Feriado, um dia como os outros para as famílias fora das listas das vítimas do Idai 8/04/2019

Em Moçambique, quando o calendário determina que o feriado seja gozado a um domingo, as regras determinam que passe a gozar-se a um dia de semana; assim, o 7 de Abril, dia da mulher Moçambicana, deu direito ao 7, e ao 8.

Dia da mulher Moçambicana é dia de lembrar que a vida se desenrola difícil, sempre difícil, mas um pouco (ou um muito) mais difícil quando se é mulher; num contexto em que ser mulher é menos, a quem se exige muito, muito mais! Em Moçambique a mulher cuida da casa, das crianças, da machamba, do marido, dos velhos, da sua culpa e responsabilidade por tudo de mau que acontece e de bom que não chegou a acontecer. Mas neste país há quem lute e respeite a luta por uma escalada da mulher na íngreme montanha social do reconhecimento. Há uma elevada e crescente representatividade política das mulheres e há um conjunto de organizações atentas e ativas no país, a trabalhar na advocacia pelos direitos das mulheres. Há boas notícias, mas há uma realidade profundamente desigual, injusta e dolorosa que é urgente transformar.

Neste dia 8 foi véspera da partida de parte da equipa (a equipa deslocada desde Nampula e Cabo Delgado regressa aos seus postos a partir do dia 9, atenta às necessidades da equipa da missão em emergência, quer permanece no Dombe). Neste dia, foi dia de garantir que a equipa que fica pode dispor de uma rede de solidariedade importante para o seu equilíbrio e necessidades operacionais; foi dia de estabelecer contactos com outros portugueses em Chimoio e foi dia de balanço de necessidades da missão numa ótica de continuidade da procura de soluções para os ainda incontáveis problemas.

Este dia 8 foi ainda dia de “lançar” ao mar a embarcação Esperança, disponibilizada pela Helpo aos serviços de saúde para que as equipas possam fazer a travessia do rio em segurança e alcançar as comunidades que permanecem num elevado nível de isolamento. A mesma permitirá ainda o transporte de comida e dos kits familiares necessários para amenizar as necessidades das pessoas. Em articulação com o régulo, os primeiros beneficiários começaram a utilizar a “Esperança”!

Foi dia de organizar nova compra de medicamentos identificados como necessários e de ter notícias do Obede: sorriu, está sem vómitos e sem diarreia, tudo bons sinais.

Mas o que mais marcou este dia 8, foi a história do padre Rafael: Saiu com os primeiros raios de sol, de mota, e já a noite ía comprida e o padre não chegava. Acabou por chegar já depois da hora do jantar. Com ele trazia o choque, trazia uma história inacreditável, e a urgência em agir! O padre Rafael fez um troço de 58 km de mota e chegou a uma povoação de nome Muchamba onde só chegou ele! Há 3 semanas que as pessoas desta comunidade estão sem nada, sem ajuda, sem a atenção de nenhum cantinho do mundo ou de alguma das organizações que estão no terreno. O Padre Rafael saiu e não voltava porque era preciso registar cada uma das 410 famílias que encontrou, as suas perdas, os seus nomes, as suas enormes e profundas necessidades.

Todos se preocuparam com a ausência do Padre Rafael, com os perigos e ameaças que poderia ter encontrado em estradas sem luz, de mota, rodeadas de água…e o Padre respondeu às preocupações dizendo que “Em 1991 tive um acidente de mota no qual ía perdendo a vida. Pedi a Deus que me desse mais 10 anos porque iria servir os outros. Já tive mais do que pedi, por isso já não estou preocupado em ficar debaixo de água ou em cair de mota! Não penso em mim, mas penso nas 410 famílias de Muchamba que estão há 3 semanas sem nada.”

Na manhã seguinte, (hoje, dia 9), a Helpo dirigiu-se à OCHA com os dados recolhidos pelo Padre Rafael. Não sabiam, não poderiam saber, e pediram com urgência e gravidade na voz as coordenadas geográficas desta localidade.

E eu, eu penso em quantas “Muchambas” haverá ainda por descobrir na vastíssima área afetada por esta catástrofe; por quantas famílias deveremos multiplicar estas 410? #Idai

Testemunhos de longe, aqui tão perto 6/04/2019

De manhã estivemos a fazer rastreio de nutrição no reassentamento do Dombe. Fizemos 109 avaliações a crianças menores de cinco anos e mulheres grávidas e lactantes. Desse trabalho resultou a sinalização de 4 casos de desnutrição aguda, um deles em grau severo que foi levado ao hospital: uma menina acompanhada pela avó, que estimou a sua idade em menos de dois anos (os boletins de saúde também se perderam nas cheias, e é difícil confirmar estas informações). O estado da menina não denunciava nada de bom: diarreia, vómitos e uma anemia severa visível a olho nu, tal era a palidez da conjuntiva. Já no hospital, o teste da malária deu positivo…
Enquanto isso, o Florêncio (colaborador da Helpo na equipa de Pemba que está dedicado a esta missão por estes dias), ficou a ajudar a equipa liderada pela Irmã Maria Teresa, na preparação dos kits para distribuir à população.
Estivemos nas margens do rio para entregar esses kits às 22 famílias que estão do lado de lá, em Massongo. A carga vai nas cascas das árvores que se transformaram em barcos improvisados, e lentamente… lá chega ao outro lado. E as pessoas que também querem atravessar esperam horas na fila. Os kits que entregamos são compostos por arroz, farinha de milho, feijão, óleo, sal, açúcar. E ainda sabão azul e sabonete para higiene pessoal. À parte, são também entregues sacos com roupa.
A realidade é arrepiante: trouxemos hoje 3 crianças para o hospital, porque no seu estado de saúde não poderiam estar noutro sítio.
Hoje estivemos num local onde se avista a outra margem do rio, onde ainda não chegou a equipa médica, ao fim de todos estes dias. Há muita gente com malária, dizem as pessoas. Muita gente entregue a si própria, enquanto as circunstâncias não permitem contrariar o que se vê e ouve…
Acabámos de chegar agora, com um menino em estado muito, muito SEVERO… Que trouxemos do outro lado do rio (O Obede tem 14 meses e pesa 2.825kg). O enfermeiro de serviço no banco de urgência foi almoçar, o médico, único no distrito, não está, mas já lhe telefonamos e estamos à espera…
Margarida Lopes, nutricionista, chefe da missão de emergência da Helpo #Idai

Dias pequenos para tarefas grandes 5/04/2019

O dia começou com a equipa dividida: 4 na missão, 3 em representação da Helpo na sede da província, distribuídos por reuniões, compras, agilização de transporte de material. A estrada que divide o Chimoio do Dombe começa a parecer menos longa, tal o número de vezes que teima em ser percorrida!

Perto da missão a equipa foi para o terreno, mais precisamente para o reassentamento do Dombe (local que o governo destinou para que aquelas famílias construam as suas novas casas), na aldeia de Mabaia. As nutricionistas integraram a equipa de saúde e puseram mãos à obra. É necessário responder ao anseio da direção provincial de saúde e conseguir a maior cobertura possível nos rasteais nutricionais!

Simultaneamente, do Chimoio saiu o segundo camião carregado de 10 toneladas de sal, óleo, açúcar e sabão. Tudo para integrar os kits de apoio que são entregues às famílias afetadas.

Do lado de cá, os braços das nossas equipas de voluntários, sempre crescentes e de um empenho irrepreensível, eram poucos e lentos para o tamanho da solidariedade que chega em caixas, sacos e afins dentro de carros, carrinhas e camiões! Valeu-nos, mais uma vez, a sensibilidade que a Câmara Municipal de Cascais tem demonstrado para com esta causa, e a disponibilização de um espaço perto da nossa sede, onde podemos triar o material em melhores condições e em maior quantidade, antes de o fazermos seguir para o armazém.

Em menos de nada, entre telefonemas, updates, decisões, muitos problemas e algumas soluções, o sol retira-se sem aviso e o relógio confirma que neste dia não vai caber tudo o que seria desejável. No terreno é noite e as nutricionistas tiveram tempo de abranger mais uma localidade (Máquina), mas ainda não tiveram tempo de voltar. De manhã encontraram-se poucas crianças no rastreio devido ao horário escolar pelo que, quando a rotina permite um olhar mais detalhado sobre os meninos e meninas das comunidades, centros de acomodação e reassentamentos, há que aproveitar!

Hoje o dia começou e acabou num abrir e fechar de olhos. Penso que são precisos tantos dias. Penso que talvez algumas pessoas não tenham esses dias todos. E depois penso que às vezes não adianta pensar. #Idai

Todos saberão que o que fazem permite a muitos outros acreditar 5/04/2019

Todos saberão que o que fazem permite a muitos outros acreditar. Acreditar em algo que damos como garantido: viver!

Obrigado Portugal

 

Estamos a ajudar porque nos ajudam. Nunca serão demais os nossos agradecimentos.

Ajudam-nos e motivam-nos. Uma das mensagens recebidas na nossa página de facebook diz-nos “quero entregar-vos roupa de bebé …sei que vocês entregam”; outra diz-nos “Obrigada por estarem a fazer isto” outra ainda diz-nos “Obrigada pelo vosso nobre trabalho”.  A todos, nós é que agradecemos. Moçambique e, mais concretamente, a população de Dombe (Margens do Rio Buzi, Distrito de Sussundenga, Província de Manica) agradece também o auxílio, tenha que origem tiver, depois de ter sido assolada por uma catástrofe que também não sabe de onde veio.

Mas nós, Helpo, sabemos de onde está a vir a ajuda que nos permite ajudar. E os portugueses são de uma generosidade extrema. Um contentor de 40 pés está prestes a sair do nosso país com destino a Moçambique. As primeiras recolhas em Portugal terminam a 8 de abril. Neste contentor vão roupas de bebé; fraldas de pano; mantas tipo polar; farinhas lácteas e não lácteas; sabão; lixívia e pastilhas desinfetantes; enlatados e alimentos não perecíveis. E tudo, tudo isto, se deve à generosidade dos portugueses.

Foram diversas as empresas, as ONG´s, as autarquias, as juntas de freguesia, os desportistas, os sedentários, as escolas, os professores, os alunos, os pais, as mães, os filhos, as figuras públicas, os prestigiados anónimos e todas as pessoas que possam imaginar que engrossaram a dimensão da nossa ajuda.

E depois disto, não havendo mãos suficientes para embalar tamanha esperança ainda vieram ajudar-nos a organizar em sacolas e paletes o que o altruísmo permite fazer. A norte, em Ermesinde, ou sul, em Cascais, chega de bom tudo um muito e chegam-nos duas centenas de pessoas disponíveis para ajudar. Todos saberão que o que fazem permite a muitos outros acreditar. Acreditar em algo que, por estes lados, damos como garantido: viver! #Idai

Outro Chimoio 4/04/2019

Apesar de ser nove vezes maior que Portugal em área, Moçambique é um país pequeno. Chegado ao aeroporto na fila do check-in encontro duas pessoas, um homem, acompanhado de uma senhora que depois de nos cumprimentarmos, me pergunta se vou para Quelimane ou Chimoio. A responder que vou para Chimoio , pergunta de forma muito afável se sou residente ao que respondo que resido em Nampula e vou para Dombe, Distrito de Sussundenga, por causa de uma missão de emergência de apoio às vitimas do ciclone. Com um sorriso diz-me “tenho o prazer de lhe apresentar a Administradora de Sussundenga!” Mais tarde viria a saber que ele próprio era o Administrador de Chimoio. Aproveitámos para falar sobre desafios e oportunidades que o ciclone trouxe às pessoas e a toda a Província de Manica. Quando entrámos no avião percebi que quem se sentou à minha frente no pequeno avião Embraer 145 de apenas 3 filas, era nada mais, nada menos que o Vice-Ministro da Saúde de Moçambique, João Leopoldo da Costa. E dois lugares à frente Sua Excelência o Governador da Província, Manuel Alberto. Aproveitei para falar sobre os objetivos do trabalho da Helpo na Província, ideias que foram bem acolhidas, uma vez que o Bispo de Chimoio já havia mencionado a nossa chegada ao terreno.

Da parte da tarde, depois de um breve encontro no Gabinete de Coordenação das Nações Unidas, OCHA, onde encontrámos pessoas de várias nacionalidades a procurar informações atualizadas, e que tivemos oportunidade de reunir com o pessoal do INGC, fomos ao encontro do Bispo do Chimoio D. João Carlos Nunes, que já havia dado as boas vindas à equipa e agora recebeu o Coordenador Nacional da Helpo, demonstrando o desejo de que esta vinda da Helpo seja para ficar. Falámos de muita coisa, sobretudo do pedido feito pelas irmãs de Dombe de terem um barco que permita acesso a comunidades que continuam inacessíveis. Os Técnicos da Saúde usam pequenas jangadas feitas de tronco de árvore para cruzar o largo leito do rio, colocando lá dentro uma mota, e estendem o convite à equipa da Helpo reafirmando o desejo de serem feitos rastreios nutricionais no maior número de comunidades possíveis. Não podemos aceitar um convite com tamanha componente de risco para a equipa, mas podemos e conseguimos identificar um barco em Chimoio, que nos poderia ser disponibilizado ao preço “pré-Idai” contrariando a lógica de mercado selvagem que, por exemplo, tomou conta das transportadores em Maputo que fazendo face a uma procura desmesurada, aumentaram os preços em várias centenas percentuais.

O interlocutor da venda do barco, um agrónomo português chamado Vidigal, recebeu-nos muito bem e acompanhou-nos ao barco que apenas conseguimos ver depois do cair da noite. Apesar de nunca ter pensado na compra de um barco na vida, não tenho dúvidas da importância deste investimento, face à situação difícil do momento e à necessidade de efetuar a travessia do rio Lucite em condições normais.

A última vez que tinha estado em Chimoio tinha sido em Novembro de 2011 e na altura conheci uma cidade muito calma e pacata. Senti agora uma cidade vibrante e movimentada, e isto não será certamente devido ao facto de ter havido algumas organizações que movimentaram para cá as suas equipas, apesar de, à hora do jantar, certamente mais de metade das pessoas que saem para jantar, pertencerem às organizações que estão a trabalhar na resposta ao Idai.

Este é outro Chimoio, com outras caras e outros problemas. Com outros riscos e outras solicitações. Com outras agendas e graus de exigência. Desta vez cheguei a este Chimoio, e estou pronto para me tornar útil na seu novo e desafiante contexto.

  • Testemunho do coordenador nacional de projetos da Helpo em Moçambique, Carlos Almeida# Idai

Planos A, B e C (do lado de lá) 4/04/2019

Dia de preparar kits para a entrega às famílias; dia de ir buscar o coordenador nacional de projetos ao aeroporto; dia comparecer na reunião de coordenação com o governador; dia de receber o comunicado de cancelamento da mesma reunião; dia de verificar o estado do barco que estamos a considerar comprar para assegurar a travessia do rio até aos centros de acomodação isolados; dia de aceder aos mapas atualizados das zonas alagadas; dia de marcar os rastreios nutricionais com as equipas de saúde no centro de acomodação; dia de encomendar balanças pediátricas, balanças de chão, balanças de cesto, estadiómetros, fitas para medir o perímetro braquial…

Todos os dias são dias de nova aferição do cenário; dias em que a realidade se transforma tão depressa que aquilo que é válido hoje, é válido apenas para hoje. Por vezes nem tanto. Amanhã há mais uma informação, mais um risco, mais um doador, e o quadro da articulação juntamente com a lógica da complementaridade torna a realidade extremamente volátil e os planos de ação, profundamente flexíveis.

O que já é óbvio ao fim de poucos dias de trabalho, é que a dificuldade em aceder às pessoas diminui em muito o potencial da ajuda a ser dada. Uma das nossos primeiras preocupações é avaliar as possibilidades de ampliar os nossos meios de deslocação: por terra, por água. Os centros de saúde chegam a menos pessoas do que seria desejável uma vez que a sua existência não diminui as distâncias que é necessário percorrer para chegar até eles. Há registo de perto de 30 crianças identificadas com desnutrição aguda moderada (há muito pouco registos ao nível do estado nutricional da população). Não regressam com a regularidade necessária para acederem ao tratamento de que precisam. É essencial trabalhar com os agentes polivalentes e é essencial conseguir articular no terreno equipas móveis, de forma a garantir que quem precisa, obtém o tratamento necessário!

Aquilo que é necessário hoje, estamos a empreender hoje. Amanhã estaremos prontos para continuar…#Idai

* Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

Planos A, B e C (do lado de cá) 4/04/2019

Já perdemos a conta ao número de feitios, formas e tipo de organização em que nos vão chegando os donativos em géneros. À nossa representação em Ermesinde, chegámos a receber um camião do exército que foi pedido por um dos pontos de recolha para transportar até nós o material angariado. É difícil adjectivar o empenho com que as pessoas acorrem, carregadas com sacos ou disponibilizando o seu tempo precioso, às nossas instalações. Há quem peça dias de férias no trabalho, para vir ajudar! Há quem venha de longe.

O enorme armazém gentilmente cedido pela Bandague para os dias que antecedem o envio dos contentores, fez-se pequeno, minúsculo. O armazém de reserva gentilmente cedido pela empresa Marfer para o armazenamento dos donativos já não conhece espaços disponíveis e já avançámos para o plano C: pedir mais um apoio à Câmara Municipal de Cascais em forma de espaço livro para utilizarmos até ao carregamento do segundo contentor.

A equipa estica tanto quanto a energia permite e os segundos do dia aguentam. Não há palavras para descrever quanta roupa se consegue triar, quantos telefonemas se conseguem atender, quantos e-mails se conseguem enviar, quantas reuniões, mapas, pedidos, e quantas páginas na agenda regular se encaixam agora, compactadas ao máximo, num único dia de trabalho que só termina ao fecharmos os olhos sobre a almofada!

É impressionante a disponibilidade das pessoas que, ao telefone, ouvem a nossa voz pela primeira vez, e perante a descrição de uma necessidade identificada pela equipa no terreno, não pestanejam antes de se prontificarem a ajudar com tudo, mas absolutamente tudo, o que está ao seu alcance.

Do lado de cá, continuamos esforçada e diligentemente a fazer a única coisa que podemos fazer para aliviar a frustração de não conseguir mitigar o sofrimento alheio a um ritmo mais acelerado: responder com o maior empenho possível aos apelos das pessoas, dos colegas, dos parceiros. E é para continuar!#Idai

* Testemunho de Joana Clemente, coordenadora geral e executiva da Helpo

O mapa da realidade

Fazer o reconhecimento do distrito, fazer a ligação entre o que se imaginava e o que realmente está ali, diante dos nossos olhos, e saber de entre os locais mapeados, quais aqueles que permanecem apartados da normalidade, é um passo absolutamente necessário para compreender a complexidade com que as pessoas se vêem confrontadas por estes dias.

Voltamos aos números, agora pelos olhos do médico, Dr. Sérgio, do técnico de nutrição, António e do enfermeiro, Sebastião. 18 centros de acomodação (alguns vão desaparecendo, à medida que a água vai permitindo o regresso ao que antes se chamava “casa”), alguns com pouco mais de cem pessoas, alguns com perto de 2.000! Alguns altamente organizados, com equipas de saúde, técnicos de nutrição e equipas de medicina preventiva. Alguns sem as condições mínimas de dignidade, higiene, e disponibilidade de comida. Onde a rotina é desanimada e perigosa.

As listas com o que há para comprar já passaram para o lado da logística para engrossarem os custos, com aquilo que mais sentido faz: medicamentos, um barco que permita o acesso das equipas de saúde às 10 localidades que permanecem isoladas, (sem o prenúncio de mais tragédias escondido na casca de árvore que vai fazendo uma ou outra travessia), fórmulas de tratamento para os casos de desnutrição mais graves.

Ainda há 3 zonas que permanecem isoladas; as suas posições definem-se sempre com relação às margens do rio. O som dos helicópteros é um alívio para quem imagina os rostos famintos à espera da comida e dos cuidados de saúde de quem sobrevoa os céus. Contaram-se mais de 50 viagens, dizem-me. As ajudas existem, e vão chegando às pessoas, apenas não ao ritmo das suas necessidades e expectativas, ao ritmo necessário para lhes dar a ideia de conforto e a ilusão de que não se perdeu tudo.

Umas das 918 pessoas que está alojada por trás da escola secundária do Dombe é um homem com a cara do desolamento: voltara há pouco do Zimbabué com as filhas e a esposa, montara uma moageira. Perdeu a moageira, perdeu a esposa, perdeu as filhas. As águas levaram tudo, e até levaram a vontade de permanência no seu país!

Agora é a hora que o sol impõe para o rescaldo de hoje e planificação da ação para o dia de amanhã!#Idai

Suster a respiração até ao final 2/04/2019

A estrada que liga o Chimoio ao Dombe desembrulha-se em curvas e contracurvas desenhadas nas montanhas. O primeiro camião que faz o transporte de parte da carga do Chimoio ao Dombe partiu e os dois carros da Helpo que transportam a equipa seguiram-lhe o rasto. Antes de chegar ao seu destino, o camião despistou-se e acabou por sair da estrada. Não tombou, ninguém se feriu, mas o destino da carga acabou por ficar irremediavelmente mais distante. Rapidamente as pessoas se posicionaram para remediar o problema: um dos carros ficou junto à carga e ao motorista do camião, o outro seguiu para o Dombe, de forma a largar passageiros e dirigir-se ao posto de polícia que deveria deslocar-se ao local. O sr. bispo foi chamado a ajudar e em pouco tempo (antes do anoitecer), o camião voltou à estrada.

A descrição do que a equipa encontrou ao chegar à missão é difícil de classificar: as pessoas, retiradas da missão pelas equipas que procuram efetuar o realojamento em zonas altas mais seguras, estão acomodadas debaixo de plásticos presos em estacas e com parcas cordas. As irmãs entristecem-se ao contar que na missão podiam servir refeições prontas, ao passo que agora as pessoas recebem comida mas não têm onde nem como cozinhar. Recomeçar parece ser uma palavra que encontra obstáculos a cada sílaba!

A 500m da missão, um outro projeto religioso ficou submerso, os mais de 500 cabritos e 200 galinhas desapareceram. Morreram. Com eles morreu muita gente, desapareceu muita coisa, mas a resiliência de quem restou é impressionante e tudo o que é bom contagia rapidamente a equipa. A vontade não esmorece, só se multiplica. Os problemas resolvem-se um de cada vez, e nós estamos aqui para procurar fazer parte das soluções.#Idai

A “máquina da emergência” 2/04/2019

O dia começou cedo e bem, mas com notícias inesperadas: a equipa técnica reuniu com a responsável pela nutrição ao nível da província, Dra. Carla Saveca, que disponibilizou alguns documentos técnicos e falou do ponto da situação no posto administrativo do Dombe: há 19 centros de acomodação localizados. Desses, 9 ainda permanecem inacessíveis. Sem ajuda regular, sem equipas de saúde, sem ligação fluida ao resto do mundo. Em visita a um dos outros 10 centros de acomodação (onde são recolhidos indicadores de saúde mas não ao nível da nutrição), ela mesma fez uma avaliação rápida a 7 crianças. Dessas 7, 4 estavam com desnutrição aguda. A ajuda é necessária e receberam-nos de braços abertos. Destinaram-nos de imediato medicamentos e micronutrientes para levarmos para o hospital do Dombe. Estamos prontos, vamos colocar mãos à obra.

Do lado da logística, a máquina é imensa e os medos proliferam por todos os lados. Uma falha de comunicação com o INGC ocupou-nos a manhã inteira em reuniões, mensagens e telefonemas. O INGC tinha a expectativa de que a carga transportada pela Helpo ficasse a cargo da gestão do próprio, no Chimoio. A Helpo tinha-se comprometido a canalizar as doações que lhe foram feitas, para o Dombe, em particular para a missão do Instituto das pequenas missionárias de Maria Imaculada. A Helpo com receio de não poder chegar a cumprir a expectativa dos milhares de pessoas em espera da ajuda; o INGC com receio de que a ajuda não seja canalizada para aqueles que dela precisam. Os dois com o mesmo objetivo, acabaram por encontrar uma solução: o INGC será informado de todos os transportes e distribuição de doações (a começar pelo primeiro camião, já a caminho do Dombe), e deslocará um técnico para acompanhar cada uma dessas ocasiões. Tempo morto por um lado, problema resolvido por outro.

A máquina é imensa, a preocupação com as pessoas também. E a verdade é que o cuidado demonstrado pelo INGC é positivo e ainda que estes problemas traduzam pedras na engrenagem, permitem assegurar que a ajuda chega onde é necessária. Ser-se apanhado nesta dinâmica gigantesca é um dano colateral da tão necessária e afamada articulação.

A equipa fez-se ao último troço de 130 kms de estrada. O que nos espera é conhecido no papel, nos números e nas descrições ouvidas nas reuniões, mas impossível de prever como se traduz numa realidade que, a partir de agora, é também a nossa.#Idai