Pouco tempo antes de vir para Moçambique li o livro “Longos dias têm cem anos” de Agustina Bessa Luís, mais uma obra incrível desta magnífica escritora. A páginas tantas, lemos “Longos dias têm cem anos. Assim me diziam quando se tratava de protelar um assunto, de o fazer amadurecer na lânguida separação do inadiável. E os longos dias passavam, carregados de justo sentimento pelas coisas que devíamos fazer de maneira lesta e durável. Às vezes, não se faziam nunca. (…) Só que eu, como o frade no seu horto, acordo sempre a horas, e retomo a palavra que tinha começado muitos anos antes.” Nos últimos dias, o título do livro não me tem saído da cabeça e com ele tenho feito diferentes paralelismos. Longos dias têm uma semana, é o que se assoma no pensamento ao passar em revista a agitação dos dias que tivemos no âmbito da Semana de Saúde. Por outro lado, longas horas têm um dia, porque parece inexequível a quantidade de atividades que conseguimos realizar em cada um dos dias! Procrastinar é palavra que não consta no dicionário de Dombe da nossa equipa. Tal como o frade no horto, para nós os dias também começam cedo e terminam… quando é possível! Na sequência do ciclone Idai, o Ministério da Saúde decidiu organizar a Semana de Saúde em resposta à Emergência, que decorreu de 6 a 10 de Maio, oferecendo serviços para melhorar a saúde das populações que vivem nos distritos das províncias de Sofala, Inhambane, Zambézia e Manica. Durante as reuniões de preparação, fomos percebendo que os desafios seriam muitos: é necessário constituir equipas para prestarem os serviços previstos nas Unidades Sanitárias, Brigadas Móveis e Centros de Reassentamento mas há falta de profissionais de saúde; é necessário transportar as equipas para as comunidades mas não existem viaturas; é necessário preencher os dados nas fichas criadas especificamente para esta semana mas os materiais não foram todos impressos. E poderíamos continuar a desfiar as contas deste rosário sabendo, de antemão, que a listagem final de necessidades e dificuldades seria bem extensa. A equipa dos 3 nutricionistas esteve em ação durante toda a semana e ficamos escalados para integrar 11 Unidades Sanitárias e Equipas Móveis. De maneira lesta, garantimos o transporte de equipas para as diferentes comunidades, utilizamos o barco Esperança nas travessias possíveis e fornecemos alguns materiais para que as atividades pudessem decorrem dentro do previsto. Dado que cada um dos nutricionistas integrou diferentes equipas de saúde, no final de cada dia reuníamos para partilharmos momentos carregados de emoções, de aventuras e frustrações, de planos para os dias que se seguiam. Feito o balanço final da semana, verificou-se que realizamos triagem nutricional a 2947 crianças dos 6-59 meses e mulheres grávidas e lactantes, e realizamos 58 Consultas de Nutrição. Suplementamos mais de 2200 crianças dos 6-59 meses com vitamina A e cerca de 1000 adolescentes e grávidas com sal ferroso e ácido fólico. Desparasitamos aproximadamente 2020 crianças com mais de um ano de idade e grávidas, e fornecemos mais de 5000 preservativos para os Serviços de Saúde Sexual e Reprodutiva/ Planeamento Familiar. Longos dias têm uma semana. Longos, desafiantes, cansativos… e felizes dias!
*Testemunho de Liliana Granja, nutricionista da missão humanitária da Helpo no Dombe
Depois do Ciclone Idai ter
assolado a região Centro de Moçambique e de a Helpo ter sido a escolha de
milhares de portugueses, que depositaram em nós confiança e nos obrigaram a
transformar em especialistas de contexto de emergência, numa região e numa área
para nós desconhecida, eis que a desgraça nos bate à porta.
A passagem do Ciclone Kenneth no
dia 26 de abril foi, aparentemente, mais inofensiva que o Ciclone Idai. A
capital da Província de Cabo Delgado, Pemba, praticamente nada sofreu com a
passagem do ciclone, para além da queda de algumas árvores e algumas estruturas
mais frágeis, o que fez as pessoas respirarem de alívio depois do terror
sofrido na região Centro ainda estar bem presente em todos os que vivem na
pérola do Índico. Apesar do norte da província estar incontactável, a maior
área urbana pouco tinha sofrido. Passados dois dias viria o pior, pois nessa
noite choveu a mesma quantidade de água que estaria previsto para toda uma
época das chuvas. Chover numa noite a chuva de um ano, tem que provocar danos
graves e a cidade ficou alagada. Depois de a Helpo ter sofrido na pele a fúria
das cheias, sobretudo em 2014, em que a casa e escritório ficaram completamente
mergulhadas em água, a mudança para as novas instalações fez com que nada
acontecesse.
Enquanto Pemba estava isolada,
pois a única estrada para sair da cidade tinha sido conquistada pelo rio na
zona de Mieze, e grande parte da cidade estava submersa, eis que começam, aos
poucos, a surgir notícias nada animadoras de outros pontos da província. A Ilha
do Ibo tinha sido arrasada, a Vila de Macomia foi dilacerada e toda a costa de
Mucojo a Quissanga foi varrida. Os números começaram a assustar, 41 mortos,
239.000 pessoas afetadas. O Gabinete Coordenador de Assuntos Humanitários, da
ONU, já estava a ser montado em Pemba e rapidamente começaram a chegar meios de
apoio internacional.
Para a Helpo o adensar do
problema começou quando um dos funcionários afirmou que tinha perdido toda a
comida que tinha em casa, pois a água era tanta que teve que abrir uma vala
para que o ribeiro recém-criado, passasse por dentro de casa. A casa estava
bem, apenas tinha perdido a comida. Não sei como é que uma casa fica bem quando
passa um ribeiro por dentro, mas o fornecimento de comida chegou para elevar os
ânimos, “o resto depois resolvemos” disse.
Nas nossas comunidades o número
de casas perdidas não parava de aumentar. As comunicações não ajudavam, fazendo
com que a Helpo várias vezes comunicasse números que mais tarde se verificaram
incompletos. Apenas a Comunidade de Chinda, no Distrito de Mocímboa da Praia nada
sofreu. Este Distrito ficou isolado, juntamente com outros quatro, Palma,
Nangade, Muidumbe e Mueda, devido à queda de uma ponte. Ficaram também sem
cobertura de rede de telemóvel, impossibilitando as comunicações.
A Comunidade que mais sofreu foi
Silva Macua /Salaué. O nosso Agente Comunitário Xavier disse que estava tudo bem
com ele e a família e que apenas tinha perdido uma parede da casa.
Resiliência foi considerada a
palavra do ano em Moçambique, numa iniciativa da Plural/Porto Editora e nesta
situação, mais uma vez, ficou demonstrado que os Moçambicanos estão sempre prontos
a olhar para a frente, mesmo quando quase tudo se foi, forçados a reconstruir o
pouco que têm.
A Comunidade de Mahera também
sofreu a perda de algumas casas e a última a conseguir dar informação foi
Ngoma, onde duas famílias ficaram sem lar. Felizmente não houve fatalidades em
nenhuma das nossas comunidades.
Na 2ªfeira a Helpo comprou 2,5
Toneladas de alimentos para levar a 20 famílias de Silva Macua que tinham
perdido as suas casas. Quando chegámos, o número já havia crescido para 29.
Também fomos informados que na Escola Secundária de Mieze, um dos locais onde a
Helpo tem muitos jovens apadrinhados do projeto Futuro Maior, mesmo à saída de
Pemba, 280 pessoas estavam alojadas nas salas de aula por terem perdido as suas
casas e que estavam a ficar sem comida, apesar da ajuda inicial da Irmãs que
vivem mesmo ali ao lado. A Helpo comprometeu-se com o Instituto Nacional de
Gestão de Calamidades (INGC) e com o Bispo de Pemba a apoiar estas pessoas.
No dia 1 de Maio, dia do
trabalhador, não houve feriado. Com a ajuda da Empresa Construsoyo Moçambique e
da Sociedade Comercial Messalo, que nos cederam camiões e trabalhadores
carregámos 12,5 Toneladas de alimentos, para distribuir em Silva Macua e
Mahera. Esta operação, que teve lugar no dia 2 de Maio foi testemunhada pela
equipa de reportagem da RTP que se deslocou ao local. Cada kit de alimentação é
constituído por 25kg de feijão, 25kg de arroz, 25kg de farinha, 10 latas de
sardinha, 15 litros de água, 5 litros de óleo, 2 kg de açúcar, 1 kg de sal e 4
barras de sabão.
Entretanto os números finais de
casas perdidas, já ascendiam a 89 em Silva Macua e 34 em Mahera. A estratégia,
devidamente concertada com as lideranças locais, passam por priorizar quem
perdeu a casa na totalidade, depois tentar dar algum apoio a quem perdeu a casa
parcialmente com atenção especial a mulheres grávidas e crianças até aos dois
anos de idade.
O dia seguinte foi dia de viagem
para outro ciclone, outra desgraça.
A equipa da Helpo em Dombe,
continua com a moral em alta, mesmo com o pico de trabalho provocado pela
chegada de dois camiões com donativos provenientes de um armazém da Beira. O
Nutricionista Asmy ficou encarregue das questões logísticas, enquanto as
Nutricionistas Liliana e Hélia continuaram a tratar de mulheres grávidas e
crianças até 5 anos. Recebemos também o apoio de uma Pediatra e uma Enfermeira,
voluntárias da ONG parceira Health4Moz, que vieram dar uma ajuda extra no
Centro de Saúde das Irmãs, que nos últimos dias tem chegada e atender 300
pessoas num dia.
Na casa das irmãs do Instituto
das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, nossas parceiras, continuamos a
ser muito bem recebidos e agora contámos com o regresso da Irmã Rita, que havia
saído para o Brasil e acompanhou o Ciclone à distância. Diz que não consegue
pôr em palavras o que sentiu nos dias pós-ciclone em que não teve notícias e
que sabia que estava tudo cheio de água, tendo temido o pior. Ao chegar, diz
que não consegue olhar para as árvores da mesma maneira, pois apesar de saber
que foram nestas dezenas de árvores que as pessoas subiram e permaneceram
durante dois ou três dias para se salvar, não consegue perceber o mistério que
elas contêm. Alguma magia elas têm que albergar. A força que pessoas idosas
ganharam naquela hora para conseguir subir a árvore, amarrar os corpos
assustados aos troncos com recurso à sua roupa para não cair. Houve ainda
cenários de salvação mas com um toque de filme de terror, pois algumas pessoas
tiveram que partilhar a árvore que as socorreu com cobras, numa convivência
pacífica homem-animal, mais pacífica quando a cobra estava enrolada, e mais nervosa
assim que se começava a mexer, e fazia logo vir o medo novamente.
Também no Estaleiro da Mota-Engil
houve heróis anónimos, acho que nem eles próprios se atribuem esse título. Na
manhã das cheias, com a água a chegar à parte de trás do estaleiro e estando já
isolados, um funcionário moçambicano veio pedir ajuda para ir buscar a família
que estava numa árvore. Prontamente, os portugueses ali presentes pegaram em
bidons, soldaram-nos com uma grelha no topo e improvisaram uma jangada
salva-vidas. Pequenos gestos de altruísmo que salvam vidas.
Numa das noites em Dombe sonhei que estava em Portugal, num local perto de minha casa, perto do Autódromo do Estoril, mas com uma cheia que invadia a estrada. Estava de carro, acompanhado pelo meu pai e o cenário era assustador. Não arriscámos enfrentar as águas e logo acordei. Nessa noite o frio já se fazia sentir em Dombe, tapei-me e lembrei-me do que as famílias estariam a pensar das mantas da GALP que foram oferecidas às comunidades que tudo perderam. Será que também olham para as pessoas da Helpo como heróis? Eu sempre sinto que apenas estamos a fazer o nosso trabalho e que os verdadeiros heróis são os padrinhos, madrinhas, amigos da Helpo, empresas parceiras que, a mais de 9.000 Km confiam em nós, nos dão uma força imensa, em bens monetários, bens materiais, palavras de apreço, que nos dão muita força e ajudam a minimizar o sofrimento de quem tem tão pouco, mas está sempre pronto para devolver um sorriso.
Testemunho de Carlos Almeida, coordenador Nacional da Helpo em Moçambique. #Idai #Kenneth
Foi na tarde de 6 de abril que trouxemos o pequeno Obede para a unidade de Internamento de Desnutrição Grave, no Hospital de Dombe.
No meio da entrega de kits de alimentação e higiene, na comunidade de Massongo, descobrimos aquele ser minúsculo, de olhos encovados e cabelos amarelos, descolorados pela fome. Acompanhava-o um choro monocórdico e quando, por entre a capulana que o prendia às costas da mãe, tentamos procurar pelos sinais de emagrecimento, deparamo-nos com um caso grave de marasmo, com todos os ossos e costelas visíveis, com a pele dos braços e das pernas que parecia solta do próprio corpo.
Em menos de nada, tínhamos várias mulheres à nossa volta, a gritar e a gesticular, numa comunicação difícil de entender, e só a chegada de um homem, primo da mãe do Obede, acalmou a situação. Explicamos a condição crítica da criança, que seria muito importante garantir cuidados de saúde adequados no hospital e, num bom português, esclareceu-nos que as mulheres estavam a incentivar aquela mãe a pedir-nos ajuda, pois tem rejeitado levar a criança ao hospital.
Obede é o primeiro filho de Eva, uma jovem com aparência de criança, que desconhece a sua própria idade mas que, segundo o primo, terá entre 15 e 17 anos. É a filha mais nova da família, estudou até à 5ª classe mas tem dificuldade em expressar-se em português, ao que se mistura a timidez da meninice, neste caso roubada muito precocemente. O pai faleceu muito novo e Eva casou cedo, tendo a sua mãe recebido “lobolo”, que consiste na oferta de um dote por parte do homem à família da mulher, tradição muito forte na cultura moçambicana. É a terceira mulher do seu marido, que está na África do Sul, e toda a sua resistência em ir ao hospital se justificava no medo de sair da comunidade sem autorização do marido ou de outro homem da família. O primo assumiu essa autorização e, nesse momento, Eva ajoelhou-se e baixou os olhos, em sinal de respeito e agradecimento. Atravessamos o rio Mussapa na casca de árvore e o pensamento nos crocodilos, que marcaram a primeira travessia, ficou toldado pelo caso crítico que tínhamos à frente. Eva, com o seu ar assustado, e o pequeno Obede, ficaram no Hospital, já com todos os cuidados nutricionais e médicos possíveis, com roupa para a criança e uma cesta de alimentação para a mãe.
Três semanas e meia depois, Obede teve alta. O choro deu lugar a um sorriso; os ossos visíveis e a pele flácida deram lugar a tecidos reconstruídos com um bom ganho de peso. O ar assustado de Eva deu lugar a um ar repleto de confiança.
A nossa força e motivação é alimentada por dias como este, trabalhando para que todos os casos de desnutrição tenham o feliz desfecho do nosso pequeno Obede!
* Testemunho de Liliana Granja, nutricionista na missão humanitária da Helpo no Dombe #Idai
O Kenneth passou, e foi precedido por dias todos iguais: carregados de chuva, de cadastros de pessoas que perderam totalmente, que perderam parcialmente, que perderam… O Kenneth e as chuvas que convidou a ficar não atingiram mortalmente uma cidade inteira, alagaram, alagaram e continuam a alagar tudo o que ainda subsiste sobre a terra que, saturada pela água, vai cedendo todos os dias mais um bocadinho. Assim, com esse cansaço, se engrossam os números de quem perdeu totalmente, de quem perdeu parcialmente e de quem continua a somar perdas!
Nas comunidades onde trabalhamos, assistimos todos os dias a estas somas. Onde havia 4 perdas totais depois da passagem do Kenneth, contam-se agora 80, e assim, sem avisos vermelhos em páginas da internet, somamos Mahera à lista de comunidades que é preciso acudir. Silva Macua, Mahera, Mieze. Locais que conhecemos enxutos, há mais de uma década. Lugares dos quais conhecemos de cor as salas de aula, os números de professores e alunos que crescem de ano para ano, as taxas de desistência escolar, as necessidades e obstáculos para a prossecução de ciclos, os diretores de escola, diretores pedagógicos…
Agora, conhecemos de novo estas comunidades, conhecemos-las do avesso. Não do lado da construção de oportunidades, mas do lado de amenizar a dor e de evitar catástrofes maiores! Do lado da fome e do medo de mais fome. Do lado de quem espera uma ajuda por não saber que outra coisa pode fazer quando as colheitas desapareceram, as casas evaporaram e a única coisa que não havia e que não desaparece é a água, a lama, e a chuva vai continuando a visitar a zona todas as tardes. Diligente, consistente e abundante. Tudo o que não se quer.
Recomeçamos um trabalho que aprendemos a fazer há bem pouco tempo: a aferição de quem precisa do quê, a articulação com quem está a trabalhar onde; o cadastro das grávidas, das crianças até aos 5 anos; as listas do que é preciso comprar, a organização dos transportes e as distribuições. Recomeçamos tudo aquilo que não desejaríamos recomeçar, mas que é a única forma de prestar um apoio vital a quem não tem nada!
É difícil pensar em perder tudo, em passar a viver temporariamente nas salas de uma escola, com medo de quando esse temporariamente acabar. A improvisar camas entre secretárias viradas ao contrário e a esperar comida sem saber muito bem quanta e quando virá, nem de onde, nem se tornará a haver. E toda esta crueldade, e tanta realidade bruta, parece não ter bastado uma vez! Será por isso que já não merece a atenção do mundo?
Por enquanto, Silva Macua: 89 casas destruídas totalmente, 180 destruídas parcialmente, 74 mulheres grávidas, 84 crianças até aos 2 anos de idade; Mahera: 35 casas totalmente destruídas, 85 casas parcialmente destruídas (levantamento da situação em atualização); Mieze: 21 casas destruídas totalmente, 28 casas destruídas parcialmente, 280 pessoas desalojadas (levantamento da situação em atualização). Por enquanto, as 280 pessoas de Mieze já foram acudidas com comida, 99 pessoas em Silva Macua também, e foram compradas e carregadas 12,5 toneladas de comida para fazer face, amanhã bem cedo, àquilo que infelizmente, ainda parece ser só parte da realidade!
Não desejaríamos ter que recomeçar, mas recomeçámos! #Kenneth
*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo
Depois da passagem do ciclone Kenneth por cima de Moçambique, embatendo na costa pelo norte e distribuindo a sua fúria um pouco por toda a província de Cabo Delgado, com maior incidência para algumas zonas (áreas costeiras, ilhas e zona de Macomia), o ciclone passou e a população, com as histórias do Idai bem vivas na memória, respirou de alívio ao abrigo do exercício da inevitável comparação.
Mas o Kenneth, afinal, não desapareceu como chegou: ficou pelo norte a fazer jorrar água do céu como se o mar tivesse trocado de lugar com o solo. Ficou a assombrar as casas, os regressos, a comida que as famílias tinham guardada até à próxima colheita. Ficou, e a chuva que começou a acumular-se no chão das casas, nas represas que acabariam por ceder, nas estradas que acabariam por ser engolidas pela água, não arredou pé! Ficámos todos a assistir devagar, porque não há mais nada que se possa fazer, aos tetos e paredes que desistiram de sustentar as casas, ás árvores que, cansadas, desmaiam nas bermas das estradas e às pessoas que somam àquilo que já perderam, o que continuam a perder. Mas agarradas à vida, presas ao medo do imprevisto e à segurança que os portos de abrigo oferecem.
Esta manhã, a caminho de uma das comunidades afetadas, Silva Macua, Sunate ou Salaué, (uma comunidade conhecida pelos três nomes), para entregar um kit de alimentação em emergência às 27 famílias que perderam as habitações na totalidade, a equipa parou numa escola secundária onde damos apoio a 144 estudantes. A escola, transformada em centro de abrigo, está a albergar 210 pessoas, mas não tem como saciar a fome a esta gente! As pessoas são muitas para a comida que conseguimos trazer. Teremos que passar com segundo round! Depois de em Silva Macua termos entregue os bens alimentares que irão ajudar no imediato 99 pessoas, não houve alternativa se não aumentar o volume da encomendas de arroz, farinha, água, óleo, açúcar, sal e sabão para conseguir estender a ajuda a mais gente. Uma ajuda pequena na imensidão da necessidade, mas uma ajuda.
De cada vez que a chuva pára, acende-se a esperança do regresso à normalidade. De cada vez que a chuva pára, o medo recolhe. Mas até agora, por cada vez que a chuva parou, a chuva acabou sempre por regressar. Vamos trabalhar e esperar, trabalhando, pelo dia de amanhã. #Kenneth
* Testemunho de Carlos Almeida, coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique.
Ontem foi um dia daqueles em que parece que o silêncio domina tudo: domina os pensamentos, os receios, os momentos que são de espera, e pousa suavemente sobre todas as coisas que estão à nossa volta. Não é um silêncio feito de calma, mas feito de expectativa e de aflição. A palavra “ciclone” traz à nossa memória recente demasiada informação daquela difícil de digerir, daquela que o sono fica a ruminar sem nos deixar mergulhar em si.
Os nossos olhos permanecem presos à imagem de satélite que traz consigo um desenho circular, cheio de cores que prevêem coisas ora menos boas, ora piores, e o nome “Kenneth” vai pairando sobre nós como que ainda sem saber on de se situa: se do lado da desgraça, se do lado do alívio.
Será possível o mesmo país, as mesmas gentes, conhecerem a fúria da natureza, a sua força de destruição aleatória e total, duas vezes, em pouco mais de um mês? Será possível assistirmos a uma repetição de todo o sofrimento e perda, desespero e abandono, quando ainda nem sentimos o pulso ao rescaldo do primeiro abanão, a 360 graus?
O medo tem coisas boas: os centros de abrigo cheios de gente, a precaução a ganhar terreno à dúvida e, a partir daí basta rezar ou fazer figas ou o que seja que as nossas crenças e superstições nos aconselhem a fazer.
As horas passaram e o vento também. A chuva amainou e a aflição também. O Kenneth é um primo afastado do Idai. Há destruição ao nível material sobre algumas habitações, há árvores caídas, há certamente muito por fazer mas hoje, o dia seguinte, é um dia em que as pessoas amanhecem vivas e junto dos seus. E isso faz toda a diferença. Está quase tudo de pé. Já entrámos em contacto com quase todas as comunidades onde trabalhamos (à exceção de uma cujas comunicações vivem todos os dias um período difícil, mas as más notícias viajam rápido e não há sinal delas). Estão de pé, sobretudo, a nossa esperança e o nosso ânimo para continuar a trabalhar junto daqueles para quem a constatação da previsão meteorológica foi bem mais cruel: a população do centro de Moçambique que demorará muitos anos a recompor-se e uma vida inteira a esquecer o medo da chuva e do vento! #Kenneth
*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo
Hoje deveria ser um dia como os outros, hoje não devia ser um dia diferente, apesar do adeus impactante (a chefe de missão partiu para ser submetida a uma cirurgia em Portugal, e regressará logo que tenha autorização médica para o fazer).
No centro da missão, mais duas consultas foram realizadas e aferiu-se mais 1 caso de intolerância à proteína do leite e outro de Desnutrição Aguda Grave (DAG) com complicações médicas (uma menina de 20 meses cuja mãe, Zipone Mateus, testemunha: “passam 7 dias e desde que os pés e os olhos começaram a encher ela não mama e não aceita comer”) falava ela com um caudal correndo no seu rosto e uma melancolia preencheu a sala. A menina foi referida para internamento no Centro de Saúde de Dombe. Mais uma.
Enquanto isso, noutra sala, ouvia-se a voz do Francisco (missionário da Fazenda da Esperança) e também a dos 5 estudantes que iam fazendo os kits de alimentos – 112 unidades.
Algo faltava para fazer acabar o dia: segui para o reassentamento de Muwawa, localidade de Darue (Dombe). Aquele que antes era o Centro de Alojamento de Máquina, mudou de lugar, imagem e ganhou outro nome. Aqui começou a “caça” a 4 crianças sendo que duas tinham sido previamente diagnosticas com Desnutrição Aguda Moderada (DAM) e outras com Desnutrição Aguda Grave (DAG), que aos olhos de 3 nutricionistas não se antevia fácil a sua recuperação e tratamento.
A missão foi um sucesso uma vez que as 4 foram localizadas, 3 suplementadas no local e uma encaminhada para internamento, porque a pele se parecia com calças largas e a cara de meia lua estava patente.
Uff, durante o percurso de volta encontrámos mais uma grávida com perímetro do braço 19,8, o que traduz uma Desnutrição Aguda Grave, que se deliciou logo ali com as famosas e luxuosas bolachas BP-5. Esperemos que operem o seu milagre rapidamente.
A Margarida seguiu para aeroporto de Chimoio na companhia da Liliana e de duas irmãs, (Maria Teresa e Giane). Que vá despreocupada (dentro do possível), buscar saúde, para posteriormente poder vir dividi-la com todos os que precisam do seu apoio. (Nós, por cá, asseguraremos com empenho e zelo todas as atividades desenvolvidas enquanto estiveres fora, mas estaremos a contar pelos dedos, os dias que faltam para o teu regresso, e estaremos juntos pela causa da saúde da nutricional de todas estas pessoas)!
Testemunho de Hélia Seda, nutricionista da equipa da missão humanitária da Helpo, no Dombe #Idai
Hoje foi um dia que lembra a repetição de muitos dos dias vividos no último mês. Foi dia de acordar com a dúvida latente sobre se a noite chegou a passar, de levantar cedo e de estar num dos armazéns que de tão ocupado já parece nosso, para carregar um novo contentor de 40 pés, com destino ao Dombe.
O carregamento do contentor obedece à aferição de necessidades transmitida pelo terreno: x paletes de roupa; x paletes de mantas; x paletes lençóis; de sal e de açúcar; de comidas prontas; de óleo e por aí fora…até que, depois das 46 paletes diligentemente encolhidas entre o metal do contentor, ele se recusa a receber mais um sopro que seja, e as portas fecham-se, para se voltarem a abrir apenas no Dombe, dentro de aproximadamente 6 semanas de viagem…
Depois disto, mais espaço para voltar a encher com os materiais que ainda não foram triados, acondicionados e montados em paletes. Mais alguma necessidade de descanso que talvez não venha a ser suprida, mais alguns músculos que nem sabíamos que tínhamos a avisar que é preciso parar um pouco e respirar.
É agora, quando é preciso parar um pouco e respirar, quando a noite cai e os pensamentos não libertam a mente, que começamos a receber as fotografias do dia de trabalho da equipa que está no Dombe. E esta é a peça do puzzle que vem dar sentido ao dia, aos dias, ao cansaço absurdo que parece só saber somar e a tudo o que vai ficando em suspenso, enquanto há gente que espera ajuda e que precisa dela…agora!
Olho para o lado, e vejo uma lista de sacrifícios cujos protagonistas se recusam a dar-lhes esse nome: as viagens canceladas e antecipadas, aquelas que não chegaram a acontecer; os dias de semana que se transformaram apenas numa corrente contínua de dias de trabalho; os colegas cheios de planos adiados e eventos que já não vai haver; as noites que eles não dormiram porque, como os próprios confessam, “se não for ao hospital dar o leite terapêutico, sei que ninguém vai”; os milhares de quilómetros percorridos magicamente em horas que deveriam ser o dobro…procuro explicar ao meu filho de 4 anos o que estão os meus “amigos do trabalho” a fazer, e digo-lhe que estão a ajudar muitas pessoas ao mesmo tempo, em circunstâncias extremamente difíceis. E ele pergunta: como um super-herói? Engulo em seco. Não gosto de rótulos mas se há um que lhes assenta bem agora, seria este! A eles, e a todos aqueles que ainda resistem e que darão sentido ao envio de mais um contentor! #Idai
*Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo
Eram sete horas da manhã, e sim o dia começou com uma visita dos nossos parceiros da MotaEngil. Afinal é mais uma mão amiga que a equipa encontrou no Dombe. Assim, o difícil torna-se mais fácil, quando as pessoas se fazem pontes e dão o que têm para que as coisas aconteçam. A MotaEngil trouxe um camião para ajudar à distribuição de kits de apoio às famílias, e era um camião de boa disposição e cheio e vida.
Com isso, a comunidade de Nhanhemba finalmente poderia comer e cobrir-se. Desta vez foram 208 kits de apoio às famílias, com alimentos, (contendo um pouco de todos os grupos alimentares) e ainda 208 kits de aconchego, (refiro-me às adoradas e coloridas mantas oferecidas pela Galp).
Enquanto isso, outra nutricionista da equipa, a Liliana, fez-se ao centro de saúde de Dombe para mais um dia de esperança para os pequenos lutadores que precisam do inteiro apoio, alimento e vida que as equipas de saúde possam trazer-lhes.
Hoje a enfermaria ficou lotada: dois casos novos para internamento, o que perfaz um total de 11 casos desde a nossa chegada. No entanto, do outro lado da balança e alívio de toda a equipa, três casos melhoraram satisfatoriamente.
O dia acabou? Não. No centro de saúde da missão ouviu-se um zumbido. Era mais uma criança a precisar de assistência. A mãe, Cidália Titosse aproximou-se da irmã e pediu-lhe, por favor, que ajudasse a sua filha. Cheguei mais perto e só precisei de olhar para perceber os sinais evidentes de desidratação estampados no rosto da menina. A pequena Roda Timóteo, sua filha, estava desnutrida. E vinha engrossar o número de casos que reclamam uma cama de hospital. A mãe, gestante, também apresentava sinais de DAM (desnutrição aguda moderna), e também foi preciso disponibilizar-lhe suplementos.
As horas foram passando e as gavetas de trabalho foram sendo arrumadas. Mas sobrou tempo para rumar à comunidade de Magaro, para antecipar a nossa saúde de amanhã, para mais um rastreio.
Se o nosso mundo é humano, juntos estaremos para Dombe e por Dombe!
Testemunho de Hélia Seda, nutricionista da equipa da missão humanitária da Helpo, no Dombe #Idai
Morre-se de malária, o que não é novidade, mas já não devia ser assim em pleno século XXI. Ficou mais uma cama livre na enfermaria.
Não há medicamentos. A energia elétrica ainda não foi restabelecida. Existe uma ambulância, que é autocarro dos profissionais de saúde, que é carro de compras e que depois também é ambulância. As salas do centro de saúde ficam muitas vezes de porta aberta sem que os responsáveis possam responder, porque eles próprios foram chamados para responder em outro lugar, e, os doentes esperam horas para ser atendidos.
Dava jeito ter outro par de braços e poder dividir o corpo em dois para mais poder fazer. E se não fosse pedir muito, também dava jeito que o dia pudesse ter mais que vinte e quatro horas. Gostava de chegar à cama e adormecer vencida pelo cansaço dos dias tão cheios e intensos, mas fico a lutar contra um turbilhão de emoções.
Hoje exploramos o acesso ao centro de saúde de Bunga. Mas sem resultado. Como choveu nos últimos dias a estrada voltou a ser matope (lama). O enfermeiro Joaquim explicou-nos que o caminho alternativo era atravessar o rio na casca de árvore, colocar a mota nessa mesma casca de árvore, e já do lado de lá, percorrer mais 7km para chegar a Phembanhissa. Arriscado. Muito arriscado.
Em Portugal, parece que a falta de combustível desencadeou uma correria desenfreada para as gasolineiras. Aqui faltam estradas. Faltam pontes que deixem os rios ser apenas natureza, e não inimigos do povo que está isolado. Faltam carros. Falta combustível para o estômago de quem tem de palmear quilómetros com a sola dos pés.
Dualidades. Tenho a sensação de que estou num filme, daqueles que ganham óscares de tão reais que parecem ser. O mais angustiante é que é mesmo real. É real que a esta hora, lá fora, centenas de pessoas dormem ao relento sem terem tido um jantar digno. E nós aqui dentro, vamos dormir num quarto partilhado, pequenino, mas tão luxuoso que é impossível queixar-me de qualquer coisa que seja. Olho para o fundo da cama e as nossas mochilas de campismo que continuam a ser o nosso armário da roupa, dormem num chão mais confortável que a terra molhada dos centros de acomodação.
Estamos em tempo de quaresma. A quinta-feira santa é um dos dias mais importantes para esta congregação que nos recebeu de braços abertos aqui no Dombe, o Instituo das Pequenas Missionárias da Maria Imaculada. E exatamente por isso, a noite de hoje foi carregada de simbolismo. O jantar foi simples. Como é costume, acompanhamos as irmãs na oração de agradecimento pela refeição antes de começarmos a comer. Mas hoje, sentimo-nos duplamente abençoadas quando, em nossa honra, leram uma passagem que nos viria a fazer entender a simbologia dos alimentos que tínhamos em cima da mesa: pão, vinho, cordeiro e ervas ácidas. No lugar do cordeiro (que não se encontra cá), saboreamos um pedaço de peixe, de fácil digestão, como pede a quaresma. O pão, disposto num prato florido, também ele fatiado em forma de flor, mostrou-nos mais uma vez como a Irmã Jeane trata todos os alimentos com um especial carinho. Em representação das ervas ácidas tivemos alface. E o vinho, reservado para ocasiões sagrados, desejado há vários dias, fez o requinte da refeição. O pequeno-almoço de amanhã vai ser simples. Até domingo vai prevalecer o silêncio e a introspeção.
* Testemunho de Margarida Lopes, nutricionista chefe da missão humanitária da Helpo no Dombe #Idai