, há um lar de estudantes que alberga mais de 200 jovens. Nesta missão, esses estudantes pegaram nas suas coisas, (que sobreviveram, ilhadas, à arbitrariedade das águas) e procuraram com elas mitigar o sofrimento daqueles que estavam à sua volta. Com comida, com agasalhos, com o que tinham. Quando a Helpo começou a fazer chegar os camiões carregados de mantimentos para alívio das populações, os estudantes organizaram-se para ajudar a descarregá-los, para ajudar a ajudar. 

Estes são meninos e meninas habituados a tratar as dificuldades por “tu”, a viver na “falta”, no improviso. São meninos e meninas para quem o conceito de “obstáculo” é mais um membro da família. São meninos e meninas que inventaram a resiliência e que não se demoram a chorar as perdas porque a vida não lhes permite. 

Na manhã de 13 de Maio, o edifício do lar das estudantes onde estavam alojadas 47 meninas da 10ª e 11ª classes ardeu, enquanto as meninas estavam nas aulas, deixando-as apenas com aquilo que tinham consigo. Não foi possível retirar nada do interior do edifício e arderam 23 beliches, 17 colchões, 47 redes mosquiteiras, roupa, material escolar, documentos… está vedada a entrada no edifício cuja estrutura ficou fortemente afetada e está em risco de ruir, não podendo ser reconstruído!

A Helpo procedeu à distribuição de mantas, roupa e calçado, com o material que ainda restava no armazém, e assistiu, incrédula, à ironia de que a vida é capaz! Às vezes parece uma anedota gigantesca de mau gosto, a aplicar truques de resistência às pessoas.

Em Cabo Delgado, pouco depois da passagem do ciclone Kenneth, havia um par de dias desde que tinha começado a distribuição alimentar, a população em Macomia foi assaltada, uma vez mais, pelo terror. O terror sem justificação (muitas têm sido as possíveis motivações apontadas aos chamados “insurgentes” de Cabo Delgado, mas poucas ou nenhuma têm satisfeito a lógica e a racionalidade mínimas inerentes a qualquer realidade), o terror sem nome, o terror gratuito e por estes dias com fome, que assaltou a população que já tinha recebido alguma assistência alimentar, matou e deixou um rasto de desespero sobre as pessoas, ao provocar a suspensão das missões de assistência a operar no local.

Dou comigo a pensar que sentido faz esta sobrecarga de violência e desgraça sobre as pessoas e mais, sobre as mesmas pessoas, repetidamente, como que a testar um limite que não existe. Qual é o limite do sofrimento? Gosto de pensar que o limite do sofrimento é imposto pela esperança, e que o trabalho que vamos desenvolvendo nas centenas de horas roubadas à tranquilidade, ao descanso, a outros compromissos, ao sono, oferece algum limite a este tom lubregue em que por vezes a vida parece cair.

No sábado levei o meu filho de 5 anos ao armazém que a Câmara de Cascais emprestou à Helpo para acomodar os bens doados no âmbito da campanha de resposta à emergência, e que aos poucos vai sendo esvaziado, dos milhares e milhares de produtos que foram sendo despachados numa soma que já conta com 4 contentores de 40 pés enviados para Moçambique (o último dos quais fechado ontem, dia 22/05). No sábado, neste espaço, vi famílias inteiras, muitas crianças, empenhadas em cumprir as indicações de acondicionamento do material, voluntários movidos pela vontade de ajudar quem precisa, de emprestar a sua esperança a milhões de pessoas no outro canto do mundo a quem foi abrupta e injustamente roubada. Esta visão faz-se sentir o que já aqui foi escrito, neste blogue, e que soa a mantra para a humanidade: é maior o bem que podemos fazer do que o mal que nos pode acontecer! Haja esperança!

Um novo normal

Há dois meses, o ciclone Idai alcançava terra firme em Moçambique, trazendo ventos, cheias, devastação e morte. A perceção da passagem do tempo nem sempre é clara: dois meses que parecem ter sido ontem, pela carga sentimental ainda tatuada nos discursos das pessoas; dois meses que parecem ter sido há um ano, por tanto que já foi feito. Desde logo, há uma lição a retirar desta tragédia – as pessoas, pelo menos a julgar pelas de Dombe, são fortes e resilientes. Viveram momentos de dificuldade extrema, deram à luz em cima de árvores, agarraram-se à vida presos a telhados e vegetação que compartilharam com cobras e outros animais, viram familiares a serem levados pelas enxurradas mas, com a ajuda possível, estão a reconstruir as suas vidas e sente-se que, passo a passo, vão caminhando no sentido certo.

Por aqui, a falar-se de um retorno à normalidade mas é uma normalidade tão anormal, com um nível de exigência tão baixo, que permanentemente me questiono como é possível, nos dias de hoje, tantas pessoas viverem em condições tão difíceis. Falamos em retorno à normalidade, quando temos o Hospital de Dombe sem eletricidade, sem água, sem gerador. Falamos em retorno à normalidade, quando ainda temos pessoas a viverem debaixo de lonas, presas a quatro estacas, enquanto esperam por paus para construírem as suas casas. Falamos de retorno à normalidade, quando existem pessoas que desde as cheias, não mais meteram à boca uma verdura, uma fruta, uma fonte de proteína animal. Em zonas rurais, como o Dombe, as pessoas vivem da terra, ao sabor da sazonalidade.

O Idai levou as machambas (hortas) e os animais, trazendo a fome. Não há alimentos e não há dinheiro para os comprar. São necessárias sementes para voltar a cultivar e é preciso esperar pela próxima colheita. Nas consultas de Nutrição, que fazemos na Unidade Sanitária da Missão, os diálogos repetem-se:

– A criança come feijão?

– Apana (palavra em Cindau, que significa não há/ não tem).

– Ovo? Galinha?

– Apana.

– Banana? Tangerina?

– Apana.

– Amendoim? Gergelim?

– Apana. Água levou tudo. Aqui, a normalidade, parece ser isto. Talvez seja a mesma normalidade quando pergunto a alguém “como está?” e me respondem “um pouco normal”. É difícil compreender o conceito de normalidade que, de facto, encerra em si mesmo tanta subjetividade e está dependente do ponto de vista de quem o analisa. Penso muitas vezes sobre o que irá na cabeça das pessoas, de que forma sentem e olham para a realidade que as rodeia, quais serão os seus anseios, os seus desejos, os seus sonhos… Dois meses depois da passagem do ciclone Idai, o Dombe parece retomar a tal vida normal. Talvez um novo normal. Olho para trás e alegro-me com o tanto que já conseguimos fazer. Realizámos triagem  nutricional a mais  de 4200 crianças com idade inferior a 5 anos e mulheres grávidas e lactantes. Estamos a seguir em tratamento de desnutrição em ambulatório cerca de 50 crianças e 20 mulheres. Demos 6 altas a crianças desnutridas que estiveram internadas. Assistimos quase 1200 famílias, com kits de alimentação e higiene, roupa e mantas. Olho para a frente e penso no tanto que tem de ser de ser feito pela população de Dombe, em especial por quem perdeu tudo o que tinha e que, em tantos casos, era já tão pouco.

*Testemunho de Liliana Granja, nutricionista da missão humanitária da Helpo, no Dombe

Rá-tá-tá-tá-tá em Macomia- Cabo Delgado

Macomia foi devastada! A notícia chegou a Pemba e as fotos do edifício do banco completamente destruído e da bomba de combustível com graves danos ajudaram a contextualizar.

O representante do Ministério da Educação, Dr. José Luís Pereira deixou temporariamente a pele de Director Nacional do Ensino Secundário para vir dar apoio à província e depois da sua visita a Macomia confidenciou-nos: “Em Macomia, parece que passou uma máquina – rá-tá-tá-tá-tá”. O gesto das mãos ajudava a compreender o efeito sonoro do resultado da passagem de ventos com velocidades superiores a 200 km/h.  Tendo chegado de Dombe na 5ª feira, fizemo-nos à estrada na manhã de 6ª feira, percorrendo os 200km que separam a capital da Província da Vila de Macomia, com passagem pelos Distritos de Metuge, Ancuabe, Meluco e Quissanga, passando no Parque Nacional das Quirimbas. 20km antes de chegar a Macomia começámos a notar a destruição bem patente dos dois lados da estrada, com muitas árvores caídas, arbustos completamente amassados e casas destruídas. À medida que nos aproximamos de Macomia, vemos o crescendo de destruição, recebendo o cartão de visita à entrada com o Camião do Banco móvel estacionado em frente ao que resta do edifício destruído e da bomba de combustível que, mesmo com a destruição nos edifícios, continua a funcionar. Desde a saída de Pemba até Mocimboa da Praia, numa distância de 350km, este é o único local para reabastecer, por isso independentemente das condições, não pode parar. À chegada ao cruzamento temos 3 opções: à direita normalmente dá para chegar a Mucojo, e digo normalmente pois a estrada continua cortada e, devido a isso, Mucojo está inacessível; se seguirmos em frente vamos pela única estrada que liga aos cinco distritos mais a norte da província, cuja rápida intervenção na ponte sobre o Rio Muagamula permitiu que se conseguisse chegar a Muidumbe, Mueda, Mocímboa da Praia, Nangade e Palma, depois de alguns dias sem ligação; à esquerda, passando pelo mercado, e depois de uma ligeira descida é sempre a subir, em altitude  e também em termos de destruição, percorrendo ao longo de cerca de 4 km toda a Vila de Macomia. Ao olharmos, somos engolidos por um cenário apocalíptico. Se quisermos ver toda a destruição não conseguimos pois entre árvores gigantes caídas (até um embondeiro secular tombou), coqueiros devastados, casas arrasadas, rasgos no solo, chapas de zinco amassadas como papel, o nosso olhar não consegue acompanhar o desfilar de desgraça e o cérebro não consegue ter lucidez para ver tudo. Por outro lado, se quisermos ignorar o cenário tétrico que nos invade, apenas o conseguimos fazer se fecharmos os olhos. A descrição confirmava-se e o os meus olhos viam e os meus ouvidos escutavam o rá-tá-tá-tá-tá que o Dr. José Luís Pereira falava.

Fomos recebidos pela Administração do Distrito em tendas a fazer de edifício do Governo, que também ficou órfão de telhado e, de seguida, acompanhados pela Directora dos Servições Distritais Fidélia Macie, visitámos a Escola Primária Completa de Macomia – Sede, uma escola com 1499 alunos, para testemunhar o caos. As salas de aula perderam os telhados, o sistema de energia solar do bloco administrativo foi destruído, estragos incontáveis na secretaria, árvores de grande porte caíram como castelos de cartas no recinto escolar. No regresso vimos uma imagem repetida muitas vezes, casas completamente destruídas onde a única coisa que se aguentou de pé foi a porta e o aro. Num desses cenários parei para falar com os três irmãos, Meque, Cardoso e Júlio que perante a desgraça não pararam e já recomeçaram a pôr de pé a nova casa, mesmo ali ao lado. Também vieram informar que não tinham recebido qualquer apoio em alimentação na tentativa de receberem algo. Ao receberem a explicação que a Helpo em Macomia apenas estava a ajudar na área da educação, agradeceram muito e desejaram-nos boa sorte. A boa sorte que tanto precisavam para voltar a pôr as vidas de pé.

Mais 100km de estrada e chegámos a Ancuabe, onde a destruição não é tão visível mas deixou o parque escolar sem 7 salas de aula, pois 4 telhados voaram e 3 salas construídas em material misto caíram.

A Helpo já conseguiu recolher fundos para assumir a reconstrução das 9 salas em Macomia e das 4 em Ancuabe que foram parcialmente destruídas. Além de mudar os telhados, as salas serão pintadas. Quanto às 3 salas totalmente destruídas em Ancuabe, já começámos a procurar financiamento, pois na manhã de Sábado fizemos 200 km para visitar a mina de grafite da empresa alemã GK para pedir apoio para esta calamidade. Também o CTA – Confederação Empresarial de Cabo Delgado foi informado deste objetivo da Helpo e em Portugal empresas parceiras e amigas foram contatadas para apoiar esta iniciativa.

Na tarde de Sábado tive a oportunidade de estar com o Administrador do Ibo, Issa Tarmamade que, na 1ª pessoa testemunhou a devastação que a Ilha sofreu. Ele próprio viu a sua casa ser devastada e na noite do ciclone dormiu no chão, em cima de uns plásticos, por baixo de uma mesa. Aproveitou para lamentar o facto do enorme espólio cultural e histórico português na Ilha estar vetado a um total abandono. Deu como exemplo de forte ligação às tradições portuguesas, o facto de numa população quase na sua totalidade muçulmana, o feriado municipal continuar a ser o dia 24 de Junho, dia de São João, e que até aos dias de hoje a tradição de saltar fogueiras na noite de S. João se mantém viva. Mas desta vez nem o Santo Padroeiro da Ilha São João Baptista, que também dá nome à Fortaleza, valeu para proteger esta pérola do arquipélago das Quirimbas.

Aparentemente o ciclone já passou e os problemas já estão ultrapassados, e quando nos noticiários não se fala de nada, somos levados a pensar que facto de não haver notícias significa que apenas há boas notícias. Aqui não é o caso. Cabo Delgado continua a sofrer muito, a Comunidade Internacional continua a fazer chegar ajuda, embora ainda insuficiente, e a presença portuguesa reduz-se a alguns empresários e individuais empenhados a ajudar da forma que podem e a Helpo, única organização não governamental portuguesa a trabalhar ativamente em Cabo Delgado até ao momento, que está na linha da frente no apoio às comunidades onde trabalha e no apoio incondicional à Educação em toda a província.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique