Diário de uma visita VI

As noites de Dombe são frias e húmidas, nesta altura do ano. Esta noite que passou chegou aos 11 graus e pela manhã o orvalho brindava com um tempero de frescura tudo o que tocava. Bem cedo, no estaleiro da Mota Engil, a equipa da RTP trabalhava na reportagem sobre o Sr. Tomás Macumbuzi, um homem simples que se transcendeu na noite de 15 para 16 de Março, ao ver a sua casa invadida pelas águas,  e que foi a nado até terra firme para “mostrar preocupação” ao Chefe da Oficina, o Sr. Lima. A preocupação que trazia era, nada mais, nada menos que ter a sua família refugiada em cima de uma árvore, juntamente com muitas mais pessoas. Apenas pediu uma tábua ao Sr. Lima, mais outro ser humano simples na sua grandiosidade, que rapidamente sugeriu usar uns bidões da Galp como flutuadores. Depois de ter soldado dois bidões, e de os ter levado até ao mar que tinha nascido às portas do estaleiro, aperceberam-se que baloiçavam muito e decidiram soldar mais dois bidões com uma estrutura metálica por cima, tendo sido este engenho flutuante que permitiu ao Sr. Tomás salvar a sua família, não tendo parado por aí, pois continuou a ir de árvore em árvore, carregar pessoas e levá-las para a Missão, tendo salvo no total 120 pessoas.

Para ele não foi um ato heroico, foi apenas resolver uma preocupação. Para o Sr. Lima foi apenas fazer o que tinha que ser feito naquele momento.

Mas os heróis são assim, e precisamos de mais Senhores Tomás e mais Senhores Limas para fazer deste mundo um mundo melhor. Mas melhor que ler estas linhas é assistir à peça da RTP, Jangada improvisada, feita com mestria pelo Pedro Martins e o Jacinto Baibai, cuja produção eu tive o prazer de assistir.

De seguida fomos encontrar a Selma Uamusse a espalhar magia e amor na Escolinha Chitaitai, onde nem parece que estes edifícios estiveram submersos há pouco menos de três meses, pois está tudo impecavelmente limpo, pintado e recuperado. As crianças passaram por momentos terríveis, mas aquele ambiente acolhedor é certamente o mais propício para ajudar a ultrapassar o trauma. Além disso, ter a Selma a cantar com eles e para eles, certamente os alegrou e os sorrisos que nos presenteavam não enganavam. A “tia Selma” fez um dia diferente para estas crianças.

Foi uma manhã corrida em que tivemos tempo de mostrar à Selma e à RTP o trabalho realizado pela nossa equipa de nutricionistas no Centro de Saúde das Irmãs, acompanhar uma distribuição alimentar em Mucombe, visitar o centro de reassentamento de Mucombe, atravessar o Rio Mussapa na embarcação Esperança, que a Helpo adquiriu à chegada a Dombe e que ainda apoia a população e as equipas da saúde.

À tarde houve ainda tempo para ver um rastreio nutricional na Comunidade de Macocoe, onde o centro de reassentamento é grande e as condições das pessoas são extremamente precárias. O jantar foi momento de despedida da equipa da RTP que partia em direção ao Chimoio na manhã seguinte, mas que teve oportunidade de acompanhar dias muito intensos, recheados de um trabalho sério que além de ser feito, precisa ser mostrado, para que quem acreditou e confiou na Helpo, se sinta tão satisfeito e realizado como nós nos sentimos.

Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

Diário de uma visita V

Saímos às 5:30 de Dondo, pela estrada Nacional 6 em direção ao Inchope, passando pela zona de Lamego e Nhamatanda onde pudemos observar os estragos provocados pelo Ciclone Idai, que comeu praticamente metade da estrada, obrigando a uma paragem para permitir a circulação apenas num sentido. Felizmente a espera não foi longa, o que nos permitiu entrar passado uma hora em Chimoio, capital da Província de Manica  para matabichar, num sítio de referência na antiga Vila Pery, o Restaurante / Café Ponto de Encontro. Vila Pery ganhou este nome em homenagem a João Pery de Lind, Governador do território pela Companhia de Moçambique, no ano de 1916. Em 1975 conquistou o nome atual, mas que nunca se tinha perdido, pois os naturais da terra nunca tinham deixado de utilizar o nome Chimoio, terra conhecida pelo seu algodão e vasta produção agrícola.

Depois de percorrermos mais 130km passarmos a barreira natural das montanhas no Parque Nacional transfronteiriço de Chimanimani, chegámos a Dombe onde tudo estava preparado para um evento que estava a mexer com toda a Comunidade: a entrega de 100 bicicletas Mozambikes!

Um a um foram sendo chamados os 100 sortudos, agentes polivalentes de saúde, ativistas da saúde, voluntários da missão e alunos da Escola Secundária que precisam percorrer longas distâncias. Além da equipa de nutricionistas da Helpo e do Voluntário Joaquim Batista, padrinho e voluntário da Helpo de longa data, recentemente chegado a Dombe para tratar da logística ligada ao projeto, também contámos com a preciosa ajuda da equipa da Mota Engil, liderada pelo Eng. Pedro Fontes, todo o pessoal ligado à Missão de Dombe, Rui Mesquita da Mozambikes e claro, da Selma Uamusse e da Felícia Silva. A RTP estava a apanhar todos os pormenores e os presentes não conseguiam esconder as suas emoções. A primeira a extravasar os sentimentos foi a Inês, a senhora mais idosa do grupo que logo agradeceu muito à Selma de forma cativante e que chamou a atenção de todos, começando a cantar e a dançar mobilizando prontamente todo o grupo. A Selma não se ficou e as duas dançaram, cantaram e abraçaram-se como velhas amigas. Não foi a primeira grande entrega que a Helpo fez com a Mozambikes, mas esta foi certamente a mais emotiva, não só pelas razões que levam a esta entrega, mas sobretudo pela diferença que estas bicicletas irão fazer na vida de todas estas pessoas.

Na parte da tarde tivemos um pequeno contratempo, pois o carro que alugámos para garantir a viagem de Beira até Dombe, trancou-se sozinho com as chaves no seu interior. Mais uma vez contámos com a ajuda preciosa da Mota Engil que trouxe as ferramentas tendo a mestria técnica ficado a cargo do Joaquim Batista, que dizia para os jovens que ali estavam por perto que aquilo não era para ser aprendido. Conseguimos abrir o carro que logo de seguida regressou à Beira nas mãos de um motorista que o nosso amigo Vidigal, que nos vendeu o barco no início desta missão, arranjou graciosamente.

Depois de resolvido o problema, descemos ao Rio Mussapa e é impressionante ver o que o rio subiu, e os estragos que causou. Toda a zona circundante ao leito, que anteriormente era usada como machamba, terra de cultivo, é agora uma área estéril onde durante os próximos tempos nada prosperará. A RTP entrevistou alguns sobreviventes para conhecer histórias que mudaram as vidas das pessoas que ali viviam. Ficamos pequeninos ao ouvir histórias de desgraça e de força. Pensar em pessoas aparentemente frágeis que ficaram três dias em cima de uma árvore, sem comer, sem beber, agarrados a troncos, agarrados à vida, alguns ainda agarrados aos seus filhos, deixa-nos a pensar sobre muita coisa. Estar aqui a ouvir estas histórias faz-nos sentir vazios mas ao mesmo tempo conscientes de como é bom estar vivo, obrigando-nos a relativizar aquilo que são os nossos problemas.

Ao final da tarde foi impossível dizer que não ao convite da Mota Engil para um jantar no estaleiro, não só pela companhia e pela qualidade da cozinha do Chefe Almeida, um moçambicano que orgulhosamente diz que já conhece Portugal pois já esteve umas semanas no Fundão, a terra das cerejas,  mas também por ser o único sítio num raio de 130 Km onde tínhamos a possibilidade de assistir ao jogo da seleção de Portugal contra a Suiça, coroada com um hat-trick do nosso Cristiano Ronaldo. Apesar de toda a desgraça que caiu aqui, Dombe é um sítio de celebração. Celebração de vida, de amizade, de esperança e até da festa do futebol!

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

Diário de uma visita IV

Depois de uma partida feita pela LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, mas também conhecido por Late And Maybe (Atrasada ou talvez), que decidiu adiar o horário do vôo Pemba – Beira das 10:25 para as 19:25 sem nos avisar, acabámos ficando mais tempo do que previsto em Pemba. A Selma aproveitou a manhã para experimentar uma máscara de Mussiro, ainda por cima pelas mãos experientes da Alima Bacar, natural do Ibo, cara conhecida pelo seu sorriso cativante no Restaurante do Kauri. A equipa da Helpo que se tem desmultiplicado em reuniões do Governo, do INGC – Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, e OCHA – Office of Coordination of Humanitarian Affairs (Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários), participou numa reunião encabeçada pela UNICEF e a OIM/IOM – Organização Internacional para as Migrações, para saber quais as organizações presentes no terreno na reconstrução de edifícios escolares, das quais apenas estavam presentes a Helpo e a Fundação Nema.

No contexto de emergência, cada reunião é uma aprendizagem em diversos campos: Ter oportunidade de partilhar momentos com pessoas de outros países, alguns a que estamos mais habituados como Espanha, França, Itália, Brasil, Inglaterra, Escócia, Austrália, Estados Unidos, África do Sul, Canadá, mas também de países cujos habitantes se encontram pouco em Moçambique ou Portugal como Dinamarca, Noruega, Afeganistão, Síria, Indonésia, Malásia, Bósnia-Herzegovina, Nicarágua, Honduras, apenas para mencionar algumas, faz desta experiência algo inolvidável.

Na esperança de que o voo da LAM não sofresse novo adiamento, tivemos uma surpresa na sala de embarque, pois a segunda equipa da Força Nacional de Segurança Pública, os Bombeiros Militares do Brasil, que depois de um grande trabalho no Ciclone Idai, vieram para Cabo Delgado para a resposta ao Ciclone Kenneth, estavam de saída e iriam voar connosco. 29 Heróis que já tínhamos encontrado na Ilha do Ibo e agora estavam a regressar a casa. Quando, dentro do avião o Comandante referiu que a Força Nacional estava no avião e agradeceu o seu trabalho, uma forte salva de palmas ecoou em todo o avião. Homenagem merecida por quem tanto fez pelo povo moçambicano.

Com uma breve escala em Nampula, conseguimos chegar à Beira e com o adiantar da hora já não conseguimos fazer o passeio pela Cidade da Beira, cujo nome foi dado em Homenagem ao Príncipe da Beira, título dado ao Príncipe primogénito do herdeiro presuntivo da Coroa de Portugal.

Passámos a noite em Dondo, mesmo à saída da Beira, tantas vezes confundido com Dombe, destino final da nossa viagem. Quis o destino (e a LAM) que tivéssemos que passar uma noite em Dondo, onde fomos muito bem recebidos a altas horas da noite pelo Luís e Raquel da Missão África que nos receberam de braços abertos e com uma refeição simples, mas que nos deixou a todos muito satisfeitos.

Não conseguimos chegar a Dombe, como previsto, mas chegámos ao Dondo e valeu a pena! Mais amigos fizemos e mais enriquecida ficou a nossa viagem. No dia seguinte, 350km de carro separam a Missão África em Dondo da Missão de Dombe, em Sussundenga, onde todos somos um!

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Diário de uma visita III, De helicóptero descemos ao Inferno de Mucojo

A distância de Pemba para Macomia são 200km, mas é fácil lá chegar: 80km até ao cruzamento de Silva Macua e depois 120km por uma estrada mais estreita e em piores condições, mas que dá para andar bem. Parámos em Silva Macua, comunidade com forte implementação da Helpo, com três salas de aula construídas e duas salas reconstruídas na Escola Primária onde é distribuído lanche escolar. Na Escolinha Comunitária construímos três salas e uma sala polivalente.

Depois da forte resposta na semana seguinte ao Ciclone, só em Silva Macua, aldeia também conhecida por Salaué e Sunate, apoiámos com bens alimentares 125 famílias que perderam as suas casas na totalidade. Mais tarde apoiámos 168 famílias que perderam as suas casas parcialmente. A missão do dia era entregar às crianças apadrinhadas que perderam as suas casas parcialmente um apoio reforçado, entrega que teve um toque especial, porque a Selma Uamusse estava connosco.

Depois da entrega, rumámos a norte, em Direção a Macomia, para a pista de aviação onde o Helicóptero do WFP nos iria levar em direção a Mucojo, junto à costa. A tripulação Ucraniana recebeu-nos muito bem e a experiência fantástica de voar no MI-8, helicóptero de carga de fabrico russo, faz-nos descer aos infernos.

Mucojo, que fica situado na costa e ainda pertence ao Distrito de Macomia, foi simplesmente arrasado, praticamente todas as árvores foram deitadas abaixo, as casas caíram ou perderam o telhado e por ser um local onde ainda não chegam camiões, o transporte de bens está a chegar a conta gotas.

A paragem previa uma visita de 20 minutos e ao caminharmos em direção ao oceano azul turquesa, que a cerca de 2 km de distância nos mostra um cenário paradisíaco, fomos passando pelas antenas de rede de telemóvel completamente desfeitas, em direção a uma árvore, uma das poucas que permanece de pé. Acredito que aquela árvore tem uma energia especial que a fez ficar de pé e que faz dela um símbolo de resiliência e de esperança. Olhar para aquela árvore foi como olhar para as centenas de pessoas que aos poucos vão reconstruindo as suas casas a partir do nada. As árvores nem sempre morrem de pé e os moçambicanos, independentemente da sua religião, acreditam que só se morre quando Deus quer.

Mas a reconstrução das casas e erguer-se perante as adversidades, depende de cada um. Vai demorar, mas acontecerá.

Na viagem de regresso, olhando com mais atenção a paisagem, vemos zonas em que todas as árvores, sem exceção, foram arrasadas. Saímos de Mucojo de coração vazio.

Ao chegar a Macomia fomos visitar a Escola Primária Macomia Sede, onde a reconstrução das nove salas de aula está a um ritmo acelerado e as turmas que estão espalhadas pelas sombras improvisadas pelo pátio, olham com ansiedade o momento em que vão entrar nas salas renovadas, graças ao apoio da Helpo e dos milhares de portugueses que confiaram em nós.

A RTP fez uma reportagem sobre esta conquista onde vemos que, por vezes, depois das coisas más chegam mesmo coisas boas. Os 1499 alunos desta escola depois de todo o sofrimento que os atingiu vão receber 9 salas de aula com telhado novo, pintura nova e arranjos nas portas e janelas.

Depois de Mucojo, precisávamos de algo que nos confortasse o coração. A Selma Uamusse gostou do que viu e gravou a primeira parte de uma entrevista para RTP sentada em cima de um dos troncos das árvores que caíram e que agora são usados como parque de diversão para as crianças. Algumas árvores do pátio da escola caíram, mas a vontade de estudar continua em alta e os alunos da Escola Primária de Macomia Sede estão comprometidos em fazer esquecer as coisas más que o Kenneth trouxe e agarrar com as duas mãos as coisas boas que estão a chegar.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Diário de uma visita, II

Só pelo facto de termos conseguido reunir aquele grupo de pessoas, o dia já estava considerado ganho. Reuniram-se no aeroporto para embarcar no Caravan fretado pelo WFP – World Food Programme – Programa Mundial de Alimentação, quatro portugueses, quatro moçambicanos e um espanhol. Talvez seja melhor corrigir para um catalão! Carlos Almeida e Fátima Falua da Helpo, Pedro Martins da RTP e Felícia Silva, agente da Selma pela Ao Sul do Mundo os portugueses presentes. A representação moçambicana com Selma Uamusse, Pedro Figueiredo, Chefe de missão do WFP, Jacinto Baibai da RTP e Nurmomade Abdulcarimo, que toda a gente conhece por Baboo, já uma figura mítica de Cabo Delgado. Daniel Peluffo da Fundacion Ibo representou os nuestros hermanos, ao qual se juntou a Sandra Garcia que nos esperava na Ilha do Ibo.

Depois de uma suave viagem de 16 minutos, aterrámos e fomos para a Escola Eduardo Mondlane onde a Helpo vai reconstruir 11 salas. A reconstrução vai contar com o apoio da Fundacion Ibo, que tem uma forte implantação na ilha do Ibo, com uma Escola de Artes e Ofícios, uma carpintaria e com muitas iniciativas culturais e de preservação do património. Além de financiar a reconstrução após a emergência, a Helpo está a ajudar a desenvolver as forças locais e acreditamos que este será o primeiro passo do que poderá vir a ser uma boa parceria.

Depois da visita à Escola, testemunhámos uma distribuição do WFP, e ficámos felizes por ver que embora numa escala completamente diferente, o conceito e a organização era em tudo semelhante à que utilizamos nas nossas distribuições. À nossa chegada, a multidão observou-nos e o Baboo foi imediatamente reconhecido, pois apesar de ter nascido em Inguane, a norte de Mucojo, no continente, conhece bem a Ilha do Ibo e as suas gentes. Uma senhora fez questão de partilhar que tinham perdido tudo mas estava viva e isso é que era importante. Reforçou que as ajudas de alimentação e outros bens era muito importante, mas que simplesmente receber uma visita já a deixava muito feliz. Baboo não conseguiu conter a emoção e encontrou no abraço da Selma um porto de abrigo, unido por lágrimas que são apenas um sublimar de emoções acumuladas, ao nos sentirmos mínimos, perante tanto apego à vida, tanta simplicidade e tanta destruição.

Quando a Selma tentou conhecer músicas locais com umas raparigas que estavam na distribuição, provocou no Baboo uma viagem no tempo. Subitamente, parecia um miúdo de 6 anos a recordar e a cantar as músicas da sua infância, que falavam da bandeira transportada para a Rainha Dona Amélia e o famoso Tambo Tambulani Tambo.

O WFP está a fazer um excelente trabalho e o Pedro Figueiredo é um moçambicano que correu mundo e que, apesar de estar reformado, continua a ser chamado para missões onde a sua experiência pode fazer a diferença. Uma das bases tinha sido Argélia num trabalho de apoio ao povo Sahrawi, onde tinha conhecido Daniel Peluffo, agora representante da Fundacion Ibo.

A visita à Fortaleza, usada no tempo colonial como prisão da PIDE, foi palco para pedaços de História contada por quem a viveu, com alguns episódios tristes, outros divertidos. Quem quiser conhecer estas e outras histórias basta passar no Kauri, na Cidade de Pemba e arrisca-se a ter uma estadia fantástica e a fazer uma amizade que jamais esquecerá.

Apesar de não ter estado connosco na Ilha do Ibo, o Administrador do Distrito Issa Turmamade mandou preparar um almoço para a comitiva que nenhum dos presentes esquecerá tão cedo. Não vamos revelar as iguarias, apenas deixar o convite para visitar a Ilha do Ibo que quer por razões gastronómicas, que de património ou de beleza natural, vale certamente o esforço da deslocação.

Depois da viagem de regresso, o Baboo ofereceu um jantar no kauri com um manjar de comida típica de Cabo Delgado, com pratos que não estão contemplados do menu do restaurante, mas que são de provar e chorar por mais. O Adminitsrador Issa juntou-se a nós depois de ter estado Conferência Internacional de Doadores para a reconstrução na Beira sobre resposta à emergência dos Ciclones Idai e Kenneth. Quase no final do jantar recebemos o convite do WFP para complementar a nossa viagem do dia seguinte, com destino a Macomia, com uma visita a Mucojo de Helicóptero, uma das zonas mais severamente devastadas pelo Ciclone Kenneth.

Falámos pela noite dentro sobre o passado, com as histórias deliciosas do Baboo e do Issa e também falámos do futuro, só não falámos do Ciclone. “Graças a Deus já passou e estamos vivos! Se Deus quiser tudo irá melhorar! Insha Allah!” Em Cabo Delgado a fé e a espiritualidade são mais forte que as religiões e todos juntos, de mão dada, conseguimos fazer a diferença.

* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.

Diário de Uma Visita I, 1 de junho

Quando a Helpo foi convidada a fazer parte do movimento “Mão dada a Moçambique”, não pensava que iria fazer parte de algo histórico. Ao ser “obrigada” a preparar uma missão de resposta à emergência do Ciclone Idai, a Helpo foi obrigada a reinventar-se e a traçar caminhos desconhecidos. Todos nós estávamos confiantes, mas sempre com a noção que caminhar em direção ao desconhecido pode trazer momentos menos agradáveis. No entanto, quando se caminha com amigos, as coisas ficam mais fáceis. Além das centenas de pessoas que nos deram força, doando dinheiro, doando bens, participando como voluntárias, também tivemos a honra de ser convidados pela Selma Uamusse, a fazer parte deste movimento, ela que é amiga da Helpo já há alguns anos, colaborando sempre que solicitada, ela que é uma verdadeira Embaixadora Cultural de Moçambique em Portugal e na Europa!

No dia seguinte àquele que recordo como o maior sucesso de movimento solidário em Portugal direcionado ao estrangeiro, que culminou com um espetáculo com mais de 50 artistas no Capitólio, a Helpo convidou a Selma Uamusse a visitar Moçambique. Era um convite que estava pendente há anos, e este era o momento para que viesse visitar o trabalho em que ela confiava à distância, e ver os trabalhos de resposta à emergência.

Queria o destino que a data de chegada fosse o Dia 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, o expoente máximo de celebração infantil em Moçambique. Como nesse dia o tempo de ligação entre o voo carinhosamente oferecido pela TAP e a partida para Pemba era de apenas 70 minutos, foi necessário muito trabalho de bastidores envolvendo, o pessoal da TAP, o pessoal da Migração, o pessoal da LAM, a família da Selma em Maputo, para que tudo corresse bem e efetivamente correu.

Setenta crianças esperavam a Selma na Biblioteca Pública Provincial Samora Machel de Pemba, casa da Ludoteca da Helpo. Depois de um apreciado almoço, as flores que nunca murcham, como o Patrono da Biblioteca referia, aproveitaram a tarde em grande, com demonstrações de Teatro, poesia, dança, e com o convidado especial AZ, um famoso cantor de Pemba. A Selma aproveitou o momento para recordar a sua infância e a Helpo aproveitou para relembrar às crianças que os bons exemplos são para seguir, e a Selma Uamusse é claramente um bom exemplo. Uma menina moçambicana que foi para Portugal, tendo ficado a viver sozinha desde tenra idade, mas sempre focada no objetivo a que se tinha proposto. O sonho levou-a além do objetivo e a Engenheira Civil e a Engenheira de Planeamento e Ordenamento do Território deu lugar a uma Cantora! Mas uma cantora que não se limita a cantar e a encantar, pois isso seria pouco para ela. Mas também a espalhar a cultura moçambicana pelo mundo e fazer o que pode para melhorar o seu país, um país cheio de riqueza humana, a mais valiosa e onde se deve investir com mais força, para dar um melhor rumo à Pérola do Índico.

Do teatro encenado pelas crianças ficou a mensagem forte da igualdade de género, cada vez mais percebido pelos jovens. Do discurso da Selma ficaram sementes de esperança em cada uma daquelas 70 cabeças. Da Helpo ficou a certeza de que juntos somos mais fortes e que a vinda da Selma para testemunhar os trabalhos de resposta à emergência dos Ciclones Idai e Kenneth, nos vai fazer mais fortes e mais prontos para ajudar sempre que formos solicitados. Obrigado pela confiança, Selma! Obrigado pela confiança, Portugal!

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique

Ibo, a ilha bem organizada

Visitei a Ilha do Ibo pela primeira vez em 2012. Dessa viagem recordo uma viagem longa e dura, porque a estrada de terra batida em mau estado não ajudava, porque a viagem de barco dependente das marés pode provocar uma longa espera, e porque não havia cais de acesso aos barcos em Tandanhengue, ainda no continente. Mas todas as dificuldades ficavam lentamente eclipsadas com a chegada à Ilha, devido ao seu encanto arquitetónico, natural e humano. Desde essa altura sonhava fazer a viagem de avião, pois sabia que além da duração da jornada baixar das 8 horas para os 20 minutos, as vistas aéreas são de sonho.

No espaço de duas semanas e pelas piores razões, desloquei-me à Ilha do Ibo de avioneta por três vezes. A primeira vez com uma boleia do DFID – Department For International Development, a Cooperação internacional do Reino Unido, da segunda e terceira vez com a avioneta fretada pelo WFP – Programa Mundial de Alimentação. As visitas serviram para avaliar os danos na área da educação e também para ver o património histórico português. Se em relação às escolas os danos são gerais e bem visíveis, o património português, que com exceção da Fortaleza de S. João Baptista que sofreu uma grande recuperação por parte da organização espanhola, Fundação Ibo, tudo o resto já estava ao abandono, sem que se note destruição devido à passagem do ciclone. 

As três escolas da Ilha têm todas as salas de aula parcialmente destruídas, sem que tivesse havido interrupção das aulas, em sombras improvisadas, e depois da segunda visita com acesso a lonas e tendas da UNICEF. A segunda e terceira visita foi feita na companhia do ponto focal da Direcção Provincial de Educação e Desenvolvimento Humano para as ONG, Florêncio Rissa Mbique, e além de termos reunido com o Administrador do Ibo também reunimos com o Coletivo dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia. 

Se a ida a Macomia me deixou chocado, percorrer toda a Ilha do Ibo a pé, tendo calculado cerca de 7km caminhados, não me deixou tão impressionado. Talvez porque apesar da destruição ser generalizada, o facto de as pessoas estarem calmas e lentamente a reconstruir as suas casas e as suas vidas tenha contribuído para essa perceção. Ao contrário do que aconteceu em toda a costa de Mucojo, Pangane, Inguane e Quiterajo, que foi fortemente varrida e devido a ter ficado isolada, os apoios terem demorado a chegar, no Ibo a ajuda foi rápida e efetiva. Chegaram alimentos e bens não alimentares e toda a distribuição correu de forma organizada. O Administrador do Ibo Issa Turmamade fala em 90% de casas destruídas, mas foram poucas aquelas que vi intactas. A terceira visita ao Ibo já foi para avançar com a construção de três salas de aula na Escola Eduardo Chivambo Mondlane, uma escola que contempla alunos da 1ª à 11ª. No próximo ano terá 12ª classe, o que fará com que os alunos consigam concluir o ensino secundário sem sair da ilha. Fizemos mais uma avaliação do edifício principal da escola, pois também iremos reconstruir as três salas de aula, gabinete dos Diretor, dois gabinetes de Diretores Pedagógicos e salas de professores. Um edifício bonito, construído no Seculo XIX e cujas telhas trazidas pelos portuguesas, eram fabricadas em Marselha, França, algumas datadas de 1892. Além da recuperação do equipamento escolar, também estamos a salvar património histórico e arquitetónico.

Conhecemos a Sandra Garcia da Fundação Ibo, que farão as obras com a HELPO, uma Engenheira Naval que chegou ao Ibo quatro dias antes do ciclone. Um verdadeiro batismo de fogo, ou neste caso um batismo de chuva e vento! Sobreviveu e diz que, passado um mês, já não consegue ver a vida da mesma maneira. Ouvi-la descrever a alegria que sentiu quando dois dias antes tinha tomado banho de duche pela primeira vez, depois de um mês sem eletricidade, faz-nos pensar como damos pouco valor às coisas que são dadas como garantidas. A Sandra também partilhou que logo após a passagem do ciclone, todas as pessoas começaram a reconstruir as suas casas, porque a vida, mesmo sendo levada com calma, só tem um sentido, para a frente!

Ali ao lado da Escola, na Escola de Artes e Ofícios da Fundação Ibo, as crianças inscreviam-se nos torneios organizados no âmbito dos festejos do Dia 1 de Junho – Dia Internacional da Criança. Além de todas as coisas más, o Kenneth trouxe coisas boas: os desenhos das crianças, normalmente recheados de casas, barcos e árvores, ganharam agora novos protagonistas, os helicópteros e os aviões!

A julgar pelo entusiasmo das crianças os problemas maiores já passaram e, melhor que ninguém, as crianças sabem, que é com sorrisos e energia que se vai reconstruir o Ibo, para que volta a ser a Ilha Bem Organizada.

*Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique